Abrir um restaurante na Irlanda não fazia parte do plano original de Carlos Sakai. Ele chegou a Dublin para estudar inglês, trabalhou de madrugada em uma casa noturna e começou a preparar sushi para amigos como uma forma de complementar a renda do intercâmbio.
Neste episódio do Bolder Podcast, Carlos explica como aquelas primeiras refeições em casas compartilhadas se transformaram em um serviço de festas, depois em delivery e, finalmente, no Sushi Sakai. A história inclui erros de operação, centenas de mensagens em um lançamento e a adaptação de uma cozinha doméstica para uma estrutura profissional.
Neste episódio
- A trajetória profissional de Carlos antes da Irlanda
- Como a comissão de uma venda financiou o intercâmbio
- O trabalho noturno e a dificuldade com o inglês
- O início do sushi preparado na casa dos clientes
- O lançamento do delivery durante a pandemia
- A transição para uma cozinha e um restaurante profissionais
De Diadema ao mercado de trabalho em São Paulo
Carlos nasceu em Diadema e passou a infância entre diferentes bairros e cidades. Aos 17 anos, durante um período em Minas Gerais, trabalhou em uma fábrica de costura para ajudar em casa. De volta a São Paulo, entrou em uma empresa de copiadoras.
Permaneceu aproximadamente cinco anos nessa empresa. Começou operando máquinas, passou pela assistência técnica e chegou às áreas comercial e administrativa. Ao mesmo tempo, cursava Gestão de Marketing. Sua rotina incluía trabalho em período integral, faculdade à noite e várias horas no transporte público.
A vontade de mudar levou Carlos ao mercado imobiliário. O começo como corretor foi difícil: passou meses sem receber a comissão de uma venda e precisou comercializar cosméticos para pagar as contas. Nesse intervalo, aceitou trabalhar como motorista de um restaurante japonês.
O primeiro contato prático com a cozinha japonesa
No restaurante, Carlos fazia compras e transportava mercadorias, mas também ajudava ocasionalmente no salão e na cozinha. A convivência com as proprietárias aproximou-o da cultura japonesa. Em casa, passou a levar alguns ingredientes e testar sushi como hobby.
Quando a imobiliária o convidou a voltar com melhores condições, ele aceitou. Pouco depois, vendeu um imóvel de alto valor e recebeu uma comissão que, somada à venda do carro, finalmente tornou o intercâmbio possível.
“Antes eu tinha o sonho, mas ele parecia muito distante. Quando recebi aquela comissão, pensei: agora eu vou.”
Carlos Sakai
A chegada à Irlanda com pouco dinheiro
Durante os meses entre a decisão e a viagem, Carlos continuou pagando as próprias despesas e ajudando a família. Por isso, chegou à Irlanda com uma reserva menor do que havia planejado e contou com o apoio inicial de um amigo.
Logo no primeiro mês, uma amiga indicou Carlos para trabalhar em uma casa noturna. O inglês era limitado, então ele compensava assumindo todas as tarefas que apareciam: carregar caixas, limpar o chão, cuidar dos banheiros e recolher a sujeira deixada depois das festas.
Os turnos iam aproximadamente das dez da noite às quatro da manhã. Carlos admite que frequentou pouco a escola no primeiro ano e acreditou que aprenderia inglês apenas por estar no país. Mais tarde, percebeu que precisava estudar e criar situações reais de convivência com pessoas de outros idiomas.
Como surgiu o Sushi Sakai
Em uma casa compartilhada com outros estudantes, os amigos insistiam para que Carlos preparasse sushi. As primeiras vezes foram apenas encontros em que todos dividiam o custo dos ingredientes. O resultado agradou e surgiu a pergunta: por que não vender?
A necessidade ajudou a transformar a ideia em serviço. Carlos tinha pouco dinheiro na conta e percebeu que poderia ganhar mais preparando uma refeição para um grupo do que trabalhando toda a madrugada e pagando transporte para voltar para casa.
Ele publicou um anúncio oferecendo-se para cozinhar na casa do cliente, com um número mínimo de participantes. Laís, a primeira pessoa que respondeu sem conhecê-lo, tornou-se também a origem do primeiro feedback: prestar atenção à limpeza final e ao cheiro deixado na cozinha.
