Empreender na Irlanda não começou, para Lígia Cecchini, com uma loja pronta ou um grande investimento. A trajetória dela passou por uma mudança de país com apenas €500, um trabalho como au pair, um acidente que exigiu três cirurgias e a chegada dos filhos. Foi dentro de casa, produzindo brigadeiros e depois bolos personalizados, que ela construiu espaço como cake designer no interior irlandês.
No Bolder Podcast 408, Lígia conta a Bolder como transformou uma habilidade em negócio, conquistou uma clientela formada principalmente por irlandeses e muçulmanos e chegou a preparar uma mesa de doces brasileiros para o presidente da Irlanda. A conversa também mostra a rotina menos visível de quem empreende: organização, regras sanitárias, entregas tensas, erros, maternidade e a dificuldade de delegar.
Da publicidade no Brasil ao plano de aprender inglês
Lígia nasceu em São Paulo e cresceu em Araçoiaba da Serra. Antes de sair do Brasil, trabalhava como designer gráfica. Por volta dos 23 ou 24 anos, começou a sentir que precisava aprender inglês e buscar reconhecimento profissional fora do país.
O projeto de morar no exterior apareceu primeiro numa dinâmica familiar chamada por eles de “Noite do Sonho”. Cada pessoa recortava de revistas imagens que representavam seus objetivos e montava um quadro para deixar no quarto. No de Lígia estava a vontade de aprender inglês em outro país.
A cidadania italiana, obtida por meio do pai, abriu a possibilidade de viver legalmente na Europa. Cerca de dez anos antes da entrevista, ela desembarcou na Irlanda. Depois de pagar a escola e garantir duas semanas de acomodação em Dublin, sobraram aproximadamente €500 para começar a vida.
O inglês melhorou quando Lígia saiu da bolha brasileira
Na escola em Dublin, Lígia percebeu que continuava cercada de brasileiros. Isso tornava a adaptação mais confortável, mas não entregava a imersão no inglês que ela buscava. A alternativa foi procurar trabalho como au pair e viver com uma família local.
A primeira oportunidade parecia certa: uma família turca confirmou a vaga, mas depois escolheu outra candidata que tinha treinamento de primeiros socorros. Pouco depois, Lígia conversou por vídeo com uma família irlandesa do condado de Kerry e conseguiu o trabalho. Ela fez a mudança de trem, e o futuro marido ajudou a levar as malas.
Na casa, cuidava de duas crianças, Caoimhe, de 4 anos, e Conor, de 8. A mãe era professora e também ensinava música. Além de corrigir o inglês de Lígia, ensinou-a a tocar flauta. A convivência com uma família irlandesa tradicional durante aproximadamente dois anos acelerou o aprendizado do idioma e deu a ela uma visão da Irlanda que dificilmente teria apenas na escola.
Um acidente mudou o caminho profissional
Depois da experiência como au pair, Lígia mudou-se para uma residência estudantil com uma amiga brasileira. Ela se candidatou a uma vaga na rede de frango frito Hillbilly’s e chegou duas horas antes para a entrevista. Na época, passou por um período de experiência sem remuneração — uma prática que ela e Bolder ressaltam que não deve ser tratada como normal atualmente.
No último dia do teste, conseguiu a vaga. Pouco depois, enquanto limpava refrigerante derramado no chão, escorregou sem estar usando o calçado de segurança adequado. A fratura na perna foi grave: foram três cirurgias e entre seis e oito meses de recuperação.
Lígia relata que a empresa pagou o salário, ajudou com os medicamentos e deu suporte durante o período. Quando voltou, recebeu a proposta de assumir uma função de gerência apenas dois meses depois. A carreira ali, porém, foi interrompida por outra mudança importante: ela descobriu que estava grávida de gêmeos, numa gestação de risco, e não retornou ao trabalho.
Como Lígia começou a empreender na Irlanda
A primeira tentativa de vender doces havia surgido ainda na residência estudantil. Ela preparou brigadeiros e beijinhos para oferecer a estudantes poloneses, mas as vendas foram pequenas. Depois do nascimento dos gêmeos, voltou à ideia com mais preparo: fez um curso de brigadeiro e começou a produzir em casa.
