DJ e produtor musical na Irlanda: a trajetória de Phellps

Antes de trabalhar como DJ e produtor musical na Irlanda, Phellps saiu de Realengo, no Rio de Janeiro, e enfrentou uma rotina que combinava escola de inglês, cozinha, limpeza e entregas. No Bolder Podcast, ele conta por que deixou dois empregos e um caminho profissional estável para tentar construir uma vida ligada à música em Dublin.

A conversa entra nos bastidores da profissão: pesquisa musical, preparação de repertório, equipamentos, leitura da pista e produção autoral. Phellps também diferencia a figura do DJ da do produtor e explica por que subir ao palco representa apenas a parte visível de um trabalho muito maior.

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De Realengo para uma nova vida na Irlanda

Phellps é jornalista de formação e estudava Rádio e Televisão antes da mudança. No Rio, trabalhava em dois empregos: no Itaú, atendendo e negociando com clientes, e na OLX, revisando anúncios e verificando se o conteúdo seguia as regras da plataforma. A jornada ia praticamente de manhã até a noite.

Além do trabalho, jogava handebol e já atuava como DJ. A possibilidade de morar fora começou a parecer real quando dois amigos de escola se mudaram para a Irlanda e um colega do esporte foi estudar arquitetura em Barcelona.

Em 2018, ele passou férias na Europa: ficou cerca de 20 dias na Irlanda e cinco em Barcelona. Era a primeira viagem internacional, e a experiência alterou sua percepção sobre o que seria possível fazer. Ainda durante a visita, procurou uma agência e reservou € 300 para a futura documentação.

De volta ao Brasil, trabalhou intensamente durante um ano e redirecionou para o intercâmbio o dinheiro que pretendia usar na compra de um carro. Chegou a Dublin em abril de 2019, apesar dos comentários de quem considerava arriscado abandonar o emprego no banco.

Os primeiros trabalhos de Phellps em Dublin

A experiência anterior como DJ não produziu trabalho imediato na Irlanda. Phellps chegou com inglês muito limitado e usou até tradução pelo computador durante o processo migratório. Cerca de um mês e meio depois, conseguiu uma vaga de kitchen porter.

A cozinha era pesada e a dificuldade para se comunicar tornava os conflitos ainda mais frustrantes. Depois vieram serviços de limpeza, atendimento em uma loja de saladas e entregas. Nesta última atividade, chegou a utilizar bicicletas compartilhadas de Dublin, devolvendo-as nas estações dentro do limite de tempo e retirando outra para continuar.

O atendimento ao público ajudou a desenvolver o inglês, mas a rotina continuava apertada. Era necessário conciliar escola, trabalho e estudo em casa, além de guardar dinheiro para renovar o curso. Por isso, o investimento na música demorou mais do que ele imaginava.

Como a música entrou na vida de Phellps

O interesse veio antes da Irlanda. Durante a graduação em Jornalismo na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Phellps se aproximou das festas universitárias e fez amizade com DJs. Como os eventos precisavam transitar por estilos diferentes, aprendeu a trabalhar em formato aberto, tocando o que fazia sentido para cada público.

Essa fase ampliou seu repertório, inclusive em gêneros que inicialmente não ouvia. Mais tarde, aproximou-se da música eletrônica por meio de festivais, artistas brasileiros e cursos de discotecagem e produção musical.

Qual a diferença entre DJ e produtor musical?

Phellps resume a diferença de maneira prática: o produtor cria músicas; o DJ seleciona, organiza e mistura faixas durante uma apresentação. A mesma pessoa pode exercer as duas funções, como ele começava a fazer na época da entrevista.

Em casa, montou um pequeno estúdio para desenvolver produções próprias. Nos palcos, trabalhava principalmente com house e tech house. A identidade artística exigia escolhas: aceitar qualquer festa poderia trazer dinheiro imediato, mas também afastá-lo do estilo que desejava construir.

O que um DJ faz antes de tocar?

Para Phellps, a apresentação é apenas a ponta do iceberg. Antes dela, existe uma rotina de pesquisa em plataformas como SoundCloud e Spotify, seleção de faixas, organização do acervo e preparação técnica.

As músicas precisam ser analisadas em programas próprios para identificar BPM, grade rítmica e outros dados usados pelos equipamentos. Sem essa preparação, o DJ aproveita apenas parte dos recursos disponíveis e corre o risco de criar transições imprecisas.

Durante o set, ainda é necessário observar a reação da pista. Phellps fala em criar ondas de energia: não manter o público no ponto máximo durante todo o tempo, mas alternar tensão e descanso. O repertório pode mudar conforme a resposta das pessoas, desde que permaneça coerente com a proposta do evento.

Precisa comprar equipamentos para começar?

Na avaliação dele, os equipamentos eram mais acessíveis na Irlanda por causa do poder de compra, embora continuassem caros. Muitos clubes já ofereciam CDJs e estrutura completa, permitindo ao artista chegar com repertório preparado em um pendrive. O investimento indispensável continuava sendo conhecimento para operar diferentes configurações.

A primeira apresentação na Irlanda

O primeiro convite veio depois de conhecer pessoas ligadas à música eletrônica em Dublin. Phellps abriu uma festa voltada principalmente ao público brasileiro em um pub. Não foi um evento gigantesco, mas teve valor decisivo: permitiu estrear no país, reunir amigos e transformar preparação em experiência real.

Depois disso, continuou construindo contatos e acompanhando a cena local. Ele acredita que existe espaço para estrangeiros na Europa quando o trabalho é consistente, mas critica a ideia de que todos os artistas precisam se tratar como concorrentes. Para uma cena crescer, produtores, DJs e público precisam colaborar.

A pandemia e a cena eletrônica de Dublin

Durante a pandemia, Phellps decidiu não tocar em eventos clandestinos, especialmente por ter bronquite e depois de perder uma tia no Brasil. Na visão dele, festas sem segurança e fora das regras prejudicavam toda a comunidade musical.

Ao mesmo tempo, percebeu um movimento positivo: novos coletivos começaram a estudar produção, organizar projetos e profissionalizar a presença brasileira na música eletrônica. O objetivo não deveria ser apenas aparecer no palco, mas entender a história da cena e respeitar público, equipe e outros artistas.

É possível viver de música na Irlanda?

Na época do episódio, Phellps ainda não vivia exclusivamente de arte, mas tratava isso como objetivo concreto. Sua trajetória mostra que a transição envolve sustentar-se em outros empregos, aprender inglês, formar rede de contatos, estudar continuamente e produzir material próprio.

  • Não espere chegar ao país e trabalhar imediatamente na profissão artística.
  • Use os primeiros empregos para ganhar estabilidade e desenvolver o idioma.
  • Estude técnica, repertório e história da cena, não apenas a performance.
  • Prepare cada apresentação e aprenda a observar a resposta do público.
  • Construa relações profissionais sem tratar todos os artistas como rivais.

Assista ao episódio completo para acompanhar a mudança de Phellps, os detalhes dos primeiros empregos e a explicação técnica sobre o trabalho de DJ e produtor musical na Irlanda.


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