Como é a vida de um delivery na Irlanda quando se colocam na conta o aluguel da bicicleta, as horas no frio, o risco de acidentes e a instabilidade dos aplicativos? No Bolder Podcast 557, Matheus Souza, do MGS na Europa, conta como entrou nesse trabalho depois de morar em Dublin, tentar a vida em Valência e voltar à Irlanda com a esposa e o filho.
A conversa não apresenta o delivery como dinheiro fácil. Matheus explica que um iniciante pode passar 10 ou 12 horas na rua, começar a semana já devendo o aluguel dos equipamentos e enfrentar situações que vão de pedidos derramados a ameaças. Ao mesmo tempo, a flexibilidade permite que ele divida os cuidados do filho com a esposa e escolha os horários mais produtivos.
De comprador no Brasil a cleaner na Irlanda
Antes de emigrar, Matheus morava em Curitiba e trabalhava como comprador no Grupo Marista. Ele começou na área de cadastro de materiais e avançou para comprador júnior, lidando com aquisições que iam de insumos a obras. Era um trabalho de escritório estável, mas o casal sentia que o salário desaparecia entre contas e cartão de crédito.
O plano inicial era tentar os Estados Unidos. Depois da recusa do visto de turismo de Matheus e do irmão, a família passou a considerar a Irlanda. Em agosto de 2022, Matheus chegou a Dublin com a esposa, Alane, o irmão e a cunhada para estudar inglês.
Os primeiros meses reuniram decisões difíceis. O casal morou em um porão com pouca luz natural, estudava pela manhã e quase não se encontrava por causa dos horários de trabalho. Matheus conseguiu uma vaga de cleaner no prédio da Microsoft, das 15h às 23h30. O salário pagava as despesas, mas a moradia, o inverno e a rotina tornaram a experiência desgastante.
A mudança para Valência depois da gravidez
Três ou quatro meses depois da chegada, Alane engravidou. O casal não queria voltar ao Brasil e começou a pesquisar a Espanha. A escolha foi Valência, onde pretendiam construir uma vida — não apenas passar pelo país durante o nascimento do filho.
Conseguir moradia também exigiu dinheiro e paciência. Segundo Matheus, o proprietário pediu meses de aluguel antecipados e o apartamento praticamente não tinha móveis. Para financiar a mudança, ele ficou mais dois meses na Irlanda, hospedado pelo irmão e trabalhando em duas jornadas: começava pela manhã e terminava às 23h30 na Microsoft.
Matheus elogia o clima, a comida, o transporte e a vida familiar em Valência. O casal passou cerca de dez meses na Espanha e morou em um apartamento de dois quartos fora do centro. O problema era financeiro. Sem a documentação concluída, ele trabalhava em uma empresa de distribuição de música para plataformas digitais, recebendo um valor que não cobria adequadamente as despesas.
Quando chegou o momento de renovar mais seis meses de aluguel, a reserva estava perto do fim. Ao explicar a um conhecido como era possível trabalhar e ganhar dinheiro na Irlanda, Matheus percebeu que aquela descrição também respondia ao dilema da própria família. Eles decidiram voltar.
Por que Matheus começou a trabalhar com delivery em Dublin
O retorno aconteceu com pouco dinheiro e agora com um filho pequeno. Um dos irmãos emprestou recursos para o recomeço. A primeira casa custava €1.500 e, nas palavras de Matheus, parecia um corredor: cozinha, cama e banheiro organizados em uma sequência estreita.
Ele procurou a antiga gerente da limpeza, mas a única opção disponível era trabalhar três horas por dia em uma escola distante. O deslocamento de ônibus consumiria quase uma hora em cada sentido. Foi então que pediu ajuda a um ex-colega, que indicou os grupos usados por entregadores e uma loja onde seria possível alugar uma bicicleta.
Matheus nunca havia trabalhado com entregas e evitava a atividade por causa dos relatos de ataques a ciclistas. A necessidade, porém, pesou mais. O maior choque do começo não foi localizar endereços, mas permanecer muitas horas exposto ao inverno irlandês. Ele passou a usar roupa térmica, proteção contra chuva, botas e até uma palmilha elétrica ligada a um power bank.
Quantas horas um delivery trabalha na Irlanda?
Na experiência de Matheus, quem chega precisando reconstruir a vida financeira costuma trabalhar entre 10 e 12 horas por dia. Com o tempo, a estabilidade e o conhecimento dos melhores horários permitem reduzir a jornada.
Hoje ele divide o expediente. Trabalha duas ou três horas pela manhã, fica com o filho até Alane voltar do emprego e sai novamente à noite. A média máxima atual fica em torno de sete horas. Essa flexibilidade é a principal razão para continuar: quando o filho adoeceu logo depois de começar a creche, Matheus conseguiu permanecer em casa sem negociar folga com um empregador.
A experiência também melhora o rendimento por hora. Ele aprendeu quais restaurantes atrasam, quais regiões têm mais pedidos e quais corridas pagam pouco para a distância. O uso de mais de um aplicativo permite encontrar entregas na mesma direção, embora cada plataforma tenha regras próprias e o trabalhador precise respeitá-las.
Quanto ganha um delivery na Irlanda?
Matheus evita vender uma promessa de faturamento. Ele afirma que, no inverno e trabalhando muitas horas, é possível superar o equivalente a um salário mínimo. O verão costuma ser mais fraco. No episódio, €100 em um dia aparece como exemplo de faturamento, não como garantia nem valor líquido.
