Como é viver em um motorhome na Europa: Thaís e Bruno | Bolder Podcast 165

Viver em um motorhome na Europa pode parecer uma sequência de praias, estradas bonitas e liberdade, mas a experiência de Thaís e Bruno mostra uma realidade bem mais completa. No Bolder Podcast 165, o casal do projeto Aonde a Gente Tá explica como trocou a rotina na Irlanda por uma casa sobre rodas, revela os custos da viagem e conta perrengues que incluíram infiltração, falha nos freios e uma invasão logo no primeiro dia.

A conversa com Bolder também volta ao começo da história dos dois: o encontro na Irlanda, um mochilão de vários meses pela Ásia e a construção de uma renda que pudesse acompanhar uma vida em movimento. Mais do que romantizar o estilo de vida, Thaís e Bruno falam sobre planejamento, trabalho remoto, segurança, convivência e tudo o que precisa funcionar para que a viagem continue.

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Quem são Thaís e Bruno, do Aonde a Gente Tá?

Thaís e Bruno se conheceram na Irlanda por meio de uma amiga em comum. Bruno já tinha uma trajetória de idas e vindas ao país e, naquele momento, vivia havia cerca de sete anos de forma contínua na Irlanda. Thaís chegou no fim de 2016 com a intenção inicial de passar apenas um mês, voltou ao Brasil, vendeu o que tinha e decidiu regressar.

No Brasil, ela mantinha uma loja virtual de roupas e deixou o negócio justamente em uma fase positiva. A decisão não veio de uma situação de fracasso, mas da vontade de experimentar outra vida. Já na Irlanda, os dois passaram por trabalhos em deli, café e restaurante, além de atividades com fotografia de produtos e redes sociais.

O casal conta que essa parceria também apareceu no trabalho: quando um encontrava uma oportunidade, muitas vezes ajudava o outro a entrar. Essa dinâmica seria importante mais tarde, tanto no mochilão quanto na vida dentro do motorhome.

O mochilão pela Ásia antes do motorhome

Antes de comprar o motorhome, Thaís e Bruno fizeram uma longa viagem pela Ásia. Cansados do frio e da rotina de estudante na Irlanda, encontraram passagens só de ida para a Tailândia por cerca de €160 por pessoa — valor mencionado no episódio e referente à época da viagem — e compraram mesmo sem terem toda a jornada pronta.

Eles tiveram aproximadamente sete meses para economizar. Uma das estratégias foi um desafio de poupança semanal, com valores crescentes, que ajudou a reunir perto de €3 mil. A viagem acabou passando por sete países e durou cerca de oito meses.

Segundo o casal, o gasto total dos dois na Ásia ficou em torno de €7 mil, complementado por pequenas fontes de renda e trocas de trabalho. Esses números são históricos e não devem ser usados como orçamento atual sem pesquisar passagens, hospedagem, vistos e custo de vida nos destinos.

Como eles conseguiram viajar por mais tempo

Para reduzir despesas, Thaís e Bruno ofereceram fotos e vídeos a hotéis e hostels em troca de hospedagem, passeios ou experiências. No início, não tinham um portfólio consolidado. Criaram material, organizaram os trabalhos no Behance e enviaram propostas para uma grande quantidade de estabelecimentos encontrados no Booking e no Instagram.

A taxa de resposta era baixa: nas palavras deles, 99% não respondiam, mas o 1% que aceitava já criava a oportunidade necessária. Também houve comissão com venda de intercâmbio e um período curto de trabalho em um restaurante na Tailândia.

O casal ainda fez voluntariado como professor de inglês no Camboja. A experiência colocou os dois em contato com uma realidade de extrema pobreza, moradia muito simples e limitações básicas, como a falta de geladeira por causa do custo de energia. Foi uma das passagens mais marcantes da viagem e reforçou o contraste entre a imagem turística e o cotidiano local.

Por que escolher viver em um motorhome na Europa?

Ao voltar para a Irlanda em 2019, o casal continuou com vontade de viajar. Eles haviam reservado dinheiro suficiente para aluguel e depósito, evitando retornar completamente sem recursos. A pandemia interrompeu parte dos planos, mas a oportunidade do motorhome surgiu por meio de amigos, Amanda e Douglas.

