Como trabalhar com UX Design e construir uma carreira na Irlanda? No Bolder Podcast 224, Bolder conversa com Rafael Basso, Kleverson Morais e Renan Rios, três designers brasileiros com trajetórias diferentes no mercado irlandês. Eles explicam o que UX e UI realmente significam, como conseguiram suas oportunidades, o peso do inglês e do visto, o que colocar no portfólio e quais habilidades importam mais do que dominar uma ferramenta específica.
O episódio também entra na rotina dos projetos, na relação com desenvolvedores, em acessibilidade, trabalho remoto e inteligência artificial. Em vez de apresentar uma fórmula pronta, os convidados mostram caminhos concretos — inclusive os empregos fora da área, o trabalho voluntário e as tentativas que fizeram parte da transição.
Qual é a diferença entre UX e UI Design?
Renan resume UX como o trabalho de entender a experiência do usuário: investigar o que a pessoa precisa, por que ela age de determinada maneira e qual caminho deve percorrer dentro de um produto. UI está mais ligado à interface que materializa essa pesquisa — telas, botões, imagens, textos, cores e hierarquia visual.
Na prática, as funções frequentemente se misturam. Algumas empresas mantêm profissionais separados para pesquisa e interface; outras esperam que a mesma pessoa conduza as duas etapas. Renan cita a Ryanair como um ambiente no qual UX e UI eram divididos em duplas, enquanto em outras empresas nas quais trabalhou o mesmo designer assumia todo o processo.
Os convidados reforçam que experiência do usuário não começou com a popularização do termo “UX”. Pesquisa, personas, wireframes, usabilidade e arquitetura da informação já apareciam em publicidade, marketing, e-commerce e desenvolvimento. A diferença é que essas práticas foram organizadas em uma disciplina mais reconhecida pelo mercado.
UX não existe apenas em aplicativos e sites
Embora a maioria das vagas esteja ligada a produtos digitais, os princípios de UX também podem ser aplicados ao mundo físico. O grupo menciona desde a organização de um supermercado até o desenho de uma embalagem.
Um dos exemplos discutidos é a substituição da antiga garrafa de vidro de ketchup por uma embalagem plástica mais fácil de manusear. Ao observar famílias usando o produto, seria possível perceber que o peso e o risco de quebrar limitavam seu uso por crianças. A solução não foi apenas estética: alterou quem conseguia usar o produto e com que frequência.
Três caminhos diferentes para trabalhar com UX Design
As histórias de Rafael, Kleverson e Renan deixam claro que não existe uma única formação obrigatória para entrar em UX. Os três chegaram à área a partir de experiências anteriores em publicidade, design gráfico, mídia digital, interação e tecnologia.
Renan: do design de interação a uma vaga ainda no Brasil
Renan se formou em Publicidade, mas encontrou poucas oportunidades na área em Belo Horizonte. Por indicação de um professor, começou a estudar Design de Interação, quando o nome UX ainda não era tão disseminado. Também experimentou desenvolvimento front-end, mas decidiu concentrar a carreira no design depois de conquistar uma vaga em uma empresa de engenharia.
Ao perceber que tinha pouco espaço para crescer, Renan buscou maneiras de fortalecer o currículo. Ele concluiu que acumular cursos, sem experiência prática, não resolveria o problema sozinho. Como tinha direito à cidadania portuguesa, organizou a documentação e passou a se candidatar a vagas europeias ainda no Brasil.
Depois de aproximadamente quatro meses e de 10 a 12 entrevistas, recebeu uma proposta na Irlanda. A empresa queria confirmar se ele estava disponível para se mudar e se possuía autorização para trabalhar. Em cerca de um mês, Renan deixou o emprego, mudou de país e iniciou a nova função.
Rafael: da limpeza no Burger King ao banco irlandês
Rafael chegou à Irlanda com cerca de 12 anos de experiência em design, mas não entrou imediatamente em um escritório. Passou 11 meses trabalhando na limpeza de um Burger King porque queria ganhar fluência e ampliar o vocabulário cotidiano em inglês.
Depois, tornou-se revisor de conteúdo em uma empresa que prestava serviços para uma grande rede social. Rafael percebeu que aquela organização possuía uma área de design e começou a se conectar com profissionais internamente. Quando um gerente na República Tcheca precisou de designers voluntários para um projeto, ele usou parte de suas horas livres para participar.
O acordo era trabalhar por alguns meses enquanto o gerente tentava abrir orçamento para contratá-lo. Antes que isso acontecesse, um banco irlandês encontrou o conteúdo que Rafael publicava no LinkedIn e o convidou para um processo seletivo. Após as entrevistas, a proposta chegou em dois dias. Mais tarde, outra oportunidade também apareceu por meio do LinkedIn, mesmo sem ele estar procurando emprego.
Kleverson: intercâmbio, inglês e venda de porta em porta
Kleverson já acumulava cerca de 15 anos em design, começando como designer gráfico e trabalhando bastante como freelancer. Ele sentia que havia chegado a um limite profissional no Brasil e identificou o inglês como a principal barreira para continuar crescendo.
