Ser cantora brasileira na Irlanda envolve muito mais do que escolher um repertório e abrir o estojo do violão nas ruas de Dublin. Para Vicka, significa cantar para pessoas que não estavam esperando por um show, lidar com chuva e vento, adaptar músicas ao inglês e construir uma carreira autoral longe do Brasil. No Bolder Podcast 436, ela conta como a primeira experiência no país mudou sua relação com a música.
O episódio também traz apresentações ao vivo de “Passageiro”, “Quem é Você”, “Parece Pressa” e “A Canção Mais Bonita”. Entre uma música e outra, Vicka explica como compõe, como escolhe o repertório para cada público e por que decidiu retornar à Irlanda depois de vários anos desenvolvendo a carreira no Brasil.
Como Vicka começou na música?
Vicka começou a tocar aos 10 anos, influenciada pelo pai, que tocava diferentes instrumentos. Os pais participavam de um coral e a levavam aos ensaios e encontros com amigos músicos. A convivência com esse ambiente de festa e música despertou o interesse pelo violão e pelo canto.
Depois de aprender os primeiros acordes com o pai, ela teve aulas de violão e canto. Aos 16 anos, gravou as primeiras composições em um estúdio de Cascavel, no Paraná. Eram gravações ainda amadoras, mas representaram o primeiro contato com microfones e com o processo de registrar uma canção.
Na faculdade, Vicka formou uma banda de rock com colegas e passou a cantar em festivais, bares e eventos. Aceitava apresentações em aniversários, casamentos, festas infantis e celebrações universitárias. Com o tempo, o objetivo deixou de ser apenas animar eventos: ela queria apresentar as próprias músicas e reunir um público interessado no seu trabalho autoral.
Da engenharia civil ao intercâmbio na Irlanda
Em 2018, depois de concluir engenharia civil, Vicka decidiu fazer algo diferente após cinco anos de faculdade. Estudava alemão e pensava inicialmente em passar uma temporada na Alemanha, mas a Irlanda era mais acessível e oferecia a possibilidade de estudar inglês e trabalhar.
Ela veio como intercambista e permaneceu oito meses. A música já fazia parte de sua vida, mas foi em Dublin que Vicka decidiu transformá-la definitivamente em profissão. A recepção das pessoas e a experiência de tocar na rua mostraram que havia um caminho possível.
Como é cantar nas ruas de Dublin?
Vicka nunca havia feito busking no Brasil. Ao chegar, começou a conversar com artistas de rua para entender como funcionava. Comprou violão, microfone e uma caixa de som simples; depois, substituiu o equipamento por outro de melhor qualidade.
A primeira apresentação foi difícil. Ela estava tímida, o volume estava baixo e o som saía distorcido. As gorjetas foram poucas, mas observar outros músicos fez com que quisesse voltar. A confiança aumentou a cada apresentação.
A rua é imprevisível porque ninguém saiu de casa necessariamente para assistir àquele artista. Ainda assim, o busking faz parte da cultura do centro de Dublin. Pessoas param, cantam junto, pedem músicas, conversam e voltam em outros dias. Vicka deixa cartões contando um pouco de sua história, e alguns ouvintes passam a acompanhá-la nas redes e nas plataformas de música.
Chuva, vento e repertório
O clima limita a frequência das apresentações. Uma previsão de sol pode mudar rapidamente, e chuva sobre o violão, microfone e caixa de som encerra o trabalho. O vento também dificulta a performance e pode derrubar os equipamentos.
Na rua e nos pubs irlandeses, Vicka canta principalmente repertório internacional. Quando percebe abertura, conta que é brasileira e inclui uma composição própria. A escolha é estratégica: em um pub, o público espera músicas que reconhece. Para ela, entender o objetivo de cada apresentação evita que o ego atrapalhe a carreira.
Ela gosta especialmente de músicas clássicas e com espaço para interpretação, como “Blue Moon”, “What a Wonderful World” e “Dream a Little Dream of Me”. Algumas canções não funcionam apenas com voz e violão porque dependem de muitos elementos da produção original. Nesses casos, ela prefere deixá-las fora do repertório.
O retorno ao Brasil e o sucesso de “Pausa”
Depois do intercâmbio, Vicka voltou ao Brasil, mudou-se para São Paulo e assinou contrato com uma gravadora. Passou cerca de dois anos e meio na cidade gravando e desenvolvendo o trabalho autoral.
Durante a pandemia, os planos de tocar e divulgar as músicas foram interrompidos. Vicka voltou a Cascavel e escreveu “Pausa”, uma reflexão sobre um mundo que havia sido obrigado a parar e sobre o que poderia ser aprendido naquele período. A canção circulou pelo WhatsApp, YouTube e outras plataformas, alcançou milhões de visualizações e levou seu trabalho a um público maior.
