Desenvolvedor na Holanda: a carreira de Daniel Titello | Bolder Podcast 172

Como construir uma carreira de desenvolvedor na Holanda depois de recomeçar em diferentes países? No Bolder Podcast 172, Daniel Titello conta uma trajetória que passou por Coreia do Sul, Itália e Irlanda antes de chegar a Amsterdã. A conversa mostra que a mudança não aconteceu por um atalho: ela foi resultado de estudo, candidaturas, mudanças de área e decisões tomadas mesmo quando a situação profissional já era confortável.

O episódio foi gravado em 2022. Salários, critérios de imigração, benefícios fiscais e valores de aluguel mencionados por Daniel retratam aquele momento e não devem ser usados como referência atual sem confirmação nos canais oficiais.

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Da Engenharia da Computação ao intercâmbio na Coreia do Sul

Daniel estudou Engenharia da Computação e participou do Ciência sem Fronteiras na Coreia do Sul. Ele permaneceu aproximadamente um ano no país, teve contato com laboratório de pesquisa e estágios e aproveitou a experiência principalmente para melhorar o inglês.

A viagem também mudou sua percepção sobre morar fora. Ao voltar ao Brasil, por volta de 2015, encontrou um mercado afetado pela crise econômica e teve dificuldade para se encaixar na área que imaginava. Trabalhou com eficiência energética e chegou a tentar uma bolsa de mestrado para retornar à Coreia, mas não passou na seleção final.

Esse primeiro revés é importante para entender a história: a carreira internacional de Daniel não começou com uma contratação direta para uma grande empresa europeia. Houve tentativas que não avançaram, trabalhos fora do objetivo principal e mudanças de plano.

A passagem pela Itália e a decisão de morar na Irlanda

Com cidadania italiana, Daniel decidiu tentar a vida na Europa. Foi para Roma e trabalhou em um hostel em troca de acomodação. Segundo ele, a experiência na Itália ajudou a reduzir um sentimento de inferioridade que carregava em relação aos europeus. Conviver com pessoas de diferentes países mostrou que ninguém estava automaticamente à frente dele por causa da nacionalidade.

Depois, escolheu a Irlanda por dois motivos centrais: o inglês e a percepção de que haveria mais oportunidades profissionais. Chegou ao país por volta de 2018 e voltou a usar um hostel como forma de reduzir o custo de moradia enquanto procurava emprego.

Mais de 100 candidaturas até o primeiro trabalho na Irlanda

Mesmo com diploma, cidadania europeia, inglês e experiências internacionais, Daniel não encontrou emprego imediatamente. No primeiro mês, enviou mais de 100 candidaturas e recebeu poucas respostas. Olhando para trás, ele identifica um problema claro: candidatava-se a praticamente qualquer vaga e ainda não sabia apresentar bem o próprio perfil.

A primeira grande oportunidade veio de onde ele menos esperava. Daniel foi chamado para uma entrevista na Intel e, apesar do nervosismo, conseguiu a vaga. Entrou em uma função ligada a suporte e administração de sistemas, com salário anual que ele recorda como aproximadamente €24.500 naquele período.

O trabalho serviu como porta de entrada. Enquanto aprendia os processos da empresa, Daniel estudava fora do expediente. Quando pessoas da equipe saíram, ele assumiu mais responsabilidades e chegou a liderar parte da operação. Essa experiência deu resultados concretos para colocar no currículo, como melhoria de processos e redução de pendências.

Como Daniel fez a transição de suporte para desenvolvimento

Daniel percebeu que o desenvolvimento oferecia uma perspectiva melhor de crescimento e renda. A transição, porém, não aconteceu apenas porque seu diploma tinha relação com tecnologia. Ele precisou estudar, ganhar prática e aproveitar uma oportunidade interna de capacitação.

A empresa pagou seu treinamento e certificação em Pega, uma plataforma de baixo código baseada em Java. Depois da formação, veio a primeira vaga remunerada como desenvolvedor, com salário em torno de €30 mil por ano, conforme os valores citados no episódio.

Programação vale a pena para todo mundo?

Daniel recomenda testar a rotina antes de investir muito dinheiro em uma formação. Cursos introdutórios no YouTube ou em plataformas de ensino permitem descobrir se a pessoa realmente gosta de resolver problemas, investigar erros e lidar com a frustração que faz parte do trabalho.

