De hambúrgueres em casa a dois restaurantes em Galway

O que começou com oito hambúrgueres feitos em casa durante o lockdown se transformou em restaurantes brasileiros em Galway, equipe própria e prêmios no setor de hospitalidade. Laura Rosso e Lucas Necchi contam a Bolder como trocaram a engenharia pela cozinha e construíram o Chef Laura Rosso e o Pear Tree Café.

A trajetória passa pela Austrália, cidadania italiana, empregos pesados, formação em gastronomia e uma expansão feita por etapas. O ponto mais interessante não é a ideia de “sucesso da noite para o dia”, mas a maneira como o casal testou cada fase antes de assumir um risco maior.

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Da engenharia no Brasil ao intercâmbio na Austrália

Laura é engenheira de produção mecânica e Lucas, engenheiro civil. Eles se conheceram em um churrasco de Ano-Novo em Ubatuba quando ambos já tinham comprado intercâmbio para Sydney. A amiga que os apresentou percebeu a coincidência, e a amizade virou namoro depois da mudança.

Na Austrália, Laura trabalhou cerca de um ano e meio como au pair. A família tinha ligação com o Vale do Paraíba, e o pai australiano ajudou no inglês e na adaptação. Mais tarde, ela conseguiu experiência em um café em Palm Beach e começou a considerar uma formação em cozinha.

Lucas chegou sem inglês e viveu um início bem diferente. Seu primeiro trabalho envolvia sair de madrugada para limpar 21 banheiros em um parque público de Sydney. Depois, acumulou cursos e habilitações para dirigir, operar empilhadeira e trabalhar em funções melhores.

Por que eles trocaram a Austrália pela Irlanda?

A cidadania italiana mudou o plano. O casal deixou a Austrália, passou pela Itália para concluir o processo e veio à Irlanda inicialmente por seis meses. A ideia era trabalhar, recuperar o dinheiro gasto no período sem renda, passar o fim do ano no Brasil e voltar para a Austrália.

A Irlanda oferecia duas vantagens imediatas: os dois já falavam inglês e, como cidadãos europeus, podiam trabalhar e abrir uma empresa com menos barreiras migratórias. O que seria uma parada temporária virou a base da vida profissional do casal.

Como Laura virou head chef em poucos meses

Sem experiência profissional extensa na cozinha, Laura entregou currículo no McGinn’s, um pub de Galway. A propaganda do chef com uma faca quase a fez desistir, mas Lucas insistiu. Ela fez o trial, começou descascando batatas e, em aproximadamente três meses, assumiu a operação quando o head chef foi para Londres.

Ao mesmo tempo, ingressou em gastronomia por um programa Springboard. Em vez de interromper a formação após o primeiro ano, continuou até completar os anos seguintes. Ela atribui à faculdade parte importante do conhecimento técnico usado depois no desenho da cozinha, nos processos, no menu e na gestão.

A rotina era pesada: Laura fala em semanas de cerca de 60 horas e grande responsabilidade no pub. Quando a pandemia fechou o estabelecimento em março, surgiu o espaço para testar um projeto próprio.

O primeiro teste custou €80

Um mês depois do fechamento, Laura sugeriu vender hambúrgueres para amigos. O casal criou o menu Chef Laura Rosso no mesmo dia. Ela calculou um investimento inicial de €80 e concluiu que precisava vender oito hambúrgueres no primeiro fim de semana para pagar a conta.

As vendas deram certo e deixaram de acontecer apenas aos sábados e domingos. Vieram pedidos durante a semana, bolos, salgadinhos, esfihas abertas e kits de festa. Quando o pub reabriu, Laura voltou ao emprego e Lucas assumiu grande parte da produção em casa. À noite, ela chegava para montar os pedidos.

Depois de aproximadamente seis meses de demanda constante, o casal percebeu que precisava escolher entre o emprego estável de Laura e o negócio. A decisão não foi tomada no escuro: já havia histórico de pedidos e uma operação que funcionava todos os fins de semana.

Da cozinha de casa ao primeiro espaço profissional

A Atlantic Language School ofereceu uma cozinha durante o período em que a escola estava fechada. Ali, o Chef Laura Rosso passou a operar oficialmente em formato de delivery e collection. Como a cozinha ficava no segundo andar, os clientes não podiam subir; Lucas fazia entregas, e Laura descia para levar os pedidos.

