Da cozinha ao Facebook: Lucas Tavares e a carreira em tecnologia

A trajetória de Lucas Tavares na área de tecnologia na Irlanda não começou diretamente em uma grande empresa. Embora já tivesse experiência em telecomunicações no Brasil, ele passou cerca de dois anos trabalhando como kitchen porter antes de voltar à própria área, conquistar uma vaga em uma empresa internacional de redes e, depois, entrar no Facebook.

Na conversa com Bolder, Lucas explica como o curso técnico abriu sua primeira porta profissional, por que o inglês atrasou sua transição de carreira e o que realmente pesou em um processo seletivo com cinco ou seis entrevistas técnicas.

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Curso técnico aos 16 anos e o início em telecomunicações

Lucas é de Curitiba e começou sua formação profissional ainda adolescente. Depois de conseguir uma bolsa em uma escola particular, estudava pela manhã e fazia à tarde um curso técnico de telecomunicações no SENAI.

Aos 18 anos, já trabalhava em uma empresa de engenharia de telecomunicações. Para ele, o curso técnico foi decisivo porque apresentou os fundamentos desde o começo. Quando entrou na faculdade, vários conceitos já eram familiares.

No Brasil, trabalhou durante quatro anos em uma empresa ligada à Embratel e depois passou cerca de um ano na Oi. Sua área era infraestrutura de redes: monitoramento de conexões, equipamentos, fibra óptica e atendimento a falhas que podiam afetar clientes empresariais.

Por que Lucas escolheu a Irlanda?

Lucas chegou à Irlanda aos 23 anos. A ideia inicial era permanecer dois anos, melhorar o inglês e depois avaliar os próximos passos. Ele pesquisou destinos como Estados Unidos, Malta, Austrália e Nova Zelândia, mas escolheu Dublin porque poderia estudar, trabalhar e estar em um dos polos europeus de tecnologia.

A mudança foi planejada financeiramente. Ele pagou o curso aos poucos, vendeu o carro e converteu a reserva em euros. Poucos meses antes da viagem conheceu Caroline, que acabou embarcando com ele. O relacionamento era recente e os dois nunca tinham morado juntos.

Logo na chegada, as malas de Caroline ficaram uma semana desaparecidas. Ainda assim, em aproximadamente um mês o casal já havia encontrado moradia, solicitado o PPS Number, aberto conta bancária e começado a procurar trabalho.

Dois anos trabalhando como kitchen porter

O primeiro emprego de Lucas na Irlanda foi como kitchen porter no restaurante interno da Penneys. Ele começou cerca de um mês depois da chegada e permaneceu por aproximadamente dois anos.

O trabalho era pesado. Em um dos primeiros turnos, Lucas teve um problema de saúde na região do cóccix, precisou ir ao hospital e passou por um pequeno procedimento. Como ainda não conseguia se comunicar bem em inglês, teve dificuldade até para entender os custos e explicar sua situação.

Outra parte delicada do relato envolve o comportamento de um superior. Lucas conta que sofreu humilhações e demorou a se defender porque não dominava o idioma nem conhecia os próprios direitos. Mais tarde, quando já conseguia se comunicar melhor, a situação mudou.

Ao relembrar o episódio, ele recomenda que trabalhadores procurem o gerente, peçam ajuda a alguém de confiança e conheçam órgãos como a Workplace Relations Commission. A falta de inglês não deve obrigar ninguém a aceitar maus-tratos.

Por que demorou para voltar à área de tecnologia?

Mesmo com experiência em telecomunicações, Lucas não conseguiu retomar imediatamente a carreira. Ele aponta três fatores: inglês limitado, empresas que não queriam patrocinar sua permissão de trabalho e uma acomodação pessoal que o fez adiar novas tentativas.

A pandemia trouxe tempo para reorganizar o currículo e se preparar para entrevistas. Quando a situação documental da família também melhorou, Lucas decidiu voltar a aplicar com mais firmeza.

