O intercâmbio na Irlanda de Erick Delaveggar começou muito antes do embarque. Foram cerca de três anos entre a decisão de morar fora e a chegada ao país — um período marcado por trabalho desde cedo, economia extrema, um golpe que levou parte do dinheiro, uma bolsa de estudos e uma mobilização de pessoas que acreditaram em sua história.
No Bolder Podcast 154, Erick conta a Bolder como saiu de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, e foi morar em Athlone, no centro da Irlanda. O relato não promete um caminho fácil. Ele fala da infância numa família com poucos recursos, dos empregos informais, da saudade que quase o fez desistir e da disciplina necessária para transformar um plano considerado impossível em uma mudança concreta.
Os valores, regras migratórias e condições de intercâmbio citados no episódio pertencem à época da gravação. Eles ajudam a compreender a trajetória de Erick, mas não substituem uma consulta às exigências oficiais atuais.
Quem é Erick Delaveggar?
Erick nasceu em Pernambuco e cresceu em Jaboatão dos Guararapes. “Delaveggar” é um nome artístico criado ainda na época do Orkut. Inspirado por Don Diego de la Vega, personagem ligado ao Zorro, ele modificou a grafia e manteve o nome nas redes seguintes. Quando criou o canal no YouTube, a identidade já estava consolidada.
Na Irlanda, Erick escolheu Athlone, cidade de aproximadamente 20 mil habitantes situada numa região central do país. Ele descreve o lugar como mais tranquilo e barato do que Dublin, com acesso por trem e uma rotina em que o inglês aparece com mais frequência no cotidiano.
Athlone também oferece estrutura suficiente para a vida diária: supermercados, bancos, hospital, cinema, restaurantes e pubs. Um dos pontos conhecidos é Sean’s Bar, frequentemente apresentado como um dos pubs mais antigos da Europa. Para Erick, viver numa cidade menor combinou economia, imersão no idioma e qualidade de vida.
Uma infância em que trabalhar cedo era necessário
Erick é filho de mãe solo e cresceu com cinco irmãos. A mãe trabalhava com faxina e cozinha para sustentar a casa; quando o dinheiro não era suficiente, a família recebia ajuda de vizinhos. Nesse contexto, imaginar um intercâmbio parecia algo reservado a pessoas de classe média ou alta.
A memória mais antiga de trabalho vem de quando tinha cerca de oito anos. Ele e os irmãos recolhiam latinhas, garrafas e ferro velho para comprar pequenos objetos, como figurinhas da Copa. Aos 13 ou 14, carregava compras em carrinho de mão para clientes de supermercado. Mais tarde, vendeu amendoim, picolé e cachorro-quente e fez diferentes trabalhos temporários.
Aos 15 anos, leu uma reportagem sobre brasileiros que viviam no exterior. Naquele momento, decidiu que também queria morar fora e aprender outro idioma. O primeiro destino pesquisado foi os Estados Unidos, mas as exigências financeiras e a necessidade de demonstrar vínculos com o Brasil tornavam o plano distante de sua realidade.
Exército, faculdade e a escolha de voltar ao sonho
Depois do ensino médio, Erick buscava emprego e queria cursar uma faculdade. Optou pelo serviço militar obrigatório porque precisava de renda e também tinha curiosidade sobre a experiência. Passou pelo treinamento e serviu durante um ano, período que associou ao desenvolvimento de disciplina e resiliência.
Ao sair, prestou vestibular para Relações Internacionais e conseguiu uma bolsa de 90%. A turma não abriu por falta de alunos, então escolheu Direito, o curso mais próximo entre as alternativas oferecidas. Foi aprovado nas disciplinas iniciais e começou a se interessar pela área.
Uma conversa com colegas mudou novamente sua direção. Enquanto eles falavam com entusiasmo sobre advocacia e concursos, Erick percebeu que seu objetivo continuava sendo viver fora e falar inglês. Decidiu interromper a faculdade para concentrar dinheiro e energia no intercâmbio.
A família e os amigos não receberam a decisão com confiança. Para quem conhecia suas condições financeiras, o plano parecia impraticável. Erick, porém, usava cada conquista anterior como prova de que poderia avançar mais um degrau.
Como o aluguel de boias virou o ponto de partida
Quando decidiu começar, Erick tinha cerca de R$ 500. Comprou colchões infláveis e passou a alugá-los numa praia de Pernambuco por hora. Era um negócio comum na região, embora esse tipo de boia pudesse sofrer restrições locais por questões de segurança. Nos dias de maré alta ou chuva, não ganhava nada; em dias movimentados, conseguia entre R$ 100 e R$ 200.