Um dos primeiros movimentos foi abordar o Daybreak da região levando bandejas de doces. Aos poucos, os brigadeiros abriram caminho para os bolos. Lígia decidiu preservar o estilo brasileiro: massa úmida, recheio generoso e um equilíbrio de sabores que evitasse o excesso de açúcar.
Segundo ela, cerca de 95% dos clientes não são brasileiros. A clientela inclui muitos irlandeses, indianos e muçulmanos. Para atender públicos diferentes, ela adapta ingredientes e processos — por exemplo, evitando gelatina de origem suína em pedidos de clientes muçulmanos — sem desmontar toda a organização da produção a cada encomenda.
O sabor brasileiro encontrou espaço entre clientes locais
O paladar também exige conversa. Clientes indianos costumam pedir menos açúcar e demonstram interesse por sabores como coco, canela e cravo. Já alguns irlandeses preferem combinações conhecidas, como creme de baunilha com geleia, e precisam provar uma amostra antes de escolher algo novo.
Essa escuta virou parte do negócio. Lígia faz acompanhamento depois das entregas e pede avaliações. Nem toda crítica leva a uma mudança de receita, porque preferências pessoais variam, mas os comentários ajudam a identificar padrões e ajustar os produtos.
É possível vender bolos feitos em casa na Irlanda?
Sim, desde que o negócio esteja regularizado e o espaço seja adequado à atividade. No episódio, Lígia explica que entrou em contato com o HSE, realizou treinamento de segurança alimentar e recebeu uma inspeção. O fiscal avaliou procedimentos, armazenamento, geladeira, pia e o uso de ingredientes mais sensíveis, como frutas e creme.
A regra não desaparece porque a produção acontece numa cozinha doméstica. A Food Safety Authority of Ireland informa que o negócio precisa ser registrado antes de começar a operar, inclusive quando funciona em casa. O órgão responsável depende do tipo de alimento e da atividade; por isso, quem pretende seguir esse caminho deve confirmar as exigências atuais diretamente com as autoridades.
Lígia lembra ainda que existem cozinhas industriais disponíveis para locação. Essa pode ser uma saída para quem não tem uma estrutura doméstica compatível com as normas ou precisa produzir em maior escala.
Maternidade, produção e limites com os clientes
Hoje, Lígia concilia o negócio com a rotina de três filhos. Em dias de produção, acorda por volta das 4h30 para trabalhar antes de as crianças levantarem. Depois vêm lancheiras, escola e os horários diferentes de busca, às 13h45 e às 14h45.
Para não interromper a confeitaria a cada notificação, ela concentra as respostas aos clientes no início da manhã e no fim do dia. Também precisou estabelecer horário de atendimento. Trabalhar em casa não significa estar disponível o tempo inteiro, embora alguns clientes ainda façam essa associação.
No começo, Lígia chegou a dormir apenas duas ou três horas e colocava as próprias necessidades por último. Com o tempo, entendeu que o negócio só seria sustentável se houvesse algum equilíbrio. A experiência confirmou uma frase do pai, também empreendedor: quando outra pessoa segura a batata, ela parece menos quente; quando está na sua mão, queima.
Bolos de casamento, pedidos incomuns e erros reais
O trabalho de cake designer vai muito além de decorar. O bolo precisa ter sabor, aparência e estrutura para sobreviver ao transporte. Lígia já levou um bolo de três andares até Cork e faz entregas de casamento em diferentes regiões da Irlanda. As peças viajam montadas, com suportes internos, no porta-malas ou no espaço dos pés do carro.
Ela também recebe pedidos fora do padrão: bolos eróticos para despedidas de solteira, temas que misturam personagens, música, frutas e chocolate, além de uma encomenda infantil que precisava incluir um aspirador Dyson. Parte do trabalho é orientar o cliente e reduzir elementos quando a decoração ficaria visualmente confusa.
