Como é trabalhar em uma prisão na Irlanda? Nathally Cascine | Bolder Podcast 159

Como é trabalhar em uma prisão na Irlanda? No Bolder Podcast 159, Nathally Cascine conta o que viu durante dois anos e meio no sistema prisional irlandês. Formada em Direito no Brasil, ela atuou na área administrativa de duas unidades e teve contato diário com agentes, governadores, profissionais de saúde e pessoas privadas de liberdade.

A conversa com Bolder vai muito além da curiosidade sobre celas, visitas e rotina. Nathally explica como entrou no serviço público irlandês, quais cuidados de segurança faziam parte do trabalho, como funcionavam os programas de educação e ressocialização e por que uma prisão com televisão ou atividades continua sendo um ambiente duro. Ela também fala sobre o peso emocional de lidar com reclamações graves, mortes sob custódia e informações confidenciais.

Publicidade

Os detalhes refletem a experiência de Nathally no período em que o episódio foi gravado, incluindo mudanças temporárias provocadas pela pandemia. Procedimentos, números, regras de seleção e políticas penitenciárias podem ter sido alterados desde então.

Do Direito no Brasil ao serviço público na Irlanda

Nathally se formou em Direito no Brasil e fez pós-graduação, mas nunca teve o objetivo de advogar. Desde antes da faculdade, queria trabalhar com segurança pública. Estudava por muitas horas para concursos, especialmente para uma carreira na Polícia Federal, e tinha apoio financeiro e emocional da família.

Em 2015, a suspensão de concursos que aguardava mudou seus planos. Depois de cerca de dois anos de preparação, ela percebeu que não sabia quando teria uma nova oportunidade. Decidiu então fazer um intercâmbio e chegou à Irlanda em março de 2016, aos 25 anos.

Seu inglês era básico, apesar dos cursos feitos no Brasil. Como também tinha formação técnica em enfermagem, conseguiu trabalhar como cuidadora de idosos. Durante aproximadamente dois anos, fazia atendimento nas casas dos clientes. A segunda empresa lhe forneceu um carro, o que permitiu dirigir pelo país e ganhar mais autonomia.

O trabalho de home care teve outra função importante: melhorar o idioma. Nathally pedia aos idosos que corrigissem sua pronúncia, lia jornais para alguns deles e aproveitava as conversas do cotidiano. Para ela, poucas horas de aula não bastavam; era necessário sair do círculo em português e praticar inglês de verdade.

A cidadania europeia não abriu todas as portas imediatamente

Quando o primeiro ciclo como estudante terminou, Nathally voltou ao Brasil. Ela estava reunindo documentos para reconhecer a cidadania italiana, um processo complicado porque os parentes que poderiam fornecer informações já haviam falecido. Depois de meses de pesquisa em cartórios, seguiu para a Itália e concluiu o reconhecimento.

Ao retornar à Irlanda em 2019, imaginava que o passaporte europeu resolveria sua recolocação profissional. Não foi assim. Candidatou-se a vagas administrativas e de recepção, mas quase não recebia respostas porque não tinha experiência de escritório no país. Voltou a trabalhar como cuidadora, dessa vez em uma nursing home, experiência que considerou mais impessoal e desgastante do que o atendimento domiciliar.

Foi então que começou a pesquisar oportunidades no portal de empregos públicos. Nathally descobriu que o governo irlandês abria seleções para diferentes áreas e que sua experiência, mesmo construída em outro setor, poderia ser apresentada por meio de competências transferíveis.

Como foi o processo seletivo para trabalhar na prisão

No processo para a área prisional, Nathally passou por avaliação on-line, prova presencial, entrevista e uma atividade de redação de relatório. Nessa última etapa, recebeu uma situação hipotética e precisou registrar o que teria acontecido como se estivesse documentando uma ocorrência. A avaliação observava raciocínio, clareza, gramática e capacidade de organizar fatos.

A entrevista do setor público também tinha um formato específico. Em vez de perguntas abstratas sobre qualidades pessoais, os avaliadores pediam exemplos concretos ligados a competências como comunicação, tomada de decisão e trabalho sob pressão. O candidato precisava explicar a situação, a tarefa que tinha de cumprir, a ação adotada e o resultado.

Nathally reforça que a experiência como cuidadora não a impediu de concorrer. As perguntas foram construídas a partir do que ela realmente havia feito. Esse é um dos aprendizados mais úteis do episódio: uma trajetória profissional não precisa ser idêntica à vaga para oferecer exemplos de responsabilidade, comunicação e solução de problemas.

