Felipe Carvalho, criador do Your Name Your From, ficou preso na Irlanda por uma questão migratória durante 20 dias. Ao lado de Bolder, ele explica como uma viagem curta a Londres, planejada para regularizar a situação como estudante, terminou numa delegacia, numa ordem de deportação que desconhecia e depois na prisão de Cloverhill.
A história ocupa a segunda metade do episódio e vem acompanhada de um alerta explícito: Felipe reconhece que permaneceu no país sem permissão e não recomenda que outras pessoas repitam seu caminho. O fato de estar tentando se regularizar não apagou o período anterior nem garantiu uma nova entrada.
Quem é Felipe Carvalho?
Felipe já havia participado do Bolder Podcast e ficou conhecido por publicar notícias e ocorrências da comunidade brasileira, especialmente roubos de bicicletas e motos. Seu perfil reúne relatos enviados por riders, comerciantes e moradores.
Antes da história da prisão, ele e Bolder comentam desaparecimentos, ataques contra negócios brasileiros e a repetição de furtos praticados por adolescentes. Essa experiência de noticiar problemas migratórios e policiais tornou ainda mais forte o contraste quando Felipe passou a viver um caso semelhante.
Por que ele ficou irregular na Irlanda?
Felipe diz que veio como turista sem entender o sistema. A possibilidade de morar fora surgiu num período pessoal difícil, e ele comprou passagem antes de saber quanto custava um intercâmbio ou quais eram as limitações para trabalhar.
Chegou a colocar “abrir conta de delivery” numa lista de tarefas, sem saber que não poderia simplesmente desembarcar e trabalhar legalmente. Sem dinheiro para o curso, decidiu viajar mesmo assim e permaneceu quase três anos como turista.
Nesse período, descobriu aos poucos conceitos básicos, inclusive a importância de cidadania europeia e dos diferentes tipos de permissão. A irregularidade o impedia de viajar, visitar a filha no Brasil e construir uma rotina documental normal.
Qual era o plano para se regularizar?
Felipe comprou um curso de inglês e tentou uma estratégia usada por outras pessoas: sair por alguns dias e voltar apresentando matrícula, comprovação financeira e documentos como se iniciasse uma nova etapa de estudos.
Ele viajou para Londres e retornou confiante. Na imigração, apresentou carta da escola, QR code e recursos financeiros. A documentação acadêmica foi considerada correta.
O problema surgiu quando o oficial perguntou se Felipe já havia recebido uma ordem de deportação. Ele respondeu que não. Após consultas internas, soube que uma ordem havia sido emitida em outubro de 2024, embora afirmasse nunca ter recebido a notificação.
O que aconteceu no aeroporto?
O agente informou que, apesar dos documentos escolares, a ordem impedia a entrada e seria cumprida. Felipe descreve uma mudança imediata de expectativa: saiu da sensação de que finalmente poderia estudar e visitar a família para o medo de perder casa, trabalho, bicicleta e tudo o que havia construído.
O celular foi retirado, impedindo que avisasse amigos. Dois agentes à paisana o levaram a uma Garda Station. Na delegacia, ele tremia de forma incontrolável e foi colocado sozinho numa cela com um colchão no chão.
Uma cena ficou marcada: ao pedir água, viu a agente colocar o copo pela abertura, afastar rapidamente a mão e fechar a porta. Felipe entendeu o protocolo de segurança, mas sentiu que estava sendo tratado como alguém perigoso.
Por que ele foi levado para Cloverhill?
No dia seguinte, Felipe foi colocado numa van com outros três brasileiros e levado ao aeroporto. Imaginou que todos seriam deportados. Os outros permaneceram no terminal, enquanto ele voltou para o veículo sem receber explicação clara.
Ao perceber a van saindo pela M50 e ver o nome Cloverhill, entendeu que estava sendo levado para uma prisão. Já conhecia o local por ter acompanhado o caso de outro rider.
A triagem incluiu retirada da roupa, entrega de uniforme e passagem por sucessivas grades. Na primeira noite, Felipe ficou sozinho e relata ter recebido comida apenas depois de insistir. Com fome, comeu cereal, leite e até sachês de açúcar.
Como era a cela?
A cela destinada a três pessoas chegou a abrigar quatro, com alguém dormindo no chão. Havia beliches, mesa, televisão, chaleira e telefone. A escolha do canal seguia uma hierarquia informal dominada pelo preso mais antigo.
Felipe dividiu espaço com pessoas acusadas ou condenadas por crimes graves. Menciona um homem condenado pela morte da esposa, outro jovem envolvido num ataque com faca e um rapaz acusado de roubo à mão armada.
Ele destaca que não ficou num setor administrativo separado para imigração. Conviveu numa cadeia comum, o que aumentou a sensação de desproporção e incerteza.