Nem tudo sai como planejado. Em uma ocasião, Lígia anotou a encomenda no mês errado e só percebeu quando a cliente avisou que buscaria o bolo em duas horas. Não havia tempo de produzir, e ela assumiu o erro. Em outro caso, recebeu à noite a mensagem “está tudo certo para amanhã?” e descobriu que o pedido não estava na lista. Dessa vez, voltou à cozinha e fez o bolo durante a madrugada.
O bolo brasileiro servido ao presidente da Irlanda
Um dos reconhecimentos mais marcantes veio quando Lígia foi chamada para preparar a recepção de Michael D. Higgins, presidente da Irlanda, numa visita à escola St Flannan’s, onde ele havia estudado.
Em vez de imitar uma mesa irlandesa, ela decidiu apresentar sabores brasileiros em pequenas porções: bolo de cenoura, bolo de laranja e toalha felpuda. Para criar uma conexão pessoal, incluiu imagens dos cães do presidente na decoração — sem saber que um deles já havia morrido.
A estratégia chamou a atenção de Higgins assim que ele chegou à mesa. Entre os doces, o favorito foi o bolo toalha felpuda, feito com coco. Depois disso, Lígia passou a apresentá-lo nos mercados locais como o “bolo do presidente”, uma história simples que ajuda clientes irlandeses a experimentar algo desconhecido.
O próximo desafio é crescer sem perder a qualidade
Lígia ainda cuida de quase todas as etapas: mensagens, estoque, compras, orçamento, contabilidade, produção, decoração e entrega. Para crescer, sabe que precisará delegar. O problema é confiar que outra pessoa repetirá o processo e manterá o padrão associado ao nome dela.
A solução que começa a desenhar é transformar tarefas em processos simples, com poucos passos claros. O objetivo é descentralizar a produção aos poucos, ampliar a atuação em casamentos e desenvolver produtos que possam ganhar escala.
Os cookies apresentados durante o episódio fazem parte desse plano. Além das encomendas, Lígia participa de mercados locais e estuda a possibilidade de vender produtos em supermercados ou pela internet. Ela não descarta um espaço físico com clima acolhedor, mas entende que um café tradicional traria custos e obrigações muito diferentes.
Ensinar também entrou no negócio
Além da confeitaria, Lígia dá aulas presenciais em Ennis. Ela também pratica jiu-jítsu, auxilia nas aulas para crianças e atua como coach de futebol. O ponto em comum é o prazer de ensinar e a responsabilidade de entregar algo útil a quem separou tempo para aprender.
Ela considera criar aulas on-line ou um e-book no futuro, mas prefere avançar por etapas. Essa cautela resume bem a conversa: empreender na Irlanda trouxe oportunidades reais, porém cada nova frente exige estrutura financeira, conhecimento das regras e disposição para resolver o problema do dia.
O que a trajetória de Lígia ensina sobre empreendedorismo
A história de Lígia Cecchini não segue uma linha reta. O inglês veio com a convivência diária, a carreira mudou depois de um acidente, a maternidade levou à confeitaria e os doces brasileiros encontraram público muito além da comunidade brasileira.
O crescimento foi construído com testes, feedback, regularização e rotina. Ao mesmo tempo, o episódio não romantiza o empreendedorismo: há madrugadas de trabalho, entregas delicadas, erros que precisam ser assumidos e o desafio permanente de separar casa, família e empresa.
Assista ao Bolder Podcast 408 para conhecer a conversa completa com Lígia Cecchini, incluindo os bastidores dos bolos de casamento, a reação do presidente Michael D. Higgins e os planos da Candy Made Sweetness.
Continue acompanhando o Bolder
Histórias reais de brasileiros pelo mundo: imigração, intercâmbio, carreira e vida fora do Brasil.
💥 Recursos para você
Alguns links são de parceiros e podem apoiar o Bolder sem custo adicional para você.
🤝 Parceiros
Conheça as empresas que apoiam o Bolder Podcast.
📱 Mais Bolder
#irlanda #intercambio #imigracao
