De fonoaudióloga a cuidadora na Irlanda: a história de Joana Izar

Trabalhar como cuidadora na Irlanda foi o caminho que Joana Izar encontrou para entrar no sistema de saúde irlandês depois de construir duas carreiras no Brasil. Formada em fonoaudiologia e educação física, com pós-graduação em gerontologia, ela precisou separar duas coisas que parecem iguais, mas não são: ter o diploma traduzido e estar autorizada a exercer uma profissão regulamentada.

No Bolder Podcast 340, Joana explica como chegou como estudante, trabalhou em um nursing home e depois passou a visitar clientes em casa. O relato mostra o lado técnico do cuidado, o desgaste físico, a importância de documentar tudo e os limites que o profissional deve respeitar, mesmo quando acredita saber o que é melhor para o paciente.

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Quem é Joana Izar?

Joana formou-se em fonoaudiologia em 2003. Mais tarde, cursou educação física e fez pós-graduação em gerontologia, área dedicada ao estudo do envelhecimento.

Antes de sair do Brasil, trabalhava de 40 a 50 horas por semana como profissional de educação física em um programa da Prefeitura do Rio de Janeiro. Atendia principalmente idosos e ainda mantinha alguns clientes particulares de fonoaudiologia.

Ela já havia trabalhado com hidroginástica em academias e projetos sociais. No episódio, cita iniciativas na Rocinha e na Mangueira para mostrar que atividade física e envelhecimento não deveriam ser privilégio de idosos com maior renda.

Por que Joana mudou-se para a Irlanda?

A principal motivação foi pessoal. Joana mantinha um relacionamento com uma mulher que já vivia na Irlanda e queria transformar a relação a distância em uma vida presencial. Como pretendia permanecer no país, decidiu entrar de forma regular como estudante de inglês.

Ela seguiu o limite legal de trabalho do visto de estudante e levou o curso de inglês a sério. Embora tivesse estudado o idioma durante a adolescência, percebeu ao chegar que não compreendia o sotaque irlandês e tinha dificuldade para manter uma conversa.

Para Joana, o curso foi parte essencial da adaptação, especialmente porque seu objetivo era trabalhar na saúde. Nesse setor, não basta executar uma tarefa: é preciso entender consentimento, orientações clínicas, relatórios e situações de emergência.

Diploma traduzido não significa profissão reconhecida

Joana chegou com os diplomas traduzidos, mas isso não lhe dava automaticamente o direito de atuar como fonoaudióloga. Ela resume a transição dizendo que precisou “descer alguns degraus para subir um”.

Na Irlanda, a profissão equivalente é speech and language therapist. Qualificações obtidas fora do país precisam passar pelo reconhecimento da autoridade competente e, depois, pelo registro profissional. A CORU é a autoridade responsável pelo reconhecimento de qualificações internacionais nessa área.

O idioma também tem peso especial. A fonoaudiologia trabalha diretamente com fala, comunicação e linguagem. Por isso, a exigência de inglês não é uma formalidade: está ligada à segurança e à capacidade de avaliar e tratar pacientes.

Como se tornar cuidadora na Irlanda

Joana optou por fazer uma formação técnica de saúde no nível QQI Level 5. O curso tinha oito módulos, conteúdo teórico, aulas presenciais, avaliações práticas e uma etapa de experiência profissional.

Seu estágio foi realizado em um nursing home. Ao terminar, ela foi contratada pela própria instituição e permaneceu cerca de um ano. Para Joana, a formação técnica não diminui o trabalho: ela prepara o profissional para usar equipamentos, mobilizar pacientes, respeitar protocolos e compreender o sistema de saúde local.

Os critérios variam conforme empregador e função. Para vagas no sistema público, o HSE informa que o QQI Level 5 é uma qualificação de entrada para Healthcare Assistants. Em serviços domiciliares contratados pelo HSE, as referências atuais incluem formações equivalentes e os módulos de Care Skills e Care of the Older Person.

O curso pode ser feito do Brasil?