Por que foi tão difícil avisar alguém?
Preso no domingo, Felipe diz que só conseguiu falar com alguém na sexta-feira. Telefones precisavam ser cadastrados e as chamadas tinham regras rígidas. Se a ligação caísse na caixa postal, uma nova tentativa poderia ficar para o dia seguinte.
Visitas também dependiam de uma lista com nome, telefone e endereço. Como ele não conhecia o procedimento e não lembrava todos os dados, demorou a perceber que amigos não podiam simplesmente aparecer.
A primeira visita foi do advogado. Depois, Jean, da Seven, conseguiu encontrá-lo e conversou por cerca de uma hora e meia. Felipe descreve esse contato como um dos momentos mais importantes do período, porque finalmente falou com alguém que conhecia sua trajetória e pôde contar como estavam as coisas fora.
Como foi a libertação?
O advogado antecipou uma sequência de documentos, audiência virtual e provável liberação. As etapas aconteceram, mas o prazo terminou numa sexta-feira e o horário avançou sem notícia.
Já no 20º dia, Felipe temeu passar outro fim de semana preso. Por volta das 20h, um agente abriu a cela e disse: “Felipe, go home”.
Ele saiu sob chuva e com sentimentos misturados. Estava livre, mas não sabia se ainda tinha vaga, trabalho ou acesso à conta de delivery. Ao chegar, encontrou o quarto; a conta de trabalho havia sido repassada depois do desaparecimento. Até o abacaxi deixado sobre a mesa continuava lá, já estragado.
A ordem de deportação ainda existe?
Segundo Felipe, a ordem foi revogada cerca de duas semanas depois da saída da prisão. Ele recebeu uma permissão provisória enquanto o processo de regularização definitiva continua na Justiça.
Isso significa que a situação ainda não estava totalmente concluída na data da entrevista. Ele afirma possuir documento para apresentar numa abordagem e não estar mais sujeito àquela ordem específica.
O que pode ter provocado a ordem?
Felipe suspeita de denúncia, mas não tem confirmação. Como entrou como turista e não realizou registros típicos de estudante, acreditava que o governo possuía menos dados sobre sua rotina do que teria sobre alguém com PPS e matrícula anterior.
A hipótese não deve ser tratada como fato. O próprio entrevistado admite que talvez nunca descubra a origem exata.
Sair e voltar resolve um período irregular?
Não. Essa é a principal lição prática do relato. Comprar escola, obter permit de trabalho ou reunir documentos novos não apaga automaticamente permanência irregular anterior.
Felipe afirma conhecer casos em que pessoas tiveram problemas ao reentrar ou ao tentar emitir o IRP, mesmo depois de uma oferta de trabalho aprovada. Cruzamento de dados pode revelar o histórico e gerar recusa ou procedimento de deportação.
Ele considera mais seguro procurar orientação jurídica antes de viajar e, em alguns casos acompanhados por ele, retornar ao Brasil para organizar a solicitação. Isso não é garantia e precisa ser analisado individualmente.
As 40 páginas escritas na prisão
Sem atividade e tentando organizar o que sentia, Felipe escreveu cerca de 40 páginas. Registrou a rotina, a chegada e a saída de presos, conflitos na cela, falta de banho, pequenas perdas e o peso de esperar sem informação.
Bolder sugere que o material pode virar livro. Mais do que uma coleção de histórias, o texto documenta como uma decisão migratória atinge sono, identidade, relações e percepção de futuro.
Roubos de bicicletas e motos na Irlanda
Antes do depoimento, Felipe relata que um jovem liberado após tentar roubar uma scooter teria furtado uma bicicleta semanas depois. Para ele, ausência de consequência incentiva reincidência.
Outro caso envolve uma brasileira que teve duas motos roubadas em pouco tempo. Depois de dificuldades com o seguro da primeira, comprou outra; o documento ainda não havia chegado quando a moto foi levada e incendiada perto de Grangegorman.
Os dois discutem a necessidade de resposta política e representação da comunidade. Felipe lembra que residentes estrangeiros podem votar em eleições locais e defende que brasileiros se organizem para eleger representantes capazes de levar essas pautas às autoridades.
O alerta final de Felipe Carvalho
O entrevistado não romantiza a permanência irregular nem usa a libertação para dizer que tudo terminou bem. Ele perdeu 20 dias, sofreu isolamento, teve a ordem de deportação e ainda aguardava uma solução definitiva.
A mensagem é simples: não confie no fato de outra pessoa ter saído e voltado sem problema. Consulte as regras, procure orientação qualificada e resolva o histórico antes de se apresentar na fronteira. Assista ao episódio para ouvir o relato completo e entender como uma tentativa de regularização pode falhar quando o passado migratório continua ativo.
