Imigrar em família para a Irlanda: da Austrália e Portugal a Dublin | Kelly e Júnior

Imigrar em família para a Irlanda exige muito mais do que comprar passagens e procurar emprego. Kelly e Júnior chegaram a Dublin com os filhos Iran e Zoe depois de uma jornada iniciada em 2016, que passou por Itália, Londres, Austrália e Portugal. No Bolder Podcast, eles contam como cada mudança ajudou a construir um plano mais seguro para a família.

A conversa não apresenta a imigração como uma aventura sem riscos. O casal fala sobre cidadania, reserva financeira, rede de contatos, escola, creche, trabalho como caminhoneiro e as diferenças que percebeu entre Portugal e Irlanda. É um relato especialmente útil para quem se pergunta como morar fora com filhos sem improvisar decisões essenciais.

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Uma trajetória por quatro países antes da Irlanda

Kelly e Júnior deixaram o Brasil em 2016 com Iran ainda bebê. A primeira parada foi a Itália, onde pretendiam acompanhar o processo de reconhecimento da cidadania italiana de Kelly. O casal, porém, descobriu que a espera não funcionaria da maneira imaginada: havia despesas correndo, incerteza sobre o prazo e limitações para trabalhar enquanto o processo avançava.

Em seguida, foram para Londres, onde contaram com o apoio da irmã de Júnior. Permaneceram cerca de seis meses enquanto avaliavam o próximo passo, sem ultrapassar o período permitido como visitantes. Foi nesse momento que escolheram a Austrália, inicialmente por meio de um visto de estudante.

Austrália: estudo, trabalho e uma nova profissão

Na Austrália, a família ficou por aproximadamente dois anos e oito meses. Júnior precisou obter a habilitação local e começou a trabalhar como caminhoneiro. Segundo ele, a profissão abriu muitas portas e ofereceu boas condições naquele período.

A gravidez de Zoe e a distância do Brasil, somadas às incertezas e aos custos ligados à renovação de vistos, levaram o casal a rever o projeto. Como a cidadania europeia de Kelly já estava avançada, continuar pagando por uma permanência incerta na Austrália deixou de fazer sentido para a família.

Cinco anos em Portugal

Em 2019, eles se mudaram para Portugal e se estabeleceram na região de Lisboa. Zoe nasceu no país, e Júnior conseguiu entrar rapidamente no mercado de transporte. A família permaneceu ali por cinco anos, até fevereiro de 2024.

O casal reconhece as vantagens de Portugal, como idioma, clima e proximidade cultural. Ao mesmo tempo, descreve uma conta difícil de fechar: aluguel elevado, salários menores e pouco espaço no orçamento para lazer, viagens ou imprevistos. Júnior também precisava fazer rotas internacionais para melhorar a renda, ficando vários dias longe de casa — uma rotina que já não combinava com a prioridade de acompanhar os filhos.

Por que a família escolheu morar na Irlanda?

A decisão de mudar para a Irlanda não nasceu de um único fator. Kelly e Júnior analisaram trabalho, escola, poder de compra, segurança percebida, idioma e tempo disponível para a vida familiar. A possibilidade de os filhos aprenderem inglês teve peso especial: para Kelly, o idioma seria uma ferramenta importante para o futuro das crianças.

Júnior compara a nova rotina com a que tinha em Portugal. Em Dublin, começou a trabalhar menos de um mês depois da chegada e, na maior parte dos dias, retorna para casa após as rotas. Isso permitiu participar de atividades simples, mas importantes, como levar os filhos à natação e aproveitar uma tarde no parque.

Trabalho de caminhoneiro na Irlanda

A experiência anterior foi decisiva. Júnior já chegou com habilitação compatível, cartão de tacógrafo e a qualificação profissional necessária para dirigir caminhões. Sem essa preparação, explica ele, o processo poderia exigir meses de curso e prova antes de começar a trabalhar.

Mesmo preparado, ele não tratou a contratação como garantida. Antes da mudança, conversou com profissionais de três empresas diferentes e levou uma reserva suficiente para manter aluguel e despesas por até três meses. O emprego saiu em cerca de 20 dias, mas o planejamento havia sido feito para suportar um cenário menos favorável.