O primeiro emprego de tecnologia na Irlanda

A primeira oportunidade na própria área veio na GTT, empresa de telecomunicações. O trabalho era organizado em turnos de 12 horas, alternando períodos diurnos e noturnos, porque a infraestrutura de rede precisa ser monitorada continuamente.

O processo teve três ou quatro entrevistas, concentradas em perguntas técnicas. Lucas permaneceu aproximadamente nove meses e teve contato com equipes e operações na Holanda, Alemanha, França, Espanha, Estados Unidos e outros países.

Ele reconhece que a estrutura europeia era maior do que aquela com a qual havia trabalhado no Brasil, mas os fundamentos aprendidos no curso técnico e na experiência anterior permitiram acompanhar o trabalho. A disposição dos colegas para ensinar também foi importante.

Como Lucas conseguiu trabalhar no Facebook

Depois da GTT, surgiu a oportunidade no Facebook. Lucas se candidatou sem grandes expectativas e enfrentou mais de cinco entrevistas, todas com conteúdo técnico.

Seu time era distribuído entre Estados Unidos, Irlanda e Singapura. Essa organização permitia que a operação continuasse ativa 24 horas sem exigir que todos trabalhassem de madrugada: cada equipe assumia o acompanhamento durante o horário comercial de sua região.

Lucas cuidava de uma parte da infraestrutura de rede do Facebook nos Estados Unidos. O trabalho envolvia verificar se tudo estava operando corretamente e acionar engenheiros locais quando surgia algum problema.

Ele era o único brasileiro de sua equipe direta, composta por quatro pessoas nos Estados Unidos, quatro na Irlanda e quatro em Singapura. Isso não significava que fosse o único brasileiro na empresa, pois havia profissionais em outras equipes e áreas.

Como são as entrevistas em grandes empresas de tecnologia?

Lucas conta que processos seletivos longos são comuns em grandes companhias. Um conhecido fez sete entrevistas para o Google; segundo um gerente citado na conversa, posições de liderança podem exigir ainda mais etapas.

Para aumentar as chances de conseguir a primeira conversa, Lucas aconselha ler a descrição da vaga com atenção e comparar cada requisito com o próprio conhecimento. O currículo precisa estar correto, mas não substitui a capacidade de responder às perguntas técnicas.

Indicação interna pode ajudar, assim como praticar entrevistas mesmo quando a vaga não é a prioridade. Lucas recebia contatos frequentes de recrutadores e usava alguns processos para melhorar sua desenvoltura.

Vale a pena mudar de carreira para TI?

Lucas faz um alerta para quem escolhe tecnologia apenas porque ouviu falar dos salários. Uma transição pode levar anos e gerar uma nova frustração se a pessoa não gostar do trabalho.

Antes de assumir um curso longo, ele sugere testar a área com formação técnica, certificações, cursos de curta duração ou trabalho voluntário. Tecnologia não é apenas programação: existem redes, segurança, data centers, infraestrutura, desenvolvimento e várias outras especialidades.

O curso técnico continua sendo sua principal recomendação porque apresenta uma base ampla. Para quem já está na Irlanda, programas de formação e cursos online também podem servir como primeiro contato antes de uma decisão maior.

Da cozinha ao Facebook sem apagar o caminho

A história de Lucas não é a de alguém que saiu de um restaurante e entrou no Facebook por acaso. Ela começa com formação técnica aos 16 anos, passa por cinco anos de experiência no Brasil, dois anos de trabalho pesado na Irlanda, melhora do inglês e uma volta gradual à infraestrutura de redes.

No episódio completo, Bolder e Lucas conversam também sobre adaptação em casal, moradia compartilhada, dificuldades no trabalho e a rotina em uma empresa global. É um relato útil para quem quer trabalhar com tecnologia na Irlanda sem imaginar que experiência anterior elimina todas as etapas do recomeço.


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