É possível fazer doutorado na Irlanda com bolsa sem ter estudado em uma universidade de elite? A trajetória de Samuel Perpétuo mostra que sim, mas também deixa claro que a aprovação não aconteceu por sorte. No Bolder Podcast 282, ele explica como transformou mais de um ano de preparação, documentos prontos e várias tentativas em uma vaga financiada na Irlanda.
Samuel saiu de Coroaci, uma cidade de cerca de 10 mil habitantes no interior de Minas Gerais. Estudou Jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto, participou do Ciência sem Fronteiras na Hungria, fez mestrado em Governador Valadares e chegou à Irlanda em 2022 para pesquisar educação ambiental.
Como Samuel conseguiu um doutorado na Irlanda com bolsa
O plano de voltar ao exterior surgiu ainda durante o intercâmbio na Hungria. Samuel tentou alguns mestrados na Europa, não conseguiu aprovação e percebeu que encontrava mais oportunidades financiadas para doutorado. A estratégia foi fazer o mestrado no Brasil e usá-lo para fortalecer o currículo antes de tentar novamente.
Ele se candidatou a vagas em diferentes países, incluindo Alemanha, Itália e Estados Unidos. Foram aproximadamente dez aplicações até a aprovação. A oportunidade na Irlanda apareceu no último dia do prazo, em janeiro de 2022. Como os documentos e o exame de inglês já estavam preparados, Samuel conseguiu adaptar a candidatura e enviá-la a tempo.
A entrevista aconteceu por volta do Carnaval e o resultado chegou em maio. O projeto já havia sido definido pela universidade e tinha ligação direta com a pesquisa realizada por Samuel no mestrado. Essa compatibilidade ajudou a mostrar que ele não estava enviando uma candidatura genérica.


Quais documentos são exigidos na candidatura?
Os requisitos variam de acordo com a universidade e o projeto, mas Samuel encontrou uma estrutura parecida em várias seleções europeias. Entre os documentos mais comuns estavam:
- currículo acadêmico adaptado à vaga;
- carta de motivação;
- duas cartas de recomendação;
- diploma e histórico escolar traduzidos;
- comprovante de proficiência em inglês;
- projeto de pesquisa, quando a vaga não possui um projeto previamente definido.
Em algumas universidades, o candidato apresenta a própria proposta. Em outras, como aconteceu com Samuel, a instituição anuncia uma vaga vinculada a um projeto existente e procura alguém com experiências compatíveis.
É obrigatório ter mestrado?
Segundo Samuel, o mestrado não era obrigatório em todas as vagas que encontrou. Pessoas com uma graduação sólida, iniciação científica e experiência em pesquisa podem entrar diretamente no doutorado em determinados programas. O mestrado, porém, ajuda a demonstrar maturidade acadêmica e pode diferenciar o candidato.
No caso dele, a pesquisa do mestrado dialogava diretamente com o projeto irlandês. Mais do que possuir o título, foi essa coerência entre a experiência anterior e o trabalho proposto que fortaleceu a aplicação.
A carta de motivação é a parte mais importante?
Este é um dos pontos mais práticos da conversa. Samuel tinha intercâmbio, iniciação científica e publicações, mas no início não avançava nem para as entrevistas. Ao pedir feedback às universidades, percebeu que o problema estava na forma como apresentava o próprio currículo.
A carta costuma ter uma página ou um limite definido de palavras. Em vez de contar toda a sua história, o candidato precisa ler o edital, identificar as competências procuradas e mostrar com exemplos por que sua trajetória combina com aquele projeto.
Samuel chama esse processo de “engenharia reversa”: partir do perfil descrito na vaga para escolher quais experiências merecem destaque. O mesmo vale para o currículo. Um trabalho voluntário em educação ambiental fazia sentido para a candidatura dele; uma atividade sem relação com a pesquisa apenas ocuparia espaço.
Como funciona a entrevista para o doutorado?
A entrevista se parece com uma seleção de emprego. A banca quer entender se o candidato conhece o projeto, consegue explicar sua experiência e tem condições de desenvolver a pesquisa durante vários anos. No episódio, Samuel lembra que uma bolsa representa um investimento alto da universidade, normalmente por três ou quatro anos.
O inglês precisa permitir uma conversa clara, mas Samuel contesta a ideia de que seja necessário falar como um nativo. A banca está acostumada a pesquisadores internacionais. O essencial é compreender as perguntas, organizar o raciocínio e defender as próprias ideias.
O que a bolsa de doutorado cobre?
No programa de Samuel, o financiamento cobre as taxas acadêmicas e oferece uma bolsa para o custo de vida. Ele também relata suporte com despesas relacionadas à imigração e ao seguro de saúde. As condições não são iguais em todos os projetos, portanto é indispensável conferir no edital o valor líquido, a duração, as taxas cobertas e as obrigações de pesquisa ou ensino.
Samuel mora em Dundalk, cidade de aproximadamente 40 mil habitantes perto da fronteira com a Irlanda do Norte. Para ele, a bolsa possibilitou chegar ao país sem a urgência de encontrar um emprego fora da universidade, permitindo concentrar a rotina no doutorado.
Como se preparar antes de aparecer uma vaga?
A candidatura enviada no último dia só foi possível porque o trabalho havia começado muito antes. Samuel recomenda tratar a busca por bolsa como uma preparação contínua:
- desenvolver o inglês e preparar o exame de proficiência;
- traduzir diploma e histórico com antecedência;
- construir relações acadêmicas para obter boas recomendações;
- participar de pesquisas, congressos e publicações relevantes;
- manter um currículo-base e adaptá-lo a cada oportunidade;
- enviar várias aplicações e aprender com as recusas.
Ele publicou dois artigos durante o mestrado e participou de iniciação científica ainda na graduação. Essas atividades não garantem aprovação, mas ajudam a demonstrar que o candidato entende a rotina de pesquisa e consegue levar um projeto até o fim.
Vale a pena fazer doutorado na Irlanda?
Para Samuel, valeu a pena pela experiência internacional, pela estrutura financeira e pela possibilidade de desenvolver uma carreira acadêmica em um ambiente multicultural. Ele também evita romantizar o processo: o doutorado envolve cobrança, estresse, produção científica e vários anos dedicados ao mesmo projeto.
A principal mensagem do episódio é que a oportunidade não está restrita a “gênios”. Samuel estudou em escola pública, começou no interior de Minas e recebeu várias respostas negativas antes da aprovação. Planejamento, coerência entre currículo e projeto e disposição para continuar tentando foram mais importantes do que uma candidatura perfeita na primeira tentativa.
Assista ao episódio completo para conhecer os detalhes da entrevista, da rotina de pesquisa em educação ambiental e das escolhas que levaram Samuel de Coroaci ao doutorado na Irlanda.