Ele trabalhava nos fins de semana, feriados e sempre que aparecia uma oportunidade. Ficou meses exposto ao sol e ouviu críticas de pessoas que não entendiam por que havia deixado Direito para trabalhar na praia. Para Erick, cada valor recebido tinha um significado concreto: aproximava-o da Irlanda.
A meta inicial era juntar cerca de R$ 30 mil em 30 meses, economizando aproximadamente R$ 1 mil por mês. Ele buscou uma agência que aceitasse pagamentos parcelados, para impedir que o dinheiro acumulado fosse usado em outras despesas.
Também decidiu documentar tudo no YouTube. Queria que, no futuro, ninguém precisasse perguntar apenas “como você conseguiu?”. Os vídeos mostrariam o plano desde os primeiros R$ 500, incluindo os dias bons, as frustrações e o trabalho necessário.
O golpe que levou meses de economia
Depois de trabalhar na praia, Erick conseguiu emprego numa pizzaria e, mais tarde, em lojas. Continuou economizando e já havia pago aproximadamente metade do pacote de intercâmbio quando foi incluído num grupo com centenas de clientes lesados.
A empresa havia entrado em colapso, e o dinheiro que Erick economizara com tanto esforço estava ameaçado. O impacto não era apenas financeiro. Ele tinha abandonado a faculdade, enfrentado críticas e organizado a vida inteira ao redor daquele projeto. Contar o que havia acontecido aos amigos significava ouvir de novo que o sonho não era para ele.
Erick procurou a polícia e tentou entender as opções jurídicas, mas percebeu que uma solução seria lenta e incerta. Durante dias, chorou e pensou em desistir. Mesmo assim, manteve uma pequena esperança e continuou acompanhando iniciativas criadas para ajudar os estudantes afetados.
A bolsa que recolocou o intercâmbio nos trilhos
Uma escola e uma empresa anunciaram uma bolsa para uma pessoa atingida pelo golpe. Erick enviou sua história, comprovantes dos pagamentos e links dos vídeos em que registrava o projeto. O primeiro e-mail foi escrito no meio do desespero e saiu cheio de erros; depois, ele confirmou se a mensagem havia chegado.
Com medo de não ser escolhido, pediu a amigos e seguidores que marcassem seu perfil na publicação. A mobilização cresceu e chegou a centenas de comentários, embora a organização tenha esclarecido que as marcações não eram critério de seleção.
No fim, a comissão ficou dividida entre duas histórias. Em vez de escolher apenas uma, os responsáveis buscaram uma segunda bolsa. Erick e outro candidato, Luciano, foram contemplados. Mais tarde, os dois acabariam dividindo apartamento na Irlanda.
Ganhar o curso resolveu apenas uma parte. Ainda faltavam passagem, comprovação financeira e despesas da viagem. Erick tinha poucos milhares de reais e cerca de sete meses para completar o valor.
A pandemia adiou a viagem, mas não interrompeu o plano
Pouco depois, a pandemia fechou fronteiras e escolas. O que parecia um novo obstáculo foi transformado em prazo adicional para economizar. Erick trabalhou em vendas on-line para a C&A, ofereceu produtos pelo WhatsApp e foi reconhecido no projeto interno de vendas. Também buscou empregos com salário melhor, trabalhou em estoque e continuou fazendo atividades extras.
O câmbio piorou durante esse período, elevando a meta em reais. Ao mesmo tempo, a mãe precisava de apoio. Erick vivia um conflito difícil: tinha dinheiro guardado suficiente para melhorar imediatamente partes da casa da família, mas acreditava que concluir o intercâmbio ampliaria sua capacidade de ajudar no longo prazo.
Ele mandava o necessário para que não faltasse comida, mas preservava a maior parte da reserva. A decisão não foi simples nem apresentada como regra para outras pessoas. Foi a escolha pessoal de alguém que via a mudança de país como uma estratégia para alterar a condição de toda a família.
Uma vaquinha que começou com R$ 25
Quando as fronteiras começaram a reabrir, ainda faltavam cerca de R$ 5 mil. Erick criou uma vaquinha, mas a primeira contribuição foi de R$ 25. Depois, adaptou um modelo que circulava nas redes e pediu pequenas transferências diretamente. Uma colega mandou R$ 5; outra pessoa enviou R$ 30.
Ele passou a publicar cada contribuição e explicar o objetivo. A história alcançou brasileiros em vários países, e alguns começaram a ajudar por PayPal. Valores pequenos e grandes se acumularam. A campanha funcionou porque Erick já registrava a trajetória havia anos e as pessoas conseguiam verificar sua dedicação.
Ao comprar a passagem, a ficha finalmente caiu para a família. Do início do planejamento até o embarque, passaram-se aproximadamente três anos — muito perto dos 30 meses imaginados no começo, apesar do golpe e da pandemia.
