Enfrentar um câncer na Irlanda, longe da família e com um visto temporário, mudou completamente o intercâmbio de Nathalie Monteiro. No Bolder Podcast, ela conta como pequenos nódulos no pescoço levaram ao diagnóstico de linfoma de Hodgkin em estágio 2, seguido por 12 sessões de quimioterapia.
A entrevista também mostra tudo o que acontece ao redor do tratamento: a interrupção do trabalho, a preocupação com aluguel e imigração, a busca pelo Medical Card e a mobilização da comunidade brasileira. Este é um relato pessoal gravado em fevereiro de 2024. Sintomas, diagnóstico e tratamento devem sempre ser avaliados por profissionais de saúde.
Quem é Nathalie Monteiro?
Nathalie nasceu em Caucaia, no Ceará, e mudou-se para São Paulo aos dois anos. Começou a trabalhar com Recursos Humanos aos 16 e construiu uma carreira de aproximadamente 16 anos como generalista, passando por folha de pagamento, recrutamento e outras áreas.
Embora tivesse estabilidade profissional, percebia que o inglês limitava suas possibilidades. Fez cursos no Brasil, mas não conseguia destravar o idioma. Uma amiga sugeriu estudar fora e, depois de cerca de dois anos pesquisando, Nathalie escolheu a Irlanda porque poderia estudar e trabalhar.
A viagem inicialmente prevista para 2020 precisou ser adiada durante a pandemia. Quando finalmente chegou, trouxe uma visão realista: sabia que dividiria acomodação, trabalharia fora de sua área e enfrentaria dificuldades com idioma e documentação.
Trabalho, escola e uma rotina de até 60 horas
O primeiro emprego veio em uma empresa de catering. Como a quantidade de eventos variava, Nathalie combinava turnos em outras empresas com trabalhos de limpeza para atingir pelo menos 40 horas semanais.
Nos sete meses anteriores ao diagnóstico, afirma ter trabalhado frequentemente entre 50 e 60 horas por semana. Mesmo assim, preservava a escola como prioridade porque o objetivo do intercâmbio era aprender inglês e a frequência também era importante para a renovação migratória.
O plano original era passar dois anos na Irlanda, estudar espanhol durante seis meses na Espanha e voltar ao Brasil com os dois idiomas. O câncer impôs uma parada que ela não havia considerado.
Quais foram os primeiros sintomas?
No fim de março ou início de abril, Nathalie sentiu pequenas “bolinhas” perto da clavícula enquanto passava creme no pescoço. Imaginou que fossem gânglios ligados a uma inflamação no ombro, que doía desde uma mudança de apartamento.
Também acordava à noite com suor intenso, a ponto de precisar trocar a roupa e se secar. Como o quarto era quente e outras moradoras diziam que também suavam, ela não relacionou imediatamente esse sinal a um problema de saúde.
Antes de uma viagem a Malta, os nódulos continuavam presentes. No último dia da viagem, a dor piorou; ao voltar à Irlanda, seu pescoço ficou visivelmente inchado. A partir daí, começou a sequência de consultas, ultrassom, tomografia, raio X e biópsia.
Gânglios aumentados e suor noturno podem ter diferentes causas. A experiência de Nathalie não serve para autodiagnóstico: quem percebe uma alteração persistente ou progressiva deve procurar avaliação médica.


O diagnóstico de linfoma de Hodgkin
No Mater Hospital, Nathalie ouviu pela primeira vez a suspeita de linfoma. Ela conta que nem sabia exatamente o que a palavra significava. A confirmação exigiu biópsia e outros exames para identificar o tipo e a extensão da doença.
O diagnóstico foi linfoma de Hodgkin em estágio 2. Mesmo depois da confirmação, houve espera até o começo da quimioterapia, período em que a ansiedade aumentou porque ela queria iniciar o tratamento o quanto antes.
Como foram as 12 sessões de quimioterapia?
O protocolo apresentado a Nathalie foi o ABVD, aplicado em 12 sessões com intervalo de 15 dias. Ela descreve a primeira como traumática. Chegou pela manhã e saiu apenas à noite porque a equipe precisava fazer avaliações, explicar o processo e acompanhar sua reação.