Ele também lembra que suporte de TI pode ser uma boa entrada no mercado. Nem toda carreira em tecnologia precisa começar diretamente como programador, e uma função inicial pode gerar experiência, contatos e conhecimento dos processos de uma empresa.

Por que trocar a Irlanda pela Holanda?

Depois de aproximadamente dois anos e meio a três anos em outra empresa na Irlanda, Daniel participou de um processo seletivo para uma posição que inicialmente seria na Polônia. Durante a pesquisa, encontrou uma oportunidade semelhante em Amsterdã e negociou para ser considerado para a Holanda.

A empresa irlandesa fez uma contraproposta. Mesmo assim, ele escolheu mudar. O receio não era apenas financeiro: Daniel já tinha amigos, reconhecimento profissional e estabilidade na Irlanda. A decisão de ir para Amsterdã significava abandonar uma situação conhecida para experimentar outro mercado.

Ele chegou à cidade em 17 de outubro de 2021, por volta das 23h, e começou a trabalhar remotamente às 8h da manhã seguinte. O pacote de realocação incluía passagem, transporte e cinco dias de hotel, embora ele relate que parte do processo de reembolso demorou.

O primeiro trabalho na Holanda não era o que ele esperava

A função estava ligada a um projeto da Booking.com, mas o dia a dia se mostrou mais burocrático e próximo do suporte do que do desenvolvimento. Daniel recebia chamados de produção e não encontrava o tipo de desafio técnico que buscava.

Um recrutador que já havia entrado em contato voltou a procurá-lo e trabalhou cada uma de suas objeções. A entrevista com o gestor e o Scrum Master foi uma conversa leve, e a nova oferta trouxe cerca de 20% de aumento. Daniel aceitou e trocou o vínculo permanente por um contrato como prestador.

Contrato permanente ou trabalho como contractor?

Como contractor, Daniel recebia pelas horas efetivamente trabalhadas e administrava um banco de horas para as folgas. Ele gostava da flexibilidade e, quando não tinha planos de viagem, preferia trabalhar em alguns feriados para preservar as horas e aumentar a renda.

Essa escolha não é automaticamente melhor para todos. Um contrato permanente pode oferecer mais previsibilidade e benefícios. Já o trabalho por contrato pode pagar mais, mas exige atenção a férias, períodos sem projeto e responsabilidades que antes ficavam com o empregador.

Precisa falar holandês para trabalhar com tecnologia?

Na experiência de Daniel, o inglês era suficiente para atuar como desenvolvedor na Holanda. Sua equipe reunia profissionais de diferentes nacionalidades, e documentação, reuniões importantes e desenvolvimento aconteciam em inglês.

Isso não significa que o holandês seja irrelevante. Daniel considera o idioma importante para quem decide permanecer por muitos anos, quer se integrar melhor à sociedade ou pretende disputar funções nas quais a comunicação local é indispensável. Para a vaga de tecnologia que ocupava, porém, o holandês não foi uma barreira de entrada.

Como conseguir emprego na Holanda saindo do Brasil?

Daniel explica que empresas acostumadas a contratar profissionais internacionais normalmente conduzem a documentação e a realocação. Para quem não possui cidadania europeia, a contratação depende do empregador e dos requisitos de imigração.

No episódio, ele comenta que o salário mínimo exigido para profissionais qualificados variava conforme a idade. Esses valores são atualizados regularmente. Quem pretende aplicar hoje deve consultar os critérios de renda do IND, órgão oficial de imigração dos Países Baixos, em vez de utilizar os números mencionados em 2022.

A recomendação prática de Daniel é construir uma estratégia: definir a área, entender quanto tempo pode ficar sem trabalhar, preparar currículo e LinkedIn e começar a se candidatar. Para ele, não basta disparar milhares de currículos iguais. É melhor estudar a vaga e mostrar com clareza onde a experiência do candidato resolve o problema da empresa.

LinkedIn e currículo: os erros que afastam recrutadores

Daniel e a namorada transformaram a experiência com processos seletivos em um trabalho paralelo de orientação de carreira. A ideia surgiu depois de ele passar cerca de duas horas preparando uma amiga para uma entrevista. A conversa ajudou, outras pessoas procuraram o casal e os serviços foram ampliados para currículo, LinkedIn e simulações de entrevista em inglês.

