Imigrar depois dos 50: de diretor no Brasil a delivery na Irlanda | Erone Lessa

Imigrar depois dos 50 significou para Erone Lessa abandonar uma posição de direção construída ao longo de décadas e escolher uma rotina completamente diferente em Dublin. Aos 52 anos, ele deixou São Paulo e chegou à Irlanda como estudante. Anos depois, passou a se definir profissionalmente como entregador, valorizando a autonomia que encontrou nas ruas.

No Bolder Podcast, Erone fala sem filtros sobre trabalho, dinheiro, moradia compartilhada, adaptação e idade. Também relata dois ataques graves sofridos enquanto fazia delivery durante a pandemia. A entrevista é um retrato muito particular — e por vezes provocador — de alguém que não veio reconstruir uma carreira corporativa, mas reorganizar o tempo que queria viver.

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Quem era Erone antes de morar na Irlanda?

Natural de São Paulo, Erone trabalhou desde os anos 1980 no setor de confecção e moda. Teve uma empresa com três lojas no ABC Paulista e, mais tarde, foi contratado como supervisor e diretor comercial de uma rede com unidades em diferentes regiões da capital.

Ele permaneceu 19 anos nessa companhia. Sua função envolvia administração, equipes, clientes, gerentes, reformas de lojas e até tarefas ligadas à comunicação digital. Era, nas palavras dele, a pessoa paga para resolver problemas antes que chegassem ao proprietário.

No fim de 2018, em meio a uma mudança profissional e à tensão política que percebia no Brasil, decidiu passar um período fora. A ideia inicial era estudar em Sydney, mas o processo demoraria mais do que ele desejava. Uma consultora apresentou a Irlanda como uma alternativa imediata e lançou um desafio: por que não enfrentar o inverno europeu justamente aos 52 anos?

Por que ele escolheu a Irlanda?

Erone chegou com a intenção de estudar, usar o país como base para viajar e se afastar temporariamente da rotina brasileira. O frio, que inicialmente parecia uma barreira, acabou sendo secundário. Ele afirma que roupas adequadas resolvem boa parte da adaptação e que o desafio maior é aceitar os limites de tempo, dinheiro e lazer de quem começa como estudante.

A experiência também mudou a relação dele com o Brasil. De longe, passou a valorizar aspectos culturais que antes pareciam comuns. Ao mesmo tempo, criou uma ligação forte com a Irlanda e com os irlandeses, especialmente pela educação e pela preocupação que encontrou em muitas interações durante as entregas.

Morar com outras pessoas depois dos 50

A moradia compartilhada foi uma das maiores mudanças. Erone conta que dividiu casa com pessoas muito mais novas e encontrou hábitos incompatíveis com os seus, principalmente em limpeza e organização. A experiência mostra que o desafio não depende apenas da quantidade de moradores: diferença de rotina, valores e fase de vida também pesa.

Para quem pensa em fazer intercâmbio depois dos 50, esse é um ponto que merece planejamento. Economizar no aluguel pode significar abrir mão de privacidade e previsibilidade, justamente quando a pessoa já viveu muitos anos com autonomia doméstica.

De diretor de empresa a entregador em Dublin

Erone teve oportunidade de assumir uma função de liderança em uma empresa de limpeza pouco depois de chegar. Recusou porque não queria voltar a administrar equipes nem ocupar o lugar de uma brasileira que já trabalhava ali. O que ele buscava naquele momento era independência.

O delivery ofereceu exatamente isso: escolher horários, organizar folgas e viajar sem negociar férias com um chefe. Na data da entrevista, Erone dizia trabalhar havia cerca de cinco anos com entregas e estimava ter completado mais de 25 mil pedidos somente em Dublin.

Ele faz questão de diferenciar sua escolha da situação de quem aceita delivery apenas como trabalho temporário. Erone afirma ter adotado a atividade como profissão e adaptado rotina, bicicleta, equipamentos e estratégia para obter uma renda que considera satisfatória.

Vale a pena trabalhar de delivery na Irlanda?

A resposta do episódio depende do objetivo. Para Erone, vale porque ele já construiu patrimônio no Brasil e não pretende usar essa etapa para financiar casa, família ou uma nova carreira. A liberdade pesa mais do que progressão profissional.