Os amigos tinham comprado o veículo, apelidado de Duca, para viajar pela Europa e pela África. Com a mudança dos planos durante a pandemia, decidiram vendê-lo. Thaís e Bruno já conheciam o motorhome e, após uma conversa rápida, fecharam o negócio. O veículo tinha placa e documentação irlandesas, mas estava na Alemanha.

Eles viajaram até lá e tentaram trazer o Duca para a Irlanda em apenas um fim de semana, pois precisavam retornar ao trabalho. O plano já começou com um problema: o escapamento caiu durante o trajeto. Uma solução improvisada permitiu seguir viagem, mas a baixa velocidade fez o tempo estimado aumentar continuamente. O casal perdeu o ferry por cerca de dez minutos, precisou pagar uma nova travessia e avisar no trabalho que não chegaria no horário.

O motorhome escondia problemas sérios

Depois da chegada, o Duca foi submetido ao CVRT, a inspeção aplicável a veículos maiores na Irlanda, e foi reprovado. Uma oficina descobriu que havia infiltração e que parte da madeira sob a estrutura estava completamente deteriorada. Em alguns pontos, nem existia madeira firme para receber os parafusos do acabamento.

Na prática, foi necessário reconstruir uma parte considerável do motorhome. O casal passou meses fazendo reparos sem uma data clara para iniciar a viagem.

A decisão ganhou urgência quando o proprietário pediu de volta a casa em que eles moravam. Em meio à crise de moradia na Irlanda, encontrar outro imóvel semelhante seria difícil. Thaís e Bruno interpretaram a situação como o empurrão que faltava: em cerca de dois meses, venderam os móveis, aceleraram a reforma, organizaram a saída e deixaram os empregos presenciais.

Quanto custa viver em um motorhome?

No momento da entrevista, após cerca de cinco meses na estrada, o casal estimava que dois adultos conseguiam viver bem com aproximadamente €1.300 por mês. O valor incluía deslocamentos frequentes, alimentação e algumas refeições fora. Mais uma vez, trata-se do relato daquele período, não de uma estimativa atualizada.

Thaís e Bruno afirmavam gastar aproximadamente metade do que gastavam na Irlanda. A economia, porém, não significa custo zero. Combustível, manutenção, seguro, campings, travessias e reparos podem mudar completamente o orçamento. Eles também mantinham uma reserva de emergência porque sabiam que uma falha grave no veículo poderia encerrar a viagem.

O casal não tentava viver com o menor valor possível a qualquer custo. Eles escolheram preservar certos confortos, como uma geladeira maior e espaço para roupas. Para os dois, a viagem só faria sentido se continuasse sendo agradável.

É possível dormir gratuitamente?

A resposta depende muito do país e da cidade. Em pequenas localidades de Portugal, eles encontraram áreas gratuitas para motorhomes com água, eletricidade e até Wi-Fi, criadas para atrair viajantes e movimentar o comércio local.

Na Irlanda, a situação era mais difícil. Alguns estacionamentos cobravam cerca de €40 por noite, às vezes sem incluir eletricidade, e Dublin tinha poucas opções práticas para um veículo daquele tamanho. Em determinados locais, permanecer mais de um ou dois dias poderia gerar reclamações.

Para encontrar pontos de parada, o casal usava um aplicativo com avaliações de outros viajantes. Os comentários ajudavam a verificar estrutura e segurança antes de escolher onde dormir.

Água, energia e banheiro: a parte que não aparece nas fotos

A logística doméstica foi apontada como uma das piores partes de morar em um motorhome. É preciso monitorar constantemente o reservatório de água, a bateria, o descarte do banheiro e a organização do espaço.

Os banhos chegavam a durar cerca de dois minutos para garantir água para os dois. Quando a bateria de serviço apresentou problemas, atividades simples, como manter luzes e aparelhos funcionando, passaram a depender de áreas com ligação elétrica.

Também não há muito espaço para adiar tarefas. Uma panela e alguns pratos sujos já comprometem a circulação. Como toda a vida do casal está dentro do veículo, qualquer desorganização ocupa rapidamente a casa inteira.

Trabalho remoto na estrada: liberdade com prazo e internet

Thaís manteve o trabalho gerenciando redes sociais de restaurantes e cafés na Irlanda. Bruno deixou o cargo presencial, mas continuou fazendo trabalhos pontuais como freelancer para a antiga empresa e outros clientes, inclusive projetos de sites.