Veio à Irlanda como estudante, inicialmente com a ideia de fazer uma pausa de um ano na carreira para aprender o idioma. Morou por dez meses com uma família irlandesa e precisou se adaptar ao sotaque, ao vocabulário e à dinâmica da casa.
Uma das experiências mais marcantes foi trabalhar vendendo leite e derivados de porta em porta. Depois de um começo com poucas vendas e de enfrentar um comentário racista de um supervisor, Kleverson reformulou sua abordagem com a ajuda da família anfitriã. Ao admitir para os moradores que ainda estava aprendendo inglês e pedir ajuda, passou a criar conversas, bater metas e ganhar confiança para voltar à sua área.
É preciso ter inglês fluente para trabalhar com UX?
O inglês aparece como uma ferramenta central porque UX exige comunicação constante. O profissional precisa entrevistar usuários, apresentar decisões, negociar prioridades e explicar o raciocínio para gestores, desenvolvedores e outras áreas.
Isso não significa esperar um inglês perfeito antes de se candidatar. Rafael afirma que já conseguia se comunicar quando chegou e talvez pudesse ter aplicado mais cedo, mas preferiu fortalecer a fluência. Kleverson, por sua vez, desenvolveu confiança ao conversar diariamente com moradores durante o trabalho de vendas.
O episódio mostra que o vocabulário técnico costuma ser familiar para quem já trabalhava com tecnologia no Brasil. O desafio maior pode estar nas reuniões, nos sotaques e nas conversas menos previsíveis. Os convidados também observam que trabalhar com equipes internacionais pode facilitar a comunicação, porque outros imigrantes tendem a falar de maneira mais clara com quem não é nativo.
Visto e autorização para trabalhar na Irlanda
Na experiência dos convidados, possuir cidadania europeia ou outra autorização de trabalho aumentava bastante as chances de contratação. Renan conseguiu a vaga ainda no Brasil porque tinha cidadania portuguesa. Kleverson chegou como estudante e, posteriormente, obteve outra condição migratória por meio do casamento.
Eles alertam que uma empresa pode hesitar em patrocinar um profissional iniciante quando existem candidatos locais ou já autorizados a trabalhar. Para alguém muito especializado e experiente, a negociação pode ser diferente, mas um candidato júnior tende a enfrentar mais resistência.
As observações sobre vistos e mercado refletem o período em que o episódio foi gravado. Regras migratórias e critérios de contratação mudam; consulte sempre as fontes oficiais da Irlanda antes de planejar a mudança.
Como é o trabalho de um UX Designer no dia a dia?
A rotina não se resume a desenhar telas bonitas. O designer pesquisa, entrevista usuários, cria hipóteses, organiza jornadas, faz wireframes e protótipos, testa soluções, acompanha métricas e apresenta suas decisões. Também precisa lidar com reuniões, revisões e limitações técnicas ou comerciais.
Renan descreve o choque positivo ao encontrar processos mais organizados em uma empresa grande na Irlanda, depois de ter sido o único designer júnior em sua experiência anterior. Rafael pondera que o nível de organização varia de empresa para empresa: reuniões excessivas, idas e voltas e mudanças de escopo também fazem parte do trabalho.
Para ele, refazer uma solução não significa necessariamente que o processo deu errado. A primeira ideia costuma mudar quando entram informações sobre o usuário, o negócio e a tecnologia. O importante é que as decisões sejam sustentadas por evidências, não apenas por preferência visual.
Testes e resultados mensuráveis
Um dos casos citados envolve a criação de duas versões de um e-mail para um e-commerce de suplementos. As versões foram enviadas simultaneamente para comparar cliques, engajamento e vendas. Depois, a base foi segmentada para que pessoas interessadas em emagrecimento não recebessem, por exemplo, campanhas de whey protein sem relação com seu objetivo. Segundo o relato, a mudança trouxe um aumento de aproximadamente 5% a 10% nas vendas geradas pelos e-mails.
UX Designer precisa saber programar?
Não é obrigatório escrever código em todas as vagas, mas os três consideram útil entender os fundamentos do desenvolvimento. Esse conhecimento ajuda o designer a propor soluções viáveis, dialogar com programadores e acompanhar a implementação depois de entregar as telas.
Rafael lembra que o designer precisa explicar o “porquê” das decisões. Saber como uma interface será construída facilita a negociação quando alguém afirma que uma mudança é tecnicamente difícil. Também permite inspecionar o produto pronto e identificar diferenças entre o protótipo e a implementação.
Em algumas posições, noções de front-end aparecem como requisito. Ainda assim, comunicação e colaboração continuam sendo mais importantes do que tentar assumir o trabalho do desenvolvedor.
Acessibilidade faz parte do UX
O episódio dedica uma parte importante à acessibilidade. Em um banco, Renan precisava seguir diretrizes específicas, testar as telas com leitores de tela e revisar o resultado depois do desenvolvimento. Os convidados também mencionam plugins capazes de simular diferentes níveis de daltonismo e ferramentas para conferir contraste.