Escola na Irlanda e adaptação dos filhos

Kelly começou a procurar escola antes de embarcar. Como a família já sabia em qual região moraria, ela pediu referências em grupos de mães e entrou em contato por e-mail com duas escolas próximas. Iran, que estava em idade escolar, conseguiu vaga e começou as aulas pouco depois da chegada; Zoe também foi matriculada para iniciar na etapa correspondente à idade dela.

Iran chegou falando pouco inglês, mas encontrou no futebol um caminho rápido para fazer amigos. Kelly relata uma recepção atenciosa por parte da equipe escolar e um acompanhamento específico para as necessidades do filho, que tem TDAH. Para os pais, esse cuidado foi um dos sinais de que a mudança estava funcionando.

A adaptação também aconteceu fora da sala de aula. Ao ver outras crianças brincando na rua perto de casa, o casal ganhou confiança para deixar Iran participar. O contato diário com os amigos passou a ajudar no inglês e na sensação de pertencimento.

Creche, saúde e custos com crianças

Nem tudo se resolve rapidamente. Kelly explica que permaneceu em casa enquanto aguardava a entrada de Zoe na escola. Na avaliação da família, pagar creche para que ela trabalhasse consumiria grande parte da renda diária e ainda criaria dificuldades quando a criança adoecesse.

O casal considera alimentação e roupas administráveis, mas lembra que criar filhos envolve custos que vão além do básico: natação, dança, artes e outras atividades também fazem parte da formação. Embora utilizem os serviços públicos disponíveis, decidiram contratar um plano de saúde familiar para reduzir a exposição a imprevistos e à demora em consultas especializadas.

Rede de apoio: o elemento que mudou a chegada

Uma das mensagens mais claras do episódio é a importância da rede de contatos. Amigos ajudaram a família a entender a região, localizar o apartamento, escolher escolas e chegar às oportunidades de trabalho. Júnior resume a diferença de forma prática: eles saíram do aeroporto e foram diretamente para uma casa já preparada, sem precisar comprar tudo novamente.

Essa chegada estruturada não aconteceu por sorte isolada. O casal havia começado a criar conexões muito antes da viagem. Depois de várias mudanças internacionais, eles aprenderam a buscar informações com pessoas que têm uma realidade parecida — especialmente outras famílias com filhos — e a desconfiar de promessas boas demais.

Como planejar uma mudança internacional com filhos

A história de Kelly e Júnior deixa um roteiro prático para quem pensa em imigrar em família para a Irlanda:

  • Defina a situação migratória antes da viagem: a família chegou com cidadania europeia e documentação regular, o que alterou completamente as opções de moradia e trabalho.
  • Monte uma reserva realista: eles se prepararam para até três meses sem renda, incluindo aluguel e despesas domésticas.
  • Pesquise escola e bairro juntos: conhecer a região permitiu procurar vagas escolares antes da chegada.
  • Converse com famílias parecidas: a experiência de uma pessoa solteira pode não refletir os custos e desafios de quem viaja com crianças.
  • Prepare a carreira: documentos profissionais, habilitações e contatos prévios reduziram o tempo até o primeiro emprego.
  • Estude inglês antes de chegar: Júnior destaca que o idioma é necessário não apenas para ser contratado, mas para resolver imprevistos do trabalho e da vida cotidiana.

Vale a pena imigrar em família para a Irlanda?

Para Kelly e Júnior, a resposta é positiva porque a Irlanda reuniu prioridades que haviam sido testadas em outros países: trabalho com horários mais previsíveis, escola, inglês para os filhos, convivência familiar e uma rede de apoio ativa. Eles dizem ter encontrado em Dublin a tranquilidade que buscavam, mas deixam claro que o resultado dependeu de documentos, dinheiro reservado e preparação antecipada.

O episódio completo mostra que morar fora com crianças não é uma decisão baseada apenas em salário ou clima. É preciso avaliar como trabalho, moradia, educação, saúde e rotina se encaixam no mesmo projeto. Assista ao vídeo para conhecer os detalhes da trajetória da família e as comparações que eles fazem entre Austrália, Portugal e Irlanda.