A renda principal, naquele momento, ainda vinha desses serviços. YouTube e Instagram eram tratados como projetos prioritários, mas o casal não vendia a ideia de que bastava viajar para viver de conteúdo.

Para trabalhar, eles usavam um roteador portátil com chip. O plano de internet mencionado custava €40 por mês e funcionava em países da União Europeia. Era suficiente para as tarefas comuns e para assistir a conteúdo, embora o envio de vídeos grandes pudesse ser trabalhoso.

A paisagem também não elimina as obrigações. Bruno lembra de trabalhar no computador diante das praias do sul de Portugal enquanto outras pessoas aproveitavam o dia. Com o tempo, o casal passou a reservar dias específicos para editar vários vídeos e, depois, seguir viagem com mais tranquilidade.

Os maiores perrengues da vida no motorhome

Uma invasão no primeiro dia

No primeiro dia oficial da viagem, o casal estacionou perto de Brittas Bay, na Irlanda. Enquanto estavam afastados do veículo, alguém forçou a porta e revirou tudo. Computador, câmera, passaportes, iPad e GoPro estavam dentro do motorhome, mas, por um motivo que eles nunca descobriram, nada foi levado.

O episódio mudou completamente a rotina. A partir dali, itens importantes passaram a ser guardados em um cofre, as portas eram verificadas com mais atenção e o casal evitava locais com relatos negativos. Em paradas rápidas, muitas vezes um deles permanecia dentro do veículo.

A falha nos freios e a batida em um Jaguar

O problema mais grave aconteceu em Milão. O Duca já fazia um ruído ao frear e o casal planejava revisar o veículo. A caminho de uma oficina, o freio falhou em um semáforo e o motorhome bateu na traseira de um Jaguar. Por sorte, o outro carro não sofreu dano aparente, mas o radiador do Duca rompeu.

Na oficina, veio a descoberta: praticamente não havia mais sistema de freio em condições adequadas, o radiador estava muito comprometido e um pneu apresentava rachaduras. O próprio mecânico classificou como um milagre eles terem chegado ali. O acidente, apesar do susto, acabou forçando uma inspeção que identificou riscos que poderiam provocar uma ocorrência muito pior na estrada.

Como é a convivência de um casal em pouco espaço?

Para Thaís, parceria e respeito ao espaço individual são indispensáveis. Mesmo sentados a poucos centímetros um do outro, eles precisam aceitar que um pode querer jogar, trabalhar ou ficar no celular enquanto o outro faz algo diferente.

Discussões também exigem outra dinâmica: não existe um segundo quarto para alguém se afastar. Por isso, reconhecer o momento de esfriar a cabeça e conversar depois se torna ainda mais importante.

Eles não consideravam ter um cachorro durante essa fase. Além do espaço limitado e da sujeira, haveria a dificuldade de deixar o animal sozinho durante passeios ou viagens aéreas. Para o casal, crianças e animais não tornam a vida sobre rodas impossível, mas acrescentam responsabilidades que eles não queriam assumir naquele momento.

Vale a pena viver em um motorhome na Europa?

Para Thaís e Bruno, valeu a pena, mas não é uma vida indicada para qualquer pessoa. A liberdade de mudar o roteiro, ficar mais tempo em uma cidade ou simplesmente passar um dia dentro de casa vem acompanhada por manutenção, segurança, trabalho e decisões domésticas constantes.

Se pudessem recomeçar, continuariam preferindo o espaço de um motorhome a uma van menor, mas escolheriam um veículo mais novo e fariam uma inspeção muito mais cuidadosa antes da compra. Eles também reforçam a importância de renda remota, reserva de emergência e disposição para lidar com imprevistos.

No fim, o que sustenta o projeto não é a ausência de dificuldades, mas a prioridade dada às experiências. O plano do casal era prolongar a viagem, desenvolver o Aonde a Gente Tá no YouTube e no Instagram e mostrar que esse estilo de vida pode ser possível sem herança ou fortuna — desde que exista planejamento e preparo para as adversidades.

Assista ao episódio completo para conhecer os relatos de Thaís e Bruno e os detalhes que fizeram do Duca muito mais do que um meio de transporte.