Há ainda elementos invisíveis para grande parte do público, como a descrição correta de imagens e a estrutura que permite a navegação por tecnologias assistivas. A acessibilidade precisa ser considerada desde o design até o código, e não incluída como um detalhe no final do projeto.
Quais ferramentas um UX Designer precisa dominar?
Figma, Sketch e Adobe XD aparecem na conversa como ferramentas comuns daquele período, além de plataformas colaborativas como Miro. Mas os convidados insistem em um ponto: a carreira não deve ser construída em torno de um software.
Um designer pode dominar comandos e ainda não saber formular uma boa pergunta para o usuário. Por outro lado, quem entende pesquisa, arquitetura da informação, prototipagem e design de interação consegue migrar entre ferramentas semelhantes com relativa rapidez.
Vale conhecer o programa pedido na vaga e assistir a alguns tutoriais antes da entrevista, mas não faz sentido deixar de se candidatar apenas porque a empresa utiliza uma ferramenta diferente. Softwares mudam; a capacidade de resolver problemas permanece.
Como montar um portfólio de UX sem experiência?
Para quem pergunta como trabalhar com UX Design sem ter atuado na área, a recomendação mais repetida é criar estudos de caso próprios. Renan sugere partir de uma experiência ruim com um produto real: identificar o problema, pesquisar o contexto, redesenhar a solução e explicar todo o processo.
O objetivo não é fingir que o projeto foi contratado por uma empresa. É demonstrar como o candidato pensa. Um bom case apresenta o problema, as hipóteses, as decisões tomadas, os testes realizados e o que poderia ser medido. As imagens ajudam a chamar atenção, mas o recrutador também quer entender o raciocínio.
Projetos voluntários são outro caminho. Rafael conta que trabalhou por sete meses com uma organização motivacional. Mesmo sem remuneração, havia gestão, prazo, colaboração e um problema verdadeiro para resolver. Além de gerar experiência e referência, o trabalho produziu algo concreto para mostrar no portfólio.
LinkedIn, conteúdo e networking
Os convidados recomendam tratar o LinkedIn como uma rede profissional, não apenas como um lugar para enviar currículo. Isso inclui identificar quem recruta para uma vaga, iniciar conversas, conectar-se com designers mais experientes e compartilhar o que está sendo estudado.
Um profissional júnior não precisa se apresentar como autoridade. Pode publicar um resumo de uma leitura, uma dúvida de projeto ou um aprendizado de curso. No caso de Rafael, a produção de conteúdo fez com que gestores o encontrassem e o abordassem com oportunidades.
Mentorias e revisões de portfólio também podem acelerar o processo. Uma pessoa mais experiente consegue indicar problemas que um curso gravado nem sempre identifica: apresentação confusa, case superficial, perfil incompleto ou falta de conexão entre pesquisa e solução.
Como estava o mercado de UX Design na Irlanda?
Na época da gravação, os convidados percebiam uma desaceleração depois do forte crescimento da tecnologia durante a pandemia. Layoffs aumentaram o número de profissionais experientes disponíveis, enquanto a quantidade de vagas diminuiu. Para quem buscava estágio ou primeiro emprego, a disputa havia ficado mais intensa.
Eles também observavam a transição de muitas posições totalmente remotas para modelos híbridos, normalmente com um ou dois dias de escritório por semana. Ainda existiam vagas remotas e presenciais, mas a configuração dependia da empresa e podia ser negociada.
A leitura do episódio não é que iniciantes devam desistir. É que salário alto não pode ser a única motivação. Mercados passam por ciclos, e quem entra apenas durante uma fase de expansão pode se frustrar quando a competição aumenta.
A inteligência artificial vai substituir UX Designers?
O grupo reconhece que ferramentas de inteligência artificial já conseguem gerar imagens, interfaces e variações de conteúdo, reduzindo o tempo gasto em tarefas operacionais. Isso pode permitir que uma equipe menor produza mais e afetar profissionais cuja entrega se limita à execução visual.
Ao mesmo tempo, UX exige descobrir o que a empresa e o usuário realmente precisam — algo que nem sempre aparece de forma clara em um pedido. Pesquisa, contexto, negociação e interpretação de comportamento continuam relevantes. A expectativa dos convidados é que a IA transforme o trabalho e filtre parte do mercado, em vez de simplesmente eliminar toda a profissão.
O caminho para entrar em UX Design
A conversa termina com um conjunto de ações práticas: aprender os fundamentos, criar estudos de caso, buscar experiência real ou voluntária, melhorar o inglês, construir um LinkedIn em inglês e pedir feedback a profissionais da área. Cursos podem oferecer uma base, mas não substituem prática, portfólio e capacidade de explicar decisões.
As trajetórias de Rafael, Kleverson e Renan mostram que trabalhar com UX Design pode envolver desvios, empregos fora da área e muita construção de relacionamento. O diferencial não é apenas desenhar uma interface atraente, mas demonstrar que você consegue compreender um problema, ouvir pessoas e transformar evidências em uma solução possível.
Assista ao episódio completo para acompanhar os exemplos, as experiências profissionais na Irlanda e as respostas dos convidados às perguntas do público.
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