Ela fez a entrevista em outubro de 2019, foi aprovada, mas não recebeu uma oferta imediata. Depois da morte do avô e de um período sem perspectivas, voltou ao Brasil em janeiro de 2020. A intenção era passar dois meses com a família, mas a pandemia fechou fronteiras e interrompeu viagens.

Em junho, o serviço prisional entrou em contato e perguntou se ela poderia começar em três semanas. Nathally aceitou antes mesmo de saber como voltaria. Encontrou uma rota aérea longa, cumpriu o isolamento exigido naquele período e chegou a tempo de iniciar o treinamento.

O treinamento antes de entrar em uma prisão na Irlanda

Antes do trabalho, ela passou por uma formação específica. Aprendeu a estrutura de autoridade das unidades, as patentes, a forma correta de se dirigir aos responsáveis e os procedimentos para circular pelo ambiente. Embora ocupasse uma função administrativa, teria contato presencial com presos todos os dias.

O uniforme ajudava a diferenciar funcionários das pessoas privadas de liberdade, que usavam roupas próprias. Cabelo comprido precisava ficar preso, piercings não eram permitidos e botas de segurança faziam parte do equipamento. Cada regra tinha uma razão prática: diminuir a possibilidade de alguém puxar o cabelo ou um acessório durante um conflito e proteger os pés em situações de risco.

Telefones e outros eletrônicos ficavam guardados. Durante o expediente, os funcionários permaneciam cerca de oito horas desconectados do mundo exterior, usando apenas os sistemas internos necessários ao trabalho. Essa restrição de acesso também protegia informações confidenciais.

O que Nathally fazia na parte administrativa

Na primeira unidade, Nathally foi designada para trabalhar diretamente com os governadores, cargos de liderança da prisão. Lidava com documentos sensíveis, correspondências, reclamações, atas de reuniões e processos administrativos. Também teve contato com mandados, transferências, registros de entrada e saída e contas internas dos presos.

A primeira reunião foi um choque. Com participantes de diferentes regiões, máscaras por causa da pandemia e vocabulário técnico, ela diz que quase não entendeu o que precisava registrar. Saiu insegura, mas ouviu de um governador que a adaptação viria com o tempo.

Veio mesmo. Depois de produzir repetidamente as atas, escrever cartas e acompanhar os procedimentos, ela passou a dominar o trabalho. Nathally resume essa evolução com uma ideia que repete no episódio: muitas tarefas não são impossíveis; apenas ainda não se tornaram familiares.

Reclamações que exigiam equilíbrio emocional

Parte do trabalho era receber e classificar reclamações. Algumas tratavam de água quente, equipamentos de academia ou acesso a atividades. Outras relatavam agressão física, abuso sexual ou violência entre presos. As denúncias mais graves exigiam encaminhamento formal e investigação.

Por trabalhar sozinha com material confidencial, Nathally precisava absorver informações difíceis sem compartilhá-las fora dali. Aprender a não levar tudo para casa foi essencial. Ela reconhece que trabalhar numa prisão exige controle emocional e não serve para qualquer pessoa.

Televisão e videogame fazem da prisão uma “colônia de férias”?

Nathally rejeita essa comparação. Ela explica que uma pessoa sentenciada pode passar anos numa cela pequena, geralmente dividida com uma ou duas pessoas, sem liberdade para escolher quando sair, encontrar a família ou circular pela cidade. A presença de televisão, chaleira ou videogame não elimina a privação de liberdade.

Na época em que trabalhou lá, alguns presos podiam ter consoles antigos comprados com recursos enviados pela família. Familiares também forneciam roupas e itens básicos. Quem não tinha apoio recebia uma pequena quantia interna e podia trabalhar em funções permitidas para adquirir produtos de higiene ou outros itens na loja da unidade.

Para Nathally, oferecer alguma forma de entretenimento e rotina reduz o isolamento e a tensão. Isso não significa ignorar a vítima ou negar a punição. Significa reconhecer que a pessoa continuará sob custódia durante anos e precisa manter a saúde mental para eventualmente retornar à sociedade.

Trabalho, estudo e ressocialização dentro da prisão

As pessoas privadas de liberdade realizavam parte da limpeza e podiam trabalhar no estoque, na organização de materiais e em outras tarefas. Havia oficinas de carpintaria, produção manual e diferentes ofícios. Na prisão feminina visitada por Nathally, existiam atividades ligadas a cabeleireiro e bijuterias.

Também era possível concluir etapas escolares, estudar à distância, aprender música, pintar e desenvolver habilidades já existentes. Havia atendimento médico e apoio relacionado à saúde mental e à dependência química. Nathally reconhece que nem todos aproveitam essas oportunidades, mas sustenta que o sistema precisa oferecê-las.