As composições de Vicka falam sobre propósito, autoconhecimento, mudanças e relações. Ela define a carreira como um processo de longo prazo: uma música, uma apresentação ou uma entrevista pode abrir uma porta, mas a construção depende da soma e da constância.
Por que Vicka voltou para a Irlanda?
Quando retornou ao Brasil, Vicka iniciou o processo para obter o passaporte alemão. Depois de anos de espera, o documento europeu ampliou as possibilidades de viver e trabalhar na Irlanda sem as limitações do antigo visto de estudante.
Ela voltou mais madura e com objetivos artísticos mais claros. Além de reencontrar amigos da temporada de 2018, queria experimentar outras referências, conhecer músicos de diferentes países e criar colaborações que talvez não surgissem permanecendo apenas em sua cidade.
Uma dessas experiências foi tocar com um violinista turco que conheceu em Dublin. Juntos, passaram a ensaiar músicas irlandesas, combinando uma cantora brasileira, um músico turco e o repertório tradicional local. Vicka também teve apresentações registradas pelo canal Dublin City Today, que filma buskers com a autorização dos artistas.
“Passageiro”: uma música sobre estar de passagem
Vicka compôs o refrão de “Passageiro” durante um voo de Cascavel ao Rio de Janeiro. A melodia surgiu ainda no avião, e ela gravou imediatamente um áudio para não esquecer. Ao desembarcar, já tinha boa parte da ideia.
A artista imaginou a voz de Roberta Campos naquela música. Como as duas já haviam conversado sobre escrever juntas, Vicka enviou a proposta. Roberta criou os versos, enquanto Vicka havia composto o refrão. A parceria resultou em uma canção sobre deslocamento, procura e a sensação de encontrar o próprio lar.
A produção transformou o ruído e o ritmo de um trem em parte da percussão. O clipe foi gravado em uma estação histórica de Paranapiacaba, em São Paulo, reforçando a imagem de viagem presente na letra. No podcast, a relação com imigração surge naturalmente: quem muda de país muitas vezes se sente passageiro, estrangeiro e em busca de um paradeiro.
As outras músicas apresentadas no Bolder Podcast
“Quem é Você”
“Quem é Você” investiga o que existe por trás do nome, do sobrenome e das máscaras sociais. A composição pergunta sobre coragem, medos, sonhos e desejos. Embora tenha sido criada no violão, ganhou uma produção mais próxima do rock, conduzida por guitarras.
“Parece Pressa”
Vicka escreveu “Parece Pressa” para um amigo com quem estudou e veio à Irlanda na primeira vez. Ela retornou ao Brasil, enquanto ele permaneceu no país. A música fala de saudade, distância e da expectativa do reencontro. Anos depois, os dois voltaram a estar na Irlanda.
Trechos da canção foram usados em vídeos sobre intercâmbio e sobre pessoas que vivem longe da família. A identificação levou alguns ouvintes a chamá-la de “música do intercambista”.
“A Canção Mais Bonita”
O episódio termina com “A Canção Mais Bonita”, uma das favoritas da mãe de Vicka. A apresentação encerra um programa em que a convidada não apenas fala da carreira, mas mostra ao vivo como suas histórias se transformam em música.
Produzir música também significa produzir conteúdo
Vicka publica vídeos duas vezes por semana no YouTube e mantém Instagram, TikTok, Facebook e plataformas de áudio. Antes de viajar, deixou versões e videoclipes gravados no Brasil para sustentar o calendário de lançamentos enquanto se instalava na Irlanda.
Ela reconhece a pressão dos números e do algoritmo, mas evita medir a qualidade de cada trabalho apenas pelas visualizações. Horário, distribuição e outras variáveis influenciam o alcance. A satisfação com o resultado artístico continua sendo o critério principal.
Na época do episódio, Vicka preparava o álbum seguinte e a música “Saber Confiar”. O videoclipe havia sido gravado na Irlanda do Norte, em Giant’s Causeway e Dark Hedges, com uma jornada visual ligada às curvas e aos momentos de incerteza descritos pela composição.
Os próximos passos da cantora brasileira na Irlanda
Vicka quer desenvolver o inglês a ponto de conversar sobre composição com a mesma precisão que tem em português. Também considera criar versões em inglês de suas músicas, embora reconheça que rimas e figuras de linguagem nem sempre sobrevivem a uma tradução direta.
Entre os objetivos de longo prazo estão fazer uma turnê por todas as capitais brasileiras, lançar um álbum formado por colaborações internacionais e aprender outros instrumentos. O próximo da lista é o bandolim, presente na música folk irlandesa.
A história de Vicka mostra como uma cantora brasileira na Irlanda pode transformar a rua em palco, espaço de aprendizado e ponto de encontro com outras culturas. Assista ao episódio completo para ouvir as quatro apresentações e conhecer os bastidores das composições, do busking e do retorno da artista a Dublin.
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