Trabalhar como cuidador de idosos na Irlanda não fazia parte dos planos originais de Yuri Bacuri. Publicitário de Belém do Pará, ele chegou a Dublin para estudar inglês e viver uma experiência internacional. Depois de trabalhar no café da manhã de um hotel e receber várias negativas em sua área, encontrou no setor de healthcare uma nova profissão.
No Bolder Podcast, Yuri explica como entrou no trabalho domiciliar, quais cursos e verificações precisou cumprir, como é a rotina de casa em casa e por que o aspecto emocional pesa mais do que os cuidados de higiene que costumam preocupar os iniciantes. A conversa também passa por moradia, solidão, inglês, criação de conteúdo e os planos para permanecer no país.
De Belém ao mercado publicitário de São Paulo
Yuri cresceu em Belém e praticou natação por 12 anos. As viagens para competições no Norte, Nordeste e Sudeste ajudaram a despertar a curiosidade por outros lugares. Quando entrou na faculdade de Publicidade, em 2005, já procurava informações sobre estudar um semestre fora do Brasil.
O projeto precisou esperar. Ele construiu carreira em agências e departamentos de comunicação, viveu quase três anos em São Paulo e trabalhou com marcas como Netflix e Ambev, além de empresas dos setores de mineração e construção. Também criou, em 2015, uma marca infantil chamada Bacuri — nome de uma fruta amazônica que acabou se tornando seu apelido.
Em 2019 e 2020, Yuri começou a guardar dinheiro para o intercâmbio. Segundo ele, foram cerca de três anos de preparação financeira. Seu objetivo não era acumular bens rapidamente, mas aprender inglês, viajar e experimentar uma vida diferente da rotina que já conhecia.
A chegada à Irlanda com inglês básico
Dublin não era a primeira opção de Yuri. Depois de pesquisar outros destinos, ele escolheu a Irlanda e decidiu chegar com poucas ideias prontas sobre o país. Nem conhecia redes locais comuns no cotidiano, como Penneys e Tesco. Queria formar sua própria opinião em vez de repetir experiências vistas na internet.
O inglês era básico. No voo entre São Paulo e Amsterdã, ele não entendeu a pergunta sobre o jantar e apontou para o prato do passageiro ao lado. Já em Dublin, percebeu que estudar o idioma seria apenas uma parte do desafio: o tipo de visto, o limite de horas de trabalho e a falta de experiência local dificultariam a volta imediata à publicidade.
Yuri chegou sozinho e encontrou apoio principalmente entre brasileiros. Ele discorda do conselho simplista de evitar compatriotas para aprender inglês. No começo, são as pessoas da acomodação e da escola que formam a rede de apoio mais acessível, mesmo quando os horários diferentes fazem alguém se sentir sozinho em uma casa cheia.
Primeiro trabalho: garçom de café da manhã em hotel
Yuri conseguiu o primeiro emprego batendo à porta de um hotel. Foi contratado como waiter no café da manhã e também ajudava em uma área de recepção e coworking. Na entrevista, seu vocabulário praticamente se resumia a “good morning”, mas a disposição para conversar e atender pesou a favor.
A experiência acelerou o inglês: ele precisava entender hóspedes de várias nacionalidades e sotaques, servir mesas e lidar com o ritmo intenso do hotel. Ao mesmo tempo, o esforço físico e a repetição começaram a incomodar. Quando percebeu que já dominava o vocabulário daquela função, procurou um trabalho que ampliasse o contato com a cultura local.
Como se tornar cuidador de idosos na Irlanda
Antes da mudança, Yuri tentou vagas em comunicação, mas recebeu sucessivas negativas. As barreiras mais citadas eram o visto de estudante, o inglês e a ausência de experiência profissional na Irlanda. Uma colega de casa sugeriu o setor de healthcare e o indicou à empresa onde trabalhava.
Como não vinha da área da saúde, Yuri precisou fazer diversos cursos, incluindo conteúdos sobre cuidados básicos, dignidade e relação com as famílias. Também passou pelo Garda Vetting, a verificação de antecedentes exigida para trabalhar com pessoas vulneráveis. Entre a entrevista e a primeira visita domiciliar, o processo levou cerca de dois meses.
O que um healthcare assistant faz no dia a dia?
Yuri trabalha como healthcare assistant em atendimento domiciliar. Em vez de permanecer em uma residência de idosos, vai de uma casa para outra e passa normalmente entre uma hora e duas horas com cada cliente. A rotina depende do grau de autonomia da pessoa.
As tarefas podem incluir preparar chá, fazer compras, acompanhar uma caminhada, ajudar com medicamentos e cuidados pessoais ou simplesmente conversar. Como se desloca de bicicleta elétrica e transporte público, a distância entre os atendimentos também influencia a escala.
