Professor de inglês na Irlanda: a trajetória de Wes Frazão

Wes Frazão começou a dar aulas aos 19 anos, construiu uma carreira no Brasil e depois se tornou professor de inglês na Irlanda. No Bolder Podcast 174, ele explica o que muda quando o professor brasileiro entra