Ao levantar depois da aplicação, sentiu-se muito mal, teve alterações de pressão e batimentos e foi atendida por vários enfermeiros. A partir da terceira sessão, percebeu cansaço intenso e falta de ar até em atividades simples.
Esses efeitos correspondem à experiência dela. Protocolos e reações variam conforme o tipo de câncer, condição clínica e tratamento definido pela equipe médica.
A decisão de raspar o cabelo
Nathalie tinha o cabelo abaixo da cintura. Depois de ser avisada de que ele cairia, primeiro fez um corte mais curto. A queda começou rapidamente e, por volta da terceira quimioterapia, tornou-se difícil lidar com fios pela cama e pela casa.
Ela decidiu raspar com a ajuda das amigas. O grupo transformou o momento em uma despedida leve, criando penteados e fazendo brincadeiras antes do corte final. Seu namorado, Nando, também raspou a cabeça sem avisar para acompanhá-la.
Como a comunidade ajudou durante o tratamento
A impossibilidade de manter o mesmo ritmo de trabalho criou outro problema. Nathalie calculava despesas próximas de € 1 mil mensais e teria cerca de seis meses de tratamento pela frente.
No dia em que raspou o cabelo, abriu uma vaquinha por insistência das amigas. A meta foi alcançada em quatro dias. Ela atribui esse resultado ao apoio da comunidade brasileira, que ajudou a reduzir a preocupação com aluguel e gastos cotidianos enquanto sua energia estava concentrada na quimioterapia.
O grupo Amor Simples de Doar também aparece no episódio. Nathalie fala sobre pessoas que conheceu por meio da rede e sobre a importância de verificar campanhas antes de compartilhar ou doar.
Medical Card e custos do câncer na Irlanda
Ao ser encaminhada para uma assistente social, Nathalie procurou entender como pagaria pelo tratamento e pelos medicamentos. A profissional inicialmente alertou que a aprovação do Medical Card não era certa, mas apresentou a solicitação e conseguiu o benefício para ela.
Na experiência narrada, o cartão reduziu custos de medicamentos e deu acesso ao tratamento público e a outros serviços. Isso não significa que todo estudante ou adulto com câncer receba automaticamente um Medical Card.
Atualmente, a orientação oficial da HSE sobre apoio financeiro para câncer informa que adultos normalmente passam por análise de renda e despesas. Um relatório médico pode ser considerado quando os custos causam dificuldade financeira, inclusive na avaliação de um cartão discricionário. A equipe de tratamento pode encaminhar o paciente a um medical social worker.
O tratamento também afetou o visto
O visto de estudante de Nathalie venceria enquanto ela ainda estava em tratamento. Renovar apenas para manter a situação migratória exigiria pagar por outro curso, embora ela não tivesse condições de frequentá-lo normalmente.
Por indicação da assistente social, procurou apoio jurídico da Crosscare. Com ajuda profissional, reuniu documentos e enviou um pedido antes do vencimento da permissão, explicando o diagnóstico e a continuidade do tratamento.
Esse foi o caminho seguido no caso dela naquela época, não um procedimento universal. Pessoas em situação semelhante devem procurar orientação migratória qualificada e agir antes de a permissão expirar.
Remissão não é o mesmo que encerrar o acompanhamento
Na data da gravação, Nathalie havia terminado a última quimioterapia em 24 de janeiro e aguardava novos exames e a avaliação médica. Ela explica que completar as sessões não significava receber alta imediata: continuaria em acompanhamento periódico e ainda lidava com a ansiedade sobre o resultado.
A história é marcada por planejamento, mas também pela descoberta de que nem tudo pode ser controlado. Nathalie reconhece o papel do namorado, das amigas, da família, da equipe hospitalar e de pessoas que contribuíram financeiramente.
Onde buscar apoio para câncer na Irlanda?
A HSE reúne serviços de apoio, incluindo enfermeiro especialista, assistência social hospitalar, aconselhamento, centros comunitários e organizações parceiras. A Irish Cancer Society mantém uma linha gratuita e confidencial com enfermeiros especializados pelo número 1800 200 700.
Assista à entrevista completa para acompanhar a trajetória de Nathalie desde a decisão de estudar inglês até o diagnóstico, o tratamento e a rede que se formou ao seu redor.
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