Para Yuri, o contato com os idosos trouxe duas vantagens que procurava: prática constante de inglês e acesso direto à cultura irlandesa. As conversas sobre história, hábitos e família passaram a ensinar aspectos do país que dificilmente apareceriam apenas na escola.
Cuidados pessoais não são a parte mais difícil
Antes de começar, Yuri tinha dúvidas sobre higiene, troca de fraldas e situações semelhantes. Na prática, concluiu que essas tarefas se tornam administráveis com treinamento e rotina. O desafio maior foi emocional: criar vínculo com alguém e acompanhar a perda de autonomia, a demência ou o fim da vida.
Ele conta que, com apenas dois meses na função, acompanhou um idoso que piorou rapidamente depois de um fim de semana. Ao ver o filho se despedindo do pai, Yuri chorou e pensou na própria família no Brasil. No dia seguinte, voltou mais preparado e entendeu que seu papel também era oferecer apoio naquele momento.
Demência, emergências e responsabilidade
O atendimento domiciliar exige reação rápida. Yuri já chegou a uma casa e encontrou um cliente caído, precisando acionar socorro e informar a empresa. Em outro episódio, um problema em uma torradeira provocou um princípio de incêndio e ativou o alarme.
Também cuidou de uma pessoa com Alzheimer que precisava conhecê-lo novamente em cada visita. Em um dos dias, o homem o recebeu com um guarda-chuva e bateu em sua mão. Yuri diz que conseguiu separar a atitude da doença e, a cada encontro, reconstruía a confiança necessária para ajudar com os remédios e outras tarefas.
Esses relatos ajudam a responder se vale a pena trabalhar como cuidador de idosos na Irlanda: pode ser uma profissão com propósito e contato humano, mas não é apenas companhia e conversa. Há responsabilidade por segurança, saúde e comunicação com familiares e empregadores.
Moradia e saúde mental no intercâmbio
No primeiro quarto, Yuri morava com outras duas pessoas. Em outro momento chegou a dividir cama para economizar, uma escolha que depois considerou negligente com o próprio descanso. Ao voltar de férias no Brasil sem casa definida e com pouco dinheiro, enfrentou a fase mais difícil do intercâmbio: mudou cinco vezes em cinco meses e passou por vagas temporárias.
A instabilidade mexeu com a rotina e a saúde mental. Ele também relata sintomas de depressão sazonal durante o inverno. Quando encontrou uma acomodação melhor e deixou de dividir a cama, percebeu como sono, alimentação e espaço pessoal afetam todas as outras áreas da vida.
Criar conteúdo para não se afastar da comunicação
Yuri começou a registrar perrengues e descobertas para continuar ligado à comunicação. No início, transformar situações em vídeos também diminuía a solidão. As parcerias surgiram organicamente — inclusive com uma empresa de bicicletas, depois de duas bikes roubadas —, mas ele ainda via a criação de conteúdo como um projeto em construção.
Com o perfil Bacuri pelo Mundo, quer produzir informações úteis para quem planeja o intercâmbio e dar mais visibilidade a imigrantes do Norte e do Nordeste. Ele percebe que perguntas sobre orçamento, trabalho e preparação aparecem com frequência entre seguidores de Belém e de outros estados da região.
Visto de trabalho, faculdade ou mestrado?
Depois de quase dois anos na Irlanda, Yuri avaliava mais de um caminho para permanecer no país. Uma possibilidade era buscar permissão de trabalho na área de cuidados. Outra era entrar na faculdade ou fazer um mestrado ligado à comunicação. Para completar a qualificação profissional, também estava terminando o curso exigido para a área de healthcare enquanto continuava no inglês.
Ele não apresenta nenhuma dessas rotas como garantida: a decisão depende da empresa, da documentação, do tempo e das condições financeiras. Seu plano é continuar aprendendo, viajando e escolhendo o caminho mais viável sem exigir de si mesmo resultados que outras pessoas levaram anos para construir.
O que a trajetória de Yuri Bacuri ensina
A experiência de Yuri mostra uma transição profissional concreta. Ele deixou uma carreira consolidada, aceitou começar no hotel, investiu em formação e encontrou sentido em cuidar de idosos. Isso não eliminou os custos da imigração: houve solidão, cansaço, moradia instável e necessidade de complementar a renda com limpeza à noite.
Para quem pensa em trabalhar como cuidador de idosos na Irlanda, o episódio ajuda a enxergar a profissão além da contratação. Cursos e Garda Vetting são apenas o começo; empatia, responsabilidade, inglês e preparo emocional fazem parte da rotina. Assista à conversa completa de Yuri com Bolder para conhecer os detalhes dessa mudança entre comunicação e healthcare.
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