Entre os erros que Daniel mais vê estão:

  • Descrição superficial: a pessoa passa anos em uma empresa, mas resume toda a experiência em dois tópicos genéricos.
  • Falta de palavras-chave: o perfil não usa os termos que aparecem nas vagas desejadas e acaba fora das buscas dos recrutadores.
  • Ausência de resultados: responsabilidades aparecem sem números, contexto ou melhorias produzidas.
  • Ordem inadequada: profissionais experientes colocam a formação acadêmica no topo e escondem justamente a experiência que mais interessa à empresa.
  • Perfil desatualizado: novas competências e projetos não são registrados, reduzindo a chance de receber abordagens relevantes.

Para quantificar resultados, ele sugere mostrar evolução, redução de tempo, volume processado, crescimento de audiência ou dinheiro administrado. O número precisa ser verdadeiro e compreensível para um recrutador europeu.

Como se preparar para a entrevista técnica?

Os processos podem incluir uma conversa inicial, teste de código, entrevista técnica e avaliação de compatibilidade com a cultura da empresa. Daniel recomenda pesquisar a companhia e estar pronto para explicar as decisões tomadas no teste, não apenas entregar um código que funcione.

Nas entrevistas comportamentais, respostas decoradas têm menos valor do que exemplos coerentes com a trajetória da pessoa. A preparação deve considerar o próprio perfil, as responsabilidades da vaga e as situações que demonstram capacidade de resolver problemas.

Mudar de empresa é a melhor forma de aumentar o salário?

A conversa também aborda profissionais de tecnologia que trocam de emprego em intervalos curtos para acelerar o crescimento salarial. Daniel não condena a estratégia, mas coloca dois limites: a pessoa precisa ter capacidade para sustentar o novo cargo e mudanças excessivamente rápidas podem gerar dúvidas no recrutador.

Ele busca posições que tragam algum desconforto e aprendizado, mas evita assumir uma responsabilidade para a qual não tenha nenhuma base. Para Daniel, ficar sempre na zona de conforto atrasa a evolução; aceitar um cargo completamente fora da capacidade também cria um risco difícil de sustentar.

Custo de vida e moradia em Amsterdã

Em 2022, Daniel pagava €1.400 por um apartamento mobiliado de um quarto e 66 metros quadrados, próximo ao metrô, ao trem e a cerca de 10 ou 15 minutos de bicicleta do Vondelpark. Ele considerava a qualidade das moradias holandesas melhor do que a que havia encontrado em Dublin.

A entrada no imóvel, porém, podia exigir vários aluguéis de uma só vez entre depósito, primeiro mês e eventual serviço de uma agência. Daniel conseguiu o apartamento sem intermediação e pagou um depósito menor, mas reconheceu que encontrar moradia em áreas centrais era difícil e caro.

A bicicleta fazia parte da rotina. Daniel e a namorada usavam um serviço de assinatura, o que reduzia a preocupação com manutenção e roubo. Para ele, a estrutura urbana, a proximidade de outras cidades europeias e a quantidade de atividades faziam Amsterdã oferecer uma qualidade de vida ligeiramente superior à de Dublin naquele momento.

Como funcionava a regra dos 30% citada no episódio?

Daniel contou que utilizava um benefício destinado a determinados profissionais recrutados no exterior, pelo qual parte da remuneração podia ser paga sem tributação. Ele descreveu a regra vigente na época e disse que isso aumentava o valor líquido disponível no fim do mês.

As condições da chamada expatregeling mudaram desde a gravação. O benefício não é automático, depende de requisitos de emprego, renda, recrutamento e residência anterior, e precisa ser solicitado com o empregador. As regras atuais estão na página da Administração Tributária dos Países Baixos.

Vale a pena ser desenvolvedor na Holanda?

Para Daniel, a Holanda era o melhor lugar para sua fase de vida naquele momento. A Irlanda continuava sendo especial e ele não descartava voltar, mas Amsterdã combinava trabalho, mobilidade, vida urbana e oportunidades de crescimento.

A principal lição do episódio é que uma carreira de desenvolvedor na Holanda não depende apenas de saber programar. Daniel precisou aprender a apresentar resultados, usar o LinkedIn, negociar propostas, avaliar contratos e mudar de direção quando o trabalho não entregou o desenvolvimento que ele buscava.

Para quem está no Brasil, a orientação final é objetiva: organize o perfil, monte um plano compatível com sua realidade e comece a aplicar. A mudança pode acontecer aos 20, 40 ou 50 anos, mas fica mais provável quando o objetivo deixa de ser apenas “ir para a Europa” e se transforma em uma estratégia profissional concreta.