Na experiência descrita por Joana, não seria possível concluir toda a formação do Brasil. Mesmo quando boa parte das aulas é online, existem atividades e avaliações práticas presenciais. O trabalho envolve equipamentos e técnicas que precisam ser demonstrados com segurança.

Cuidador é Critical Skills na Irlanda?

Durante a conversa, o trabalho de cuidador é associado a Critical Skills. Essa informação precisa de contexto. Atualmente, vagas elegíveis de healthcare assistant, home carer e care worker podem fundamentar um General Employment Permit, desde que a oferta e o empregador cumpram requisitos como remuneração mínima e teste do mercado de trabalho.

Isso não significa que qualquer vaga gera visto nem que a função seja automaticamente enquadrada no Critical Skills Employment Permit. Em março de 2026, o piso específico anunciado para essas funções passou a €32.691 anuais. Consulte sempre os checklists oficiais de employment permits antes de aceitar uma proposta.

Do nursing home ao cuidado na casa do cliente

Depois do nursing home, Joana passou a trabalhar com home care, visitando pessoas em suas próprias casas. A maioria é idosa, mas o serviço também pode atender crianças e adultos com deficiência, doenças autoimunes ou limitações de mobilidade.

Ela cita o caso de uma mulher de aproximadamente 50 anos com miastenia gravis, doença que reduziu progressivamente sua mobilidade. Joana e outro cuidador faziam juntos a higiene e a transferência da cliente porque o uso do elevador corporal, chamado hoist, não poderia ser realizado por apenas uma pessoa naquela situação.

O plano de cada visita depende das necessidades do cliente: banho, higiene corporal, troca de fralda, saúde bucal, alimentação, organização e companhia. O cuidador trabalha seguindo um plano e sob supervisão, não como substituto de médico ou enfermeiro.

Consentimento: o cuidador não decide sozinho

Um dos pontos mais importantes do episódio é o consentimento. Joana explica que o profissional não deve chegar impondo um banho ou qualquer outro cuidado. Mesmo quando acredita que a pessoa precisa daquilo, é necessário obter o consentimento do cliente ou de quem legalmente responde por ele.

Se o cliente recusar, a função do cuidador é respeitar, registrar a situação e informar a equipe responsável. A vontade de “fazer o bem” não autoriza ultrapassar autonomia, protocolo ou limites profissionais.

Joana aprendeu isso também no turno noturno do nursing home. Certa madrugada, deu banho em um idoso agitado depois de pedir a concordância dele. O cliente ficou tranquilo, mas a enfermeira explicou que a decisão deveria ter sido discutida previamente com a supervisão.

Por que documentar tudo protege o cuidador e o cliente

Cada cliente atendido por Joana tinha uma pasta em casa. Ao terminar a visita, ela registrava o cuidado prestado, recusas, alterações de comportamento e qualquer acontecimento relevante. Quando necessário, também enviava uma comunicação escrita à empresa ou à enfermeira responsável.

Ela insiste no registro por escrito porque uma conversa telefônica pode não ser suficiente em caso de reclamação. Para uma profissional imigrante, dominar o inglês escrito e manter informações objetivas é uma forma de proteger o cliente, a empresa e a própria carreira.

O caso dos ovos com salsicha

Joana relata um atendimento a um homem que havia sofrido um AVC e não conseguia explicar verbalmente como queria o almoço. Ela preparou ovos com salsicha de uma forma diferente da esperada. Irritado por não conseguir se comunicar, ele mandou que ela saísse.

Joana telefonou imediatamente para a supervisão, registrou o ocorrido na pasta e depois enviou um relato por e-mail. Explicou que não se sentia em condições de retornar àquela casa, e a empresa retirou o cliente de sua escala.

Xenofobia ou desconforto diante do desconhecido?

Joana já sentiu preconceito na vida pessoal e durante alguns atendimentos, sobretudo quando percebeu tratamento diferente daquele dado a colegas irlandeses. Ainda assim, evita chamar toda reação negativa de xenofobia.

Em clientes idosos, uma reação pode decorrer de demência, dificuldade de comunicação, medo de depender de outra pessoa ou simples preferência por alguém da mesma cultura. Ela tenta observar fatos antes de concluir — sem aceitar desrespeito e sem ignorar possíveis condições clínicas.