Ele não recomenda o mesmo caminho a jovens que querem se estabelecer definitivamente. Nesse caso, aconselha usar o período inicial para estudar, regularizar a situação migratória e migrar para uma atividade com perspectiva de longo prazo. O delivery pode gerar renda, mas não substitui um projeto de vida.

Os riscos reais do trabalho nas ruas

A parte mais dura da conversa são os dois ataques sofridos durante a pandemia, período em que havia pouca circulação e entregadores continuavam nas ruas. Erone deixa claro que o delivery é um trabalho exposto, mas também contextualiza que os episódios mais graves aconteceram naquele ambiente excepcional.

O ataque em Rialto

No primeiro caso, em Rialto, um grupo de adolescentes usou um cabo de aço para derrubá-lo da bicicleta. Enquanto dois seguravam suas pernas, ele foi chutado e arrastado. Um motorista de entregas percebeu a agressão, parou a van e avançou para ajudá-lo, fazendo os atacantes fugirem.

Erone ficou com hematomas, lesões nos joelhos e dor no braço. Só no dia seguinte procurou atendimento e fez exames. Ele admite que não registrou a ocorrência imediatamente, decisão que depois foi questionada por um policial conhecido, pois câmeras poderiam ter ajudado a identificar os responsáveis.

O carro que o empurrou perto do porto

No segundo episódio, um veículo que estava parado com os faróis acesos começou a segui-lo depois de uma entrega na região do porto. O motorista usou o carro para empurrar a bicicleta. A roda entrou nos trilhos, a perna de Erone ficou presa e torcida, e o veículo só desviou antes de passar por cima dele.

Ele conseguiu se levantar e voltar para casa usando o acelerador da bicicleta elétrica, com uma das pernas esticada. Não procurou o hospital dessa vez e passou meses com dificuldade até para se agachar. No episódio, diz que algumas dores ainda permaneciam.

Apesar disso, Erone continuou no delivery. Ele compara sua ligação com a bicicleta à de motociclistas que voltam a pilotar depois de acidentes. É uma decisão pessoal do convidado, não uma indicação de que o risco deva ser ignorado.

Imigrar mais velho muda a relação com o trabalho?

Ao chegar aos 50, Erone fez uma conta simples: ainda poderia ter 25 ou 30 anos de vida ativa, mas não queria usar 15 deles reconstruindo outra empresa para só depois aproveitar o resultado. Preferiu priorizar viagens, flexibilidade e experiências enquanto se sentia fisicamente disposto.

Ele também percebe uma diferença no tratamento profissional de pessoas mais velhas. Na avaliação dele, a experiência acumulada é mais valorizada em muitos ambientes europeus do que no mercado brasileiro, onde alguém acima de 50 anos pode ser considerado cedo demais para se aposentar e tarde demais para ser contratado.

Isso não elimina as dificuldades. Recomeçar nessa idade exige lidar com moradia compartilhada, idioma, trabalho físico e perda de status. A vantagem é chegar com uma noção mais clara do que se quer — ou, pelo menos, do que não se quer repetir.

O que avaliar antes de imigrar depois dos 50

  • Objetivo: estudar, viajar, ganhar dinheiro, mudar de carreira ou permanecer no país são projetos diferentes.
  • Reserva financeira: renda pode variar, e moradia, transporte, alimentação e saúde exigem margem para imprevistos.
  • Condição física: delivery e outros trabalhos operacionais expõem o corpo ao frio, chuva, quedas e esforço repetitivo.
  • Moradia: dividir uma casa depois de décadas de independência pode ser mais difícil do que parece.
  • Situação migratória: regras de estudo e trabalho devem fazer parte do plano desde o início, sem depender de improviso.
  • Prazo: decidir por quanto tempo permanecer ajuda a orientar gastos, estudos e escolhas profissionais.

Uma imigração fora do roteiro tradicional

Erone não mede sua experiência pelo cargo que tinha no Brasil nem tenta recuperar o mesmo título na Irlanda. Para ele, sucesso passou a significar autonomia, viagens, capacidade de se sustentar e liberdade para definir o próximo destino.

Essa escolha não serve como modelo universal, e o próprio episódio mostra por quê. Há riscos, renúncias e opiniões muito pessoais. O valor da conversa está justamente em apresentar uma imigração depois dos 50 que não busca reproduzir a vida anterior. Assista ao vídeo completo para conhecer os detalhes da trajetória, os relatos de delivery e a visão de Erone sobre idade, trabalho e adaptação.