Antes de converter euros em reais, é preciso descontar o custo de trabalhar. Uma bicicleta elétrica capaz de aguentar jornadas longas pode exigir duas baterias e, com melhorias, chegar à faixa de €1.700 a €2.000. Para quem aluga, Matheus cita aproximadamente €100 por semana por uma bicicleta adequada.
Ele também relata que alguns recém-chegados pagam de €80 a €100 por semana para usar contas de terceiros em aplicativos. Essa prática pode contrariar regras das plataformas, criar problemas de identificação, seguro e tributação e deixar o entregador vulnerável. Não deve ser tratada como procedimento normal para começar. Somados, esses custos podem fazer o trabalhador iniciar a semana cerca de €200 no negativo antes de pagar aluguel, mercado e outras despesas.

Bicicletas elétricas e as regras atuais na Irlanda
Um dos pontos centrais do episódio é a fiscalização das bicicletas elétricas. Matheus critica a falta de clareza que percebe entre os entregadores e relata apreensões, custos de pátio e demora até a audiência. Parte dessas falas descreve experiências da comunidade e não substitui a regra oficial.
Segundo o Department of Transport, uma e-bike tratada legalmente como bicicleta deve ter assistência por pedal, potência contínua máxima de 250 W e motor que reduza e corte a assistência antes de 25 km/h. Modelos acima desses limites, com acelerador ou capazes de funcionar sem pedalar podem ser classificados como e-mopeds e ficam sujeitos a outras exigências.
As regras podem mudar e dependem das características exatas do veículo. Antes de comprar ou modificar uma bicicleta, consulte a página oficial sobre e-bikes do Department of Transport e as orientações da Road Safety Authority.
Acidentes: muitas horas exposto ao trânsito
Matheus conta que sofreu seu acidente mais sério à noite, sob chuva. Ele seguia por uma ciclofaixa em uma bicicleta que, segundo o próprio relato, estava acima do limite permitido. Um táxi iniciou uma conversão sem sinalizar e Matheus, trafegando por volta de 40 km/h, não conseguiu parar. A bicicleta atingiu o carro.
Os bombeiros examinaram a perna e não identificaram fratura. Como a bicicleta alugada incluía manutenção, não houve cobrança pelo conserto, mas ele perdeu três dias de trabalho. Depois de mostrar ao taxista a média diária registrada no aplicativo, recebeu €350 como compensação informal.
O caso mostra dois riscos que se acumulam: velocidade e tempo de exposição. Quem passa 10 ou 12 horas na rua enfrenta chuva, trilhos do Luas, carros, portas, buracos e cansaço. Equipamento refletivo, luzes, capacete, velocidade compatível com o ambiente e manutenção não eliminam o perigo, mas reduzem parte dele.
Furtos, ameaças e situações inesperadas
O episódio reúne situações que ajudam a entender por que o trabalho não se resume a buscar e entregar comida. Matheus recomenda travar a bicicleta mesmo quando ela permanece visível e usar rastreador. Uma bicicleta montada para jornadas longas pode representar meses de economia, e o furto nem sempre acontece para revenda: há casos em que veículos são abandonados ou destruídos.
Em um congestionamento, um motorista saiu do veículo com um martelo e ameaçou Matheus depois de acusá-lo de tocar no retrovisor. As imagens da GoPro registraram o homem, o veículo e a empresa. Matheus fez uma ocorrência na Garda, mas diz não ter recebido retorno até a gravação do podcast.
Em outra entrega, um cliente pediu que ele entrasse na residência alegando estar com a perna machucada. Diante da recusa, enviou pelo chat um convite sexual explícito. Matheus mostrou a mensagem a um vizinho e reportou o caso ao aplicativo, novamente sem retorno segundo o relato.
Houve ainda uma entrega de bebida alcoólica em que o líquido vazou durante um trajeto de aproximadamente 7 km. Depois de finalizar a ordem, ele precisou voltar ao estabelecimento. O comerciante inicialmente recusou o pedido, uma discussão começou e pessoas próximas o ameaçaram quando tentou registrar a situação. O episódio terminou apenas quando o estabelecimento aceitou a devolução.
Vale a pena trabalhar com delivery na Irlanda?
Para Matheus, o delivery não é o trabalho ideal nem um atalho garantido. Foi a opção disponível quando a família voltou da Espanha endividada, e continua fazendo sentido porque oferece controle sobre o horário. Com quase três anos de experiência, ele consegue trabalhar menos horas e escolher melhor as corridas.
Para um iniciante, o cenário é diferente: jornadas longas, frio, custos semanais, aprendizado dos aplicativos e exposição ao trânsito. A renda precisa ser avaliada em euros e depois de todas as despesas — não convertida isoladamente para reais.
A principal conclusão da conversa é prática. O delivery pode sustentar uma família e ajudar no recomeço, mas exige planejamento, equipamento adequado, documentação, atenção às regras dos aplicativos e consciência dos riscos. No canal MGS na Europa, Matheus mostra o cotidiano das entregas e outras experiências da vida na Irlanda.
Assista ao Bolder Podcast 557 completo para acompanhar os detalhes da passagem por Valência, do retorno a Dublin e das situações vividas por Matheus nas ruas.
💥 Recursos para você
Serviços, cursos e ferramentas recomendados pelo Bolder.
Alguns links são de parceiros e podem apoiar o Bolder sem custo adicional para você.
🤝 Patrocinadores
Conheça as empresas que apoiam o Bolder Podcast.