A orientação é conhecer as regras da empresa, registrar acontecimentos e reportar comportamentos ofensivos. Adaptação cultural não significa permitir abuso.

Como é a rotina de uma cuidadora na Irlanda?

Joana mora em Navan, no condado de Meath, e decidiu não dirigir. Como a empresa conhecia essa limitação, organizava clientes relativamente próximos. Mesmo assim, nos dias sem carona ou transporte ela caminhava entre 14 e 15 quilômetros.

Normalmente começava por volta das 11h, dentro de uma disponibilidade que podia se estender das 9h às 21h — não como um turno contínuo, mas como uma janela com atendimentos distribuídos. Trabalhava aproximadamente dois fins de semana por mês e recebia mais pelos domingos.

A alimentação precisava acompanhar os deslocamentos. Joana aprendeu a tomar um café da manhã reforçado e, entre visitas, comprava sopa, sanduíche, chá ou café em lojas de conveniência. Nem sempre havia tempo para voltar para casa e almoçar.

No nursing home, os turnos noturnos duravam 12 horas, das 20h às 8h. A noite não significava apenas observar pessoas dormindo: havia clientes com insônia ou demência, preparação para o dia seguinte, registros e situações que exigiam atenção constante.

Casamento, visto e um ano sem trabalhar

Joana é casada com uma cidadã europeia. Enquanto aguardava a regularização ligada ao casamento, passou primeiro por uma extensão do visto de estudante e depois ficou aproximadamente um ano sem trabalhar para não correr o risco de exercer atividade sem autorização.

O processo levou cerca de dois anos e coincidiu com efeitos administrativos da pandemia. Joana não afirma que a demora tenha ocorrido por ser um casamento entre duas mulheres, mas relata que a espera afetou renda, rotina e saúde mental.

Na vida cotidiana, alguns clientes perguntavam se ela era casada e qual era sua religião. Quando falava em “esposa”, às vezes a pessoa pensava que ela havia confundido as palavras em inglês. Joana nunca enfrentou um impedimento legal por causa do casamento, embora nem sempre se sentisse confortável para demonstrar afeto em público.

Trabalhar como cuidadora na Irlanda vale a pena?

Joana considera que sim. Ela ganhava acima do salário mínimo e, no home care, recebia melhor do que no primeiro trabalho em nursing home. A remuneração depende de experiência, qualificação, empresa, cidade, horário e tipo de atendimento.

Mas ela rejeita a ideia de emprego fácil. O profissional lida com higiene íntima, mobilidade reduzida, doenças progressivas, demência, isolamento e famílias sob pressão. Um erro com um elevador corporal ou uma transferência pode causar uma lesão grave.

  • Faça a formação adequada: teoria sem prática não prepara para equipamentos e movimentação de pessoas.
  • Desenvolva o inglês: o trabalho exige compreender o cliente e escrever registros claros.
  • Respeite o consentimento: cuidado não deve ser imposto.
  • Registre fatos: recusas, incidentes e mudanças precisam ser documentados.
  • Conheça seus limites: reporte situações que afetem sua segurança física ou emocional.
  • Não conte com um visto automático: emprego, salário e empresa precisam atender às regras vigentes.

Uma nova carreira, não um “subemprego”

Joana não trata o cuidado como derrota profissional. A formação em saúde, o trabalho com idosos e a experiência em comunicação continuam presentes, mas aplicados em outro nível e dentro de outro sistema.

Ela pensa em crescer na saúde irlandesa e talvez iniciar uma nova faculdade, possivelmente enfermagem. Por enquanto, vê o trabalho como cuidadora como uma forma de conhecer a saúde pública, as leis, a ética e a cultura do país a partir da linha de frente.

Assista ao episódio completo para entender como Joana reconstruiu sua trajetória na Irlanda sem apagar as carreiras que teve no Brasil — e por que gratidão, responsabilidade e respeito são as palavras que ela mais associa ao cuidado.


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