Cozinhando nas casas de intercambistas
O começo foi improvisado. Carlos levava facas e utensílios da própria casa e trabalhava com a estrutura disponível em cada endereço. Encontrou cozinhas pequenas, fogões com problemas e até locais sem iluminação adequada.
O serviço se espalhou por indicação. Ele atendeu repúblicas, casais, famílias e grupos de amigos, viajando também para cidades fora de Dublin. Em alguns períodos, tinha reservas para um mês inteiro e chegava a realizar duas festas na mesma noite.
A experiência permitia preparar tudo diante do público, servir ingredientes frescos e deixar a cozinha organizada ao final. Ao mesmo tempo, Carlos aprendia a respeitar o espaço do cliente, administrar conversas durante a festa e manter o ritmo de produção.
Da festa ao delivery durante a pandemia
Quando a pandemia interrompeu os eventos nas casas, Carlos precisou mudar o modelo. Retirou os móveis da sala, comprou geladeiras e equipamentos e montou com amigos uma operação de delivery dentro de casa.
Antes do lançamento, testou as caixas com amigos e ajustou o produto. Então anunciou o delivery no Instagram. A reação foi muito maior do que esperava: segundo Carlos, chegaram mais de 400 mensagens.
O primeiro dia quase terminou em desistência
A expectativa era produzir cinco ou seis pedidos. Carlos aceitou cerca de 30, mas conseguiu entregar apenas metade. Sem experiência em delivery, acumulou atrasos e passou até quatro da manhã enviando mensagens e pedindo desculpas aos clientes que ficaram sem receber.
No dia seguinte, sua esposa insistiu para que eles não desistissem. A equipe reduziu o número de pedidos, reorganizou a cozinha, definiu limites de produção e repetiu o processo com mais controle. Foi o início de uma operação capaz de crescer.
O aprendizado também incluiu compras. Carlos conta que chegou a adquirir refrigerante suficiente para vários meses porque ainda não sabia estimar o giro do estoque.
A passagem para uma cozinha profissional
Sair de casa e entrar em um restaurante foi um salto operacional. O preparo de peixe cru exige controle de temperatura, rastreabilidade, higiene e registros. Carlos reconheceu que não dominava toda a burocracia e contratou uma pessoa experiente para organizar essa parte.
O cuidado com o produto tornou-se um dos princípios do Sushi Sakai. Ele descreve a preocupação com ingredientes frescos, preparação no momento adequado e um limite de pedidos compatível com a capacidade da equipe.
Na época da entrevista, a empresa operava em quatro frentes: festas nas casas dos clientes, delivery, atendimento no restaurante e workshops. O serviço também chegou a camarins de artistas brasileiros que se apresentaram na Irlanda.
O que Carlos aprendeu empreendendo na Irlanda?
- Começar pequeno ajuda a validar a procura. As festas construíram uma base de clientes antes do restaurante.
- Demanda sem organização pode virar prejuízo. O lançamento do delivery mostrou a importância de limitar pedidos.
- É necessário contratar conhecimento. Ao profissionalizar a cozinha, Carlos buscou ajuda para controles que ainda não dominava.
- Qualidade também exige dizer não. Aceitar mais pedidos do que a equipe consegue produzir prejudica o cliente.
- O inglês não melhora sozinho. Estudo e convivência fora da bolha brasileira fizeram diferença.
Vale a pena abrir restaurante na Irlanda?
Carlos é direto ao descrever o compromisso. Um restaurante envolve equipe, fornecedores, estoque, controles sanitários, treinamento e presença constante na cozinha. O prazer de criar novos pratos e bater metas convive com uma responsabilidade que ele não conhecia no início.
Sua história não começa com um grande investimento ou um plano perfeito. Começa com uma habilidade testada entre amigos, um anúncio, feedback de clientes e anos apresentando o produto pessoalmente. Essa construção anterior ajudou a sustentar a mudança para o espaço físico.
Horários, serviços, endereço e condições citados no episódio refletem a época da gravação. Consulte os canais do Sushi Sakai para obter informações atuais.
De estudante a dono de restaurante em Dublin
A trajetória de Carlos combina experiências que pareciam desconectadas: marketing, vendas, trabalho em restaurante japonês, atendimento em festas e a pressão de sobreviver ao intercâmbio. Cada uma delas reapareceu na criação do Sushi Sakai.
Assista ao episódio completo para conhecer os erros, os ajustes e as decisões que transformaram o sushi feito para amigos em um negócio na Irlanda.
