Fábrica de salgados na Irlanda: a história de Higor Martins

Criar uma fábrica de salgados na Irlanda foi a forma encontrada por Higor Martins para unir experiência em confeitaria, conhecimento da produção local e uma demanda que ele observava entre cafés, food trucks e negócios brasileiros.

Neste episódio do Bolder Podcast, Higor conta como começou a trabalhar aos 12 anos em uma fábrica de pães, chegou à Irlanda como estudante e conciliou escola, confeitaria, entregas e venda de coxinhas até construir a Its2eat.

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Neste episódio

  • Como Higor entrou no mercado de trabalho aos 12 anos
  • A decisão de trocar carro e estabilidade pelo intercâmbio
  • A venda de coxinhas na escola e os trabalhos na Irlanda
  • A oportunidade profissional que mudou sua permanência no país
  • Como surgiu a fábrica Its2eat
  • A proposta de misturar produtos brasileiros e europeus

Trabalho desde os 12 anos em Limeira

Higor nasceu em Limeira, no interior de São Paulo, em uma família com recursos limitados. Aos 12 anos, pediu ao pai que o levasse para a fábrica de pães onde ele trabalhava como entregador. Começou embalando produtos, montando caixas e ajudando no que aparecia.

Quando o pai saiu da empresa, Higor já conhecia as rotas e passou a acompanhar novos motoristas. A responsabilidade cresceu rapidamente, mas os estudos continuaram. O acordo dentro de casa era claro: se as notas piorassem, ele teria de deixar o trabalho.

Aos 16 anos, entrou na confeitaria. A velocidade adquirida na fábrica ajudou-o a aprender novas tarefas. Pouco tempo depois, já assumia responsabilidades de produção para mais de uma unidade de uma padaria da cidade.

Antes de viajar, trabalhava como confeiteiro de segunda a sábado e fazia turnos extras como bartender. Higor apresenta essa rotina como parte central de sua formação, embora reconheça que foram anos de pouco descanso.

“Eu não estou na Irlanda de férias. Entrei aqui com um objetivo.”

Higor Martins

A decisão de fazer intercâmbio na Irlanda

A ideia surgiu quando um amigo comentou que faria intercâmbio na Irlanda. Higor não sabia exatamente o que era um intercâmbio nem onde ficava o país. Depois de entender que poderia estudar e trabalhar dentro das regras vigentes, decidiu participar.

A decisão contrariava o plano que vinha construindo no Brasil. Ele tinha emprego, carro e pensava em comprar uma moto e dar entrada em um apartamento. O pai questionou o investimento e lembrou que Higor não falava inglês.

Mesmo assim, Higor pagou o curso e a passagem com o dinheiro dos próprios trabalhos. Deixou o carro e parte do seguro-desemprego para ajudar a família. Quatro dias antes da viagem, conseguiu completar a quantia necessária para levar à Irlanda.

Casa com 14 pessoas, escola e vários trabalhos

Ao chegar em 2017, Higor passou uma semana em acomodação temporária e depois mudou-se para uma casa com 14 moradores e apenas um banheiro. Para ele, aquela situação não era motivo para voltar: o investimento já havia sido feito e agora precisava encontrar soluções.

Uma das primeiras foi cozinhar em casa. Higor preparava doces e coxinhas, colocava tudo na mochila e vendia na escola. Depois conseguiu trabalho em uma padaria brasileira, comprou uma moto e passou a fazer entregas à noite.

Em alguns períodos, começava a produção por volta das cinco da manhã, ia à aula e trabalhava novamente depois da escola. Também fez entregas para uma pizzaria. Essa sequência ocupou boa parte do primeiro ano.

O objetivo de voltar melhor do que chegou

Higor foi ao Brasil por um mês em 2018 já decidido a renovar o intercâmbio. Sua meta era retornar com mais experiência, inglês, estudo e recursos do que tinha antes da viagem, mesmo que um dia optasse por morar novamente no Brasil.

De volta à Irlanda, trabalhou como padeiro e confeiteiro durante a madrugada em um grande café de Dublin. Treinava e tomava banho na academia antes da aula e ainda assumia outros turnos. Foi nessa empresa que conheceu um chef que mais tarde o convidaria para uma fábrica.

A oportunidade que mudou sua permanência na Irlanda

Quando o antigo chef assumiu outra operação, chamou Higor para conhecer a empresa e ofereceu trabalho em período integral. A empresa tentou obter uma permissão de trabalho para ele, mas o pedido não se encaixava nas regras aplicáveis à atividade naquele momento.

O proprietário havia prometido ajudá-lo a permanecer no país e decidiu pagar sua faculdade. Higor descreve o momento como uma oportunidade que mudou sua história. O processo coincidiu com o início da pandemia e com alterações no funcionamento da imigração.