Apesar das taxas, o Deliveroo teve um papel importante na descoberta da marca. O menu ainda não era o prato feito com arroz e feijão pelo qual muitos conheceriam o restaurante depois: havia hambúrgueres, salgados, bolos, esfihas e produtos para festas.

Após cerca de sete meses, o negócio ficou grande demais para o espaço. No mesmo período, surgiu a cozinha do Galway Business School, onde já havia funcionado um café. O casal apresentou a proposta, reformou a estrutura e abriu um salão independente no térreo, com mesas externas e um cardápio mais amplo.

Planejamento: o “louco consciente” de Laura e Lucas

Laura diz que não toma uma decisão sem planilha ou, pelo menos, uma folha com custos, vendas necessárias e cenários para os meses seguintes. Lucas resume a postura como “meter o louco consciente”: aceitar risco, mas não apostar todo o dinheiro em algo que nunca foi testado.

O investimento inicial pequeno foi possível porque o casal começou com o que sabia produzir, vendeu diretamente e reinvestiu. Abrir o restaurante completo veio depois da validação, não antes. A história não elimina licenças, contabilidade, seguros, segurança alimentar ou custos trabalhistas; mostra uma ordem de crescimento.

Chef Laura Rosso e Pear Tree Café: dois públicos

O segundo conceito nasceu como Pear Tree Café & Bistro em um hostel de Galway. Depois de dois anos, o contrato daquele endereço terminou, mas a marca já tinha clientes regulares. O casal decidiu manter os dois conceitos na localização do Chef Laura Rosso.

  • Pear Tree Café: café da manhã, brunch, full Irish e café especial, com público majoritariamente irlandês.
  • Chef Laura Rosso: almoço e jantar com pratos brasileiros, picanha, alcatra, linguiça, frango, arroz, feijão, farofa, vinagrete e sanduíches.

Durante parte do dia, os menus se sobrepõem. Isso permite que um cliente que chegou para o café da manhã conheça um prato brasileiro passando pela mesa ao lado. O casal estima, na gravação, que o faturamento do Chef Laura Rosso vinha aproximadamente 60% de brasileiros e 40% de irlandeses.

Comida, atendimento e ambiente

Lucas descreve três pilares de um restaurante: comida, atendimento e atmosfera. Se um deles falha, os outros dois podem não ser suficientes para trazer o cliente de volta. Laura acrescenta que a comunicação é essencial nos dias de maior movimento: avisar sobre a espera e oferecer atenção reduz a frustração.

Na contratação, os dois priorizam comportamento e compatibilidade com a equipe antes da técnica. A lógica é que café, cozinha e atendimento podem ser ensinados; alguém que destrói a dinâmica do time é mais difícil de corrigir. A operação chegou a ter 20 funcionários entre dois endereços e, no momento do episódio, trabalhava com oito pessoas.

O prêmio de Best Chef of the Year

Laura recebeu por e-mail a notícia de que era finalista de Best Chef of the Year e, a princípio, pensou que fosse golpe. O casal pesquisou a organização e descobriu que havia recebido uma visita anônima, sem ter se inscrito.

Depois da seleção inicial, houve votação de clientes e avaliação dos jurados. No jantar de gala, o Chef Laura Rosso venceu a categoria. O Pear Tree também recebeu reconhecimentos ligados a vinho e café. Para o casal, os prêmios validaram não apenas um prato, mas o conjunto de menu, serviço e conceito.

O que a história ensina sobre empreender na Irlanda?

  • Teste a demanda antes de assumir aluguel e estrutura maiores.
  • Transforme pedidos reais em números de custo, margem e capacidade.
  • Use formação e experiência profissional para criar processos melhores.
  • Contrate pessoas que fortaleçam o time e ensine a técnica.
  • Não dependa somente da comunidade brasileira; adapte experiência e comunicação para outros públicos.
  • Separe coragem de improvisação: o risco pode ser calculado.

Laura e Lucas não escondem o volume de trabalho, o estresse e as mudanças de endereço. O resultado veio da combinação entre oportunidade migratória, disposição para recomeçar, planejamento e uma operação que cresceu conforme os clientes respondiam.