A chegada à Irlanda e o choque da saudade
O primeiro voo internacional foi uma mistura de ansiedade e emoção. Erick chegou à Europa com roupa insuficiente para o frio, sentiu o cheiro de fumaça das chaminés e se encantou com cenários que antes via apenas em vídeos. Filmou o trajeto desde a casa no Brasil até a Irlanda para completar o registro iniciado anos antes.
A realização do sonho não impediu uma crise emocional. Na primeira semana, sentiu uma dor forte no peito causada pela saudade da mãe, dos irmãos, da comida e da familiaridade do bairro. Se alguém lhe oferecesse uma passagem de volta naquele momento, diz que provavelmente aceitaria.
Ele chorava no banho e escondia da família o tamanho da dificuldade. Chamadas de vídeo, novas amizades e a criação de uma rotina ajudaram. Depois de algumas semanas, entendeu que a saudade fazia parte do processo e começou a se adaptar.
Por que Erick escolheu Athlone?
A bolsa seria inicialmente usada em Dublin, mas a escola abriu uma unidade em Athlone. Como Erick queria simplesmente chegar à Irlanda, aceitou o destino sobre o qual quase não encontrava informações.
No início, havia poucos intercambistas brasileiros na cidade e quase nenhum conteúdo em português. Isso dificultou a adaptação, mas aumentou a imersão no inglês. Erick passou a gravar vídeos sobre empregos, moradia, transporte e lugares da região.
O conteúdo atraiu novos estudantes. Com o tempo, surgiu uma comunidade brasileira que compartilhava vagas, ajudava quem acabava de chegar e organizava encontros. Erick passou a apresentar a cidade, indicar bancos e supermercados e, em algumas ocasiões, buscar recém-chegados no aeroporto.
Ele ressalta que a escolha depende do perfil. Quem procura vida noturna intensa, grande diversidade cultural e mais volume de oportunidades pode preferir Dublin. Quem prioriza tranquilidade, custo menor e contato cotidiano com nativos pode encontrar vantagens numa cidade menor.
O primeiro emprego e a realidade do trabalho de intercambista
Uma brasileira que participava de uma igreja local indicou Erick para um restaurante. Mesmo sem conhecê-lo bem, apresentou-o como alguém esforçado. O dono perguntou quando poderia começar, e Erick aceitou apesar de compreender apenas parte da conversa.
O trabalho era pesado. Ele cuidava sozinho de uma cozinha cheia de louça enquanto chefs e garçons atendiam dezenas de mesas. Em um dia particularmente difícil, lembrou de tudo o que havia prometido a si mesmo no Brasil: quando estivesse trabalhando na Irlanda, valorizaria a chance. Gravou um vídeo sorrindo diante da pia lotada.
A gratidão não apaga a exploração ou o cansaço, mas mostra a perspectiva daquele momento. O emprego permitiu pagar despesas, renovar o curso e enviar dinheiro para a mãe. O primeiro envio internacional foi uma das maiores alegrias da viagem.
Viagens, estudos e o plano de construir uma casa para a mãe
Depois de alguns meses, Erick percebeu que podia reservar uma parte para viver a experiência. Conheceu Amsterdã, visitou o parque de flores que via no computador, foi a Londres e participou do festival Tomorrowland, na Bélgica.
Mesmo com as viagens, a prioridade permaneceu na família e no futuro profissional. Na época da entrevista, ele economizava para reconstruir a casa da mãe com água encanada, piso adequado e uma cozinha melhor. Também pagava um curso de informática para o irmão mais novo e queria ampliar as possibilidades dos demais irmãos.
Erick não pretendia permanecer indefinidamente em trabalhos de entrada. Pesquisava graduação e outras formações na Europa, tentando descobrir uma área compatível com sua vocação para humanas e saúde. O intercâmbio seria o primeiro passo, não o destino final.
O que a história de Erick Delaveggar ensina
A trajetória de Erick não prova que qualquer pessoa conseguirá fazer intercâmbio apenas com pensamento positivo. Ela mostra algo mais concreto: uma meta grande pode ser dividida em trabalho, prazo, documentação, rede de apoio e capacidade de replanejar quando algo dá errado.
Também revela o valor de registrar uma jornada com honestidade. Os vídeos não serviram apenas para inspirar seguidores; criaram confiança, conectaram Erick a pessoas dispostas a orientar e ajudaram a mobilizar apoio no momento decisivo.
Assista ao Bolder Podcast 154 para ouvir Erick contar, com detalhes, como saiu do aluguel de boias em Pernambuco, enfrentou o golpe e a pandemia e construiu uma nova vida em Athlone.
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