Cineasta na Irlanda do Norte: a trajetória de Luciana Gomes

Como uma brasileira construiu uma carreira de cineasta na Irlanda do Norte? Luciana Teixeira Gomes conta a Bolder uma trajetória que passou por cidadania italiana, mudança em família, venda de coxinhas durante a adaptação e um mestrado que abriu as primeiras portas no audiovisual.

Morando em Belfast, Luciana trabalha em produções e desenvolve os próprios filmes. A entrevista mostra que entrar no cinema não dependeu de começar do zero, mas de reconhecer habilidades trazidas da literatura, do teatro e da fotografia e adaptá-las à linguagem de roteiro e ao funcionamento de um set.

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Uma cidadania italiana marcada por assédio e insegurança

Luciana e o marido decidiram deixar o Brasil em 2016. Ela reuniu documentos e foi à Itália para concluir pessoalmente o reconhecimento da cidadania. Recusou uma proposta “expressa” porque desconfiou da legalidade e planejou permanecer cerca de três meses.

Logo no trajeto entre o aeroporto e a acomodação, o proprietário do local a assediou. Depois, o agente encarregado de confirmar sua residência insistiu em encontros e apareceu repetidamente na casa. Luciana denunciou as situações ao assessor e à advogada; o oficial responsável acelerou o processo, permitindo que ela deixasse a cidade depois de duas semanas.

O episódio ocupa uma parte importante da entrevista porque expõe o risco de viajar sozinha, sem rede de apoio e dependente das mesmas pessoas que controlam acomodação e documentação.

A chegada da família à Irlanda do Norte

Com o passaporte pronto, a família vendeu o apartamento e manteve a mudança mesmo depois de Luciana engravidar. O marido trabalhava com tecnologia no Brasil, mas enfrentava uma rotina sem horário e com impactos na saúde. A ideia era buscar qualidade de vida e melhores oportunidades para as filhas.

Os primeiros anos foram vividos na Ards Peninsula, uma área rural da Irlanda do Norte. Mais tarde, mudaram-se para Belfast. A adaptação incluiu dificuldades de emprego, integração com moradores locais e a tentativa de criar uma fonte de renda própria.

O negócio de comida brasileira que parou na pandemia

Luciana tentou vender salgados brasileiros. Uma reclamação da vizinha fez a família perder a primeira casa, mesmo sem usar o imóvel como ponto comercial. Em outra residência, o proprietário apoiou a regularização do negócio, mas a autorização saiu durante o lockdown e a operação não conseguiu começar.

Com o tempo, Luciana passou a compreender melhor a situação da vizinha, que tinha um filho autista sensível a cheiros e mudanças. Hoje ela também trabalha como cuidadora de pessoas com deficiência intelectual quando não está em produções.

Bolder entrevista a cineasta Luciana Gomes no estúdio do Bolder Podcast
Luciana Gomes explica como entrou na indústria audiovisual da Irlanda do Norte.

Como Luciana entrou na indústria do cinema

No Brasil, Luciana não trabalhava diretamente com cinema, mas já tinha experiência em teatro amador, fotografia, literatura e escrita. Essas competências facilitaram a transição: composição, luz, pesquisa e storytelling já faziam parte do repertório; o desafio era aprender roteiro, produção e padrões da indústria.

O primeiro passo concreto veio durante um mestrado na Queen’s University Belfast. Depois de já ter estudado literatura e artes visuais no Brasil, ela escolheu pesquisar cinema e analisou como um diretor irlandês inseria elementos autobiográficos em seus filmes.

O curso era teórico, mas Luciana insistiu em acompanhar um set para entender a passagem do roteiro à produção. Uma de suas supervisoras, também diretora, reconheceu que não seria possível pesquisar processo criativo sem observar a prática.

Curso de cinema: teoria ou prática?

Luciana faz um alerta para quem procura formação audiovisual: nem todo curso que leva “cinema” ou “film” no nome ensina câmera, direção ou montagem. Muitos programas são inteiramente teóricos. Antes de se matricular, o aluno precisa conferir módulos, equipamentos, projetos e oportunidades reais de trabalhar em set.

Ela também destaca o valor de transferir experiência de outras áreas. Sua formação literária ajudou a criar histórias; a fotografia trouxe noções visuais; e a pesquisa acadêmica serviu para desenvolver personagens e temas com profundidade.

Os desafios de financiar e terminar um filme

Produzir não termina quando as filmagens acabam. Luciana relata trocas de editores, cenas adicionais e meses de espera por um raro dia de sol para gravar uma praia na Irlanda. A ideia inicial de concluir o filme rapidamente foi substituída por outra prioridade: entregar um trabalho que respeitasse apoiadores e equipe.

O financiamento também é competitivo. Existem fundos públicos e incentivos fiscais no Reino Unido e na Irlanda, mas poucos projetos são selecionados. Grandes plataformas não recebem propostas diretamente de qualquer realizador; agentes, produtoras e contatos continuam importantes.

Um filme sobre quem fica depois de um suicídio

O primeiro filme autoral de Luciana é uma ficção sobre pessoas que vivem à sombra da perda de alguém por suicídio. O tema nasce de uma experiência pessoal: ela perdeu um amigo aos 15 anos.

Durante a pesquisa, conversou com instituições e famílias na Irlanda do Norte. Quase todas as pessoas conheciam alguém afetado ou já tinham enfrentado pensamentos semelhantes. Essa proximidade transformou o projeto e aumentou a responsabilidade sobre a forma de representar o assunto.

Vale a pena trabalhar com cinema na Irlanda do Norte?

A Irlanda do Norte abriga produções internacionais e profissionais experientes, mas entrar na área exige paciência. Formação ajuda, porém portfólio, trabalho em set, contatos e capacidade de ocupar diferentes funções pesam tanto quanto o diploma.

A história de Luciana mostra um caminho pouco linear: professora, fotógrafa, empreendedora, cuidadora e pesquisadora antes de se firmar como cineasta. Assista ao episódio para conhecer as etapas completas, as diferenças entre Irlanda e Irlanda do Norte e os projetos que ela pretende desenvolver com brasileiros.