Ela faz uma distinção importante entre dar uma chance e garantir o resultado. A instituição pode criar acesso a tratamento, educação e trabalho; a decisão de se envolver com esses programas depende de cada pessoa. Seu argumento é que a ausência completa de oportunidades torna a reincidência ainda mais provável.

Prisões abertas e a preparação para voltar à sociedade

No período relatado, a Irlanda também possuía unidades abertas voltadas à fase de reintegração de determinados presos. A transferência não era automática. Uma avaliação considerava comportamento, participação em serviços, pareceres de profissionais e o risco envolvido.

Nessas unidades, a rotina se aproximava gradualmente da vida fora da prisão. Nathally visitou uma delas e descreve quartos no lugar de celas, maior liberdade de circulação e refeições em mesas compartilhadas. Algo tão simples quanto usar talheres comuns e comer perto de outras pessoas podia exigir readaptação depois de décadas de isolamento.

Ela conta ter conversado com um homem que saiu para uma consulta odontológica depois de muitos anos preso. Ao entrar num restaurante, ele sentiu que todos sabiam quem era e o observavam. A experiência mostra que a reinserção não começa apenas com emprego: inclui recuperar hábitos cotidianos e aprender a circular novamente em espaços públicos.

Segurança, visitas e a rotina durante a pandemia

Não havia armas de fogo na rotina interna descrita por Nathally. Brigas aconteciam, principalmente entre os próprios presos, e os agentes precisavam intervir. Ela viu registros de ferimentos graves e participou de reuniões sobre incidentes, lembrando que uma prisão na Irlanda continua sendo uma prisão — distante da imagem leve criada por algumas séries.

Em condições normais, existiam visitas familiares, inclusive de crianças. A estrutura tentava tornar o encontro menos hostil para os filhos, que não tinham responsabilidade pelo crime cometido. Não havia visita íntima. Controles físicos durante as visitas buscavam impedir a entrada de drogas e outros objetos.

A pandemia restringiu quase tudo. Os presos passaram mais tempo nas celas, sem academia, banho de sol regular ou visitas externas. Para pessoas que já viviam confinadas, a perda das poucas atividades disponíveis aumentou a tensão e o volume de reclamações.

O lado humano que mais marcou Nathally

A experiência mudou sua maneira de enxergar as pessoas que cometeram crimes. Nathally não elimina a responsabilidade individual nem nega o sofrimento das vítimas. O que defende é a capacidade de tratar alguém com dignidade enquanto a pena é cumprida.

No último dia em uma das unidades, um preso que limpava o corredor pediu permissão para lhe entregar um presente. Ele havia pintado um quadro reunindo as bandeiras do Brasil e da Irlanda e solicitado a produção de uma moldura. Disse que queria agradecer porque Nathally sempre o tratara como pessoa.

O quadro permaneceu no escritório dela. Para Nathally, é a lembrança de que um “bom dia” ou uma pergunta sincera podem ter peso enorme num lugar em que muita gente se sente reduzida ao pior ato da própria vida.

Da prisão à proteção de refugiados

Depois de dois anos e meio, Nathally passou em outra seleção pública. Na época da entrevista, havia acabado de começar a trabalhar na área de assistência jurídica ligada à proteção internacional, refugiados e tráfico de pessoas.

Ela vê o trabalho prisional como o primeiro degrau de sua carreira em segurança e justiça na Irlanda. Foi ali que desenvolveu escrita técnica, confidencialidade, capacidade de ouvir histórias difíceis e equilíbrio para lidar com situações complexas. A experiência brasileira em Direito, o inglês construído no cuidado de idosos e a oportunidade recebida do serviço público se conectaram de uma forma que ela não havia planejado.

O que fica da conversa sobre o sistema prisional irlandês

O episódio mostra que a prisão na Irlanda não cabe nos extremos de “modelo perfeito” ou “colônia de férias”. Havia organização, processos de investigação, educação e programas de reintegração, mas também violência, dependência química, falta de recursos, sofrimento mental e rotinas profundamente restritivas.

A contribuição mais forte de Nathally é justamente a visão de quem trabalhou por dentro. Ela consegue defender a responsabilização por um crime e, ao mesmo tempo, explicar por que respeito, tratamento e oportunidades são necessários para reduzir danos e preparar o retorno à sociedade.

Assista ao Bolder Podcast 159 para acompanhar o relato completo de Nathally Cascine sobre sua trajetória profissional e os bastidores do sistema prisional irlandês.