Catarina Spinosa e o marido já haviam vendido bens, organizado o casamento e pago o intercâmbio quando descobriram uma gravidez. Diante da notícia, o casal considerou desistir, mas decidiu manter a mudança para a Irlanda. Catarina desembarcou em Dublin em novembro de 2019, já com a gestação avançada e sem experiência anterior de viagem de avião.
Em entrevista ao Bolder Podcast, ela relata o medo de ser impedida de entrar no país, a procura por moradia, o acompanhamento pré-natal e o nascimento da filha nos primeiros dias das restrições da Covid-19. A história não é apresentada como orientação migratória, mas como o relato pessoal de uma família que tomou uma decisão de alto risco e precisou se adaptar rapidamente.
O plano de intercâmbio mudou durante a preparação
Antes da Irlanda, o casal chegou a considerar o Canadá. A possibilidade de estudar inglês e trabalhar durante o intercâmbio pesou na escolha por Dublin. Como o primeiro orçamento de uma agência estava acima do que podiam pagar, o projeto foi adiado e os dois começaram a planejar o financiamento de uma casa no Brasil.
No dia em que fariam o financiamento, o marido de Catarina perdeu o emprego. O episódio levou o casal a retomar o plano de morar fora. Eles venderam o que tinham e pediram contribuições financeiras aos convidados do casamento para completar os recursos da viagem. Pouco antes do embarque, Catarina descobriu que estava grávida.
Medo na imigração e gravidez mantida em segredo
Catarina conta que não comunicou inicialmente a gravidez à agência nem à escola. Como sabia que estudantes de inglês não podiam simplesmente levar dependentes dentro daquela modalidade de intercâmbio, temia que a gestação provocasse problemas na entrada. Ela usou várias camadas de roupa para esconder a barriga e passou pelo controle migratório sem ser questionada sobre a gravidez.
Já na Irlanda, o casal dividiu uma casa com outros intercambistas enquanto procurava um local que aceitasse também a criança. A moradia tornou-se uma das principais dificuldades. Catarina relata passagens por acomodações compartilhadas, inclusive uma situação em que descobriu que o proprietário não sabia que novos ocupantes viviam no imóvel.
Somente depois de receber o registro migratório ela informou a gravidez. Segundo Catarina, a agência passou então a orientá-la sobre o acesso ao clínico geral e ao acompanhamento pré-natal.
Pré-natal na Irlanda e parto durante o início da pandemia
Catarina havia iniciado o pré-natal no Brasil e feito exames antes de viajar. Na Irlanda, procurou um GP, escolheu o hospital e recebeu por carta a data da primeira consulta. Como já estava em uma fase avançada da gestação, as profissionais do hospital se surpreenderam ao perceber que aquele era o primeiro atendimento dela no sistema irlandês.
A filha, Eva, nasceu em 25 de março de 2020, poucos dias depois do começo das primeiras grandes restrições da pandemia. Catarina descreve um hospital em alerta, com equipamentos de proteção e limitações de contato. Na sala de parto estavam apenas ela, o marido e a parteira.
No episódio, ela também conta como recebeu informações sobre o acompanhamento médico, o registro da criança e os benefícios disponíveis à família naquele momento. O nascimento no país não deu automaticamente cidadania irlandesa à filha. A família providenciou o registro brasileiro e, posteriormente, Catarina iniciou o reconhecimento da cidadania italiana por descendência.
Pizza congelada para pagar a renovação
Com a pandemia, as aulas passaram para o formato online e o trabalho do marido foi interrompido. Para complementar a renda e guardar o dinheiro necessário à renovação, os dois começaram a produzir pizzas congeladas brasileiras na cozinha de casa.
A rotina começava por volta das quatro da manhã. Eles preparavam as encomendas enquanto cuidavam da filha, que tinha apenas alguns meses. O marido saía para fazer entregas e Catarina permanecia com a bebê. Segundo o relato, chegaram a produzir cerca de 200 pizzas por dia e mantiveram a atividade por aproximadamente seis meses.
O negócio foi interrompido quando começou a introdução alimentar da criança e o marido conseguiu outro emprego. Mais tarde, Catarina passou a trabalhar meio período. Os horários dos dois precisavam se encaixar para que sempre houvesse alguém cuidando de Eva, já que a família ainda não tinha uma rede de apoio consolidada na Irlanda.
Cidadania italiana e uma nova fase
Durante a permanência na Irlanda, Catarina descobriu que poderia solicitar cidadania italiana por descendência, mesmo sem carregar um sobrenome italiano. Ela e a filha passaram cerca de quatro meses na Itália para realizar o processo. Depois do reconhecimento, o marido pôde encaminhar uma nova situação migratória como familiar de cidadã europeia.
Na entrevista, Catarina afirma que a principal vantagem de criar a filha na Irlanda era a sensação de segurança e a possibilidade de construir um futuro. A maior dificuldade era a ausência da família. Por causa da pandemia e das limitações daquele período, Eva só conheceu os avós no Brasil anos depois.
A experiência mostra uma versão distante da imagem romantizada do intercâmbio. Houve medo, instabilidade habitacional, trabalho intenso e decisões tomadas sem garantia de resultado. Ao mesmo tempo, o casal encontrou formas de permanecer unido, gerar renda e reorganizar os planos depois do nascimento da filha.
O episódio registra a experiência pessoal da entrevistada no período relatado. Regras de imigração, saúde, benefícios e cidadania podem mudar e devem ser confirmadas em fontes oficiais antes de qualquer decisão.
Assista ao episódio completo no vídeo acima.
