A trajetória de Eli Arruda até uma fintech na Irlanda não começou em tecnologia. No episódio 72 do Bolder Podcast, ele conta como passou por fábrica, restaurante, eventos e atendimento telefônico antes de unir a experiência bancária do Brasil com uma especialização em finanças e tecnologia.
A conversa também mostra uma parte que costuma desaparecer dos relatos de carreira: a insegurança de quem imigra, a necessidade de desenvolver o inglês no trabalho e a dificuldade de acreditar que a experiência profissional construída no Brasil ainda tem valor no exterior.
Por que Eli decidiu fazer intercâmbio na Irlanda
Antes de emigrar, Eli trabalhou por cerca de quatro anos e meio no Itaú. Ele exercia tarefas de maior responsabilidade e esperava uma promoção, mas outra pessoa foi escolhida. A frustração reforçou uma ideia que já vinha crescendo: aprender inglês e buscar novas possibilidades profissionais.
O plano ganhou outro formato quando o marido descobriu que poderia solicitar a cidadania italiana. Os dois reuniram documentos aos poucos e, quando conseguiram a certidão que faltava, trocaram uma viagem planejada pela mudança definitiva para a Europa.
Eli chegou à Irlanda em agosto de 2017 como estudante. Poucos dias depois, o marido seguiu para a Itália para concluir o reconhecimento da cidadania. Durante os meses em que ficaram separados, Eli estudou, trabalhou e tentou preparar uma estrutura para a vida dos dois em Dublin.
Os primeiros trabalhos durante o intercâmbio
O primeiro emprego foi em uma fábrica que montava cestas de Natal. O serviço era pesado e, em alguns dias, envolvia jornadas longas na linha de produção. Ainda assim, Eli guarda uma lembrança positiva do gerente irlandês, Mick, que se dispôs a acolhê-lo no Natal caso ele estivesse sozinho.
Depois vieram experiências em restaurante e na montagem de eventos dentro do Google, por meio de uma empresa terceirizada. O ambiente do Google parecia uma aproximação com o universo corporativo, mas a função tinha pouca conversa e o time era formado principalmente por brasileiros. Eli percebeu que seu inglês não estava avançando como precisava.
O emprego que destravou o inglês
A virada aconteceu quando ele decidiu se candidatar a vagas de escritório, mesmo sem se sentir pronto. Após três etapas de seleção, foi contratado por um call center que atendia clientes canadenses de uma empresa de segurança residencial inteligente.
Atender pelo telefone parecia um salto enorme para quem ainda tinha dificuldade para montar frases. Havia roteiros de suporte, mas era necessário compreender diferentes clientes, explicar procedimentos e conversar em inglês durante praticamente todo o expediente.
Os turnos podiam terminar de madrugada e a rotina era desgastante. Mesmo assim, Eli permaneceu aproximadamente um ano e considera essa experiência decisiva para ganhar fluência e confiança no ambiente profissional.
Como sair dos trabalhos operacionais na Irlanda
Durante os primeiros oito meses, Eli trocou de emprego três vezes. Em determinado momento, ele acreditava que continuaria para sempre como garçom ou auxiliar de cozinha, apesar de já ter documentação e experiência bancária.
A mudança começou quando ele passou a se candidatar mesmo sem acreditar totalmente que conseguiria. O apoio do marido, a terapia e o exemplo de outros brasileiros ocupando posições qualificadas ajudaram a desmontar essa percepção.
O episódio oferece uma lição prática: o primeiro trabalho de escritório não precisa ser o emprego ideal. Para Eli, o call center serviu como ponte entre o intercâmbio e o mercado corporativo, além de produzir a experiência local que apareceria nas candidaturas seguintes.
Da Administração ao mercado financeiro irlandês
Eli é formado em Administração e não queria descartar completamente o que havia aprendido no Brasil. Depois do atendimento ao cliente, ele trabalhou em uma empresa ligada ao mercado de investimentos, pesquisando informações sobre commodities como energia, soja e petróleo.
O trabalho envolvia levantar dados sobre origem, destino, qualidade e preço para alimentar o sistema usado por profissionais do mercado. A experiência o aproximou das áreas em que finanças, análise de dados e tecnologia se encontram.
Springboard e a pós-graduação em Finance and Fintech
Quando decidiu direcionar a carreira para fintech, Eli percebeu que precisava fortalecer o currículo na Irlanda. Encontrou uma pós-graduação em Finance and Fintech na Technological University Dublin, mas o curso custava cerca de €10 mil.
Um amigo apresentou o Springboard, programa de incentivo à qualificação e à mudança de carreira. Na situação de Eli e conforme as regras vigentes na época, o subsídio cobriu 90% do valor, e ele pagou aproximadamente €1 mil.
A pós-graduação de nível 9 combinava finanças, programação, relatórios, análise de dados e interpretação do mercado. Feita durante a pandemia, ela exigia leituras constantes e trabalhos extensos em inglês. Eli conta que subestimou o volume do curso e precisou desenvolver também o inglês acadêmico.
Os critérios e valores do Springboard podem mudar. Quem pretende seguir esse caminho deve consultar as condições atuais do programa e de cada curso antes de fazer o planejamento financeiro.
O que faz uma fintech ou regtech na Irlanda?
No momento da entrevista, Eli trabalhava em uma empresa que reunia características de fintech e regtech. Em termos simples, o software ajudava empresas responsáveis por investimentos a organizar informações e cumprir obrigações regulatórias.
O trabalho combinava regras financeiras, tecnologia, segurança da informação e análise de dados. Para Eli, esse cruzamento permitiu aproveitar a formação em Administração, a experiência bancária e o interesse crescente por programação.
Imigração, identidade e vida pessoal
A mudança de país também atravessou a vida familiar. Eli se casou antes de viajar, mas não contou imediatamente à família evangélica que era casado com outro homem. Ele explica que precisava se sentir seguro e construir uma base antes de enfrentar uma conversa que temia havia anos.
Quando revelou o casamento, a primeira visita ao Brasil foi difícil. Com o tempo e por meio de conversas diretas, a relação familiar mudou. O relato mostra que a autonomia conquistada durante o intercâmbio não foi apenas profissional: ela também ajudou Eli a estabelecer limites e viver de forma mais coerente com sua identidade.
Como trabalhar com fintech na Irlanda?
A experiência de Eli não apresenta uma fórmula única, mas deixa alguns caminhos claros:
- identificar quais competências da carreira no Brasil podem ser reaproveitadas;
- buscar uma primeira experiência local que desenvolva inglês e confiança;
- pesquisar formações alinhadas às vagas desejadas;
- verificar programas de qualificação disponíveis para sua situação migratória;
- candidatar-se antes de se sentir completamente pronto;
- entender que finanças, tecnologia, dados e regulação oferecem funções diferentes dentro do mesmo setor.
De intercambista a profissional de fintech na Irlanda, Eli construiu a transição em etapas. O ponto central do episódio não é um salto repentino, mas a soma de experiências que pareciam desconectadas e acabaram formando uma carreira coerente.
Assista ao episódio completo para acompanhar a história de Eli Arruda e os detalhes dessa mudança profissional.
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