Tempos depois, ele se desligou da empresa. A experiência, porém, deixou contatos, conhecimento de produção em escala e familiaridade com as exigências sanitárias necessárias para abrir seu próprio espaço.


Como surgiu a fábrica Its2eat

A ideia existia desde os primeiros trabalhos de Higor com a comunidade brasileira. Ele percebia que muitos pequenos negócios produziam em cozinhas limitadas. Uma fábrica capaz de fornecer salgados e doces poderia atender vários deles e liberar tempo para que se concentrassem nas vendas.

Quando sua situação permitiu formalizar uma empresa, Higor retomou o projeto. Um amigo entrou como parceiro e os dois decidiram procurar um espaço, registrar o negócio e desenvolver uma estrutura profissional desde o começo.

Máquinas brasileiras e regras europeias

A Its2eat importou três máquinas brasileiras destinadas à produção de salgados. Para entrar na Europa, os equipamentos precisavam atender às certificações correspondentes. Higor encontrou fornecedores e transportadoras que já conheciam esse processo.

A abertura também envolveu registro empresarial, impostos e inspeção sanitária. Higor afirma que o processo foi exigente, mas não o considerou complicado porque havia aprendido os controles durante os empregos anteriores e sabia a quem pedir orientação.

Regras, órgãos, certificações e permissões mudam. Essa é a experiência relatada por Higor na época da entrevista e não substitui a verificação atual com autoridades e profissionais especializados.

O que a fábrica produz?

O catálogo foi pensado para atender tanto o público brasileiro quanto o irlandês. Coxinha, pão de queijo e outros salgados convivem com produtos mais familiares aos cafés locais. A fábrica também fornecia para food trucks, cafeterias e eventos.

O nome não foi escolhido para limitar a marca a uma nacionalidade. A proposta apresentada no episódio é criar uma “mistura de culturas”: técnicas e sabores brasileiros, irlandeses, franceses e italianos podem aparecer no mesmo produto.

Como apresentar coxinha ao público irlandês?

Higor percebeu que consumidores irlandeses tendiam a repetir escolhas conhecidas. Para introduzir um produto diferente, degustação, explicação e relacionamento com o cliente eram mais importantes do que simplesmente colocá-lo na vitrine.

A coxinha, porém, produzia reações fortes entre quem experimentava. Na conversa, Higor conta que clientes europeus perguntavam como tinham passado tantos anos sem conhecer aquele salgado.

Da fábrica para o café

Ao lado da fábrica havia um espaço que permitia criar uma área de atendimento. Como os equipamentos e produtos já estavam no mesmo local, Higor e os sócios decidiram avançar com um café e também considerar uma operação de pizza.

Na época da gravação, o café ainda estava em treinamento e preparação para inaugurar. A intenção era vender os produtos da fábrica, trabalhar com café brasileiro e apresentar ao público combinações desenvolvidas pela equipe.

Endereço, horário, produtos e funcionamento citados no episódio são históricos. Consulte os canais da empresa para informações atuais.

Chefe ou administrador?

Mesmo envolvido em marketing, compras e decisões empresariais, Higor se considera primeiro um chef. Sua atenção permanece na cozinha e na qualidade final do produto. Para ele, divulgação nenhuma sustenta um negócio se a comida não corresponde à promessa.

Ao liderar a equipe, procura resolver problemas sem prolongar a discussão sobre culpa. A prioridade é encontrar uma solução imediata, repetir corretamente o que precisa ser entregue e definir uma forma de evitar o mesmo erro.

O que a trajetória de Higor ensina sobre empreender?

  1. Experiência prática acumula. A fábrica de pães, as confeitarias e a produção irlandesa prepararam Higor para operar em escala.
  2. Observar problemas pode revelar um mercado. Pequenas cozinhas precisavam de fornecedores capazes de produzir com regularidade.
  3. Formalização faz parte do produto. Registro, certificação e segurança alimentar não são detalhes opcionais.
  4. Relacionamentos criam oportunidades. Antigos chefes, colegas e parceiros tiveram papéis concretos na trajetória.
  5. O objetivo precisa ser pessoal. Higor não considera uma pessoa melhor que outra por trabalhar mais; ele destaca que cada uma busca resultados diferentes.
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De estudante a dono de fábrica na Irlanda

Higor não chegou à Irlanda com um plano de fábrica pronto. O negócio nasceu da experiência anterior, da venda de coxinhas na escola, dos empregos em produção e da percepção de que vários empreendedores precisavam do mesmo tipo de fornecedor.

O episódio também mostra o peso da família em suas decisões. Anos depois de sair do Brasil sem pedir ajuda financeira, ele conta com emoção sobre a compra das passagens para que os pais e o irmão conhecessem sua vida na Irlanda e sua filha recém-nascida.

Assista à entrevista completa para acompanhar essa trajetória desde a primeira fábrica de pães até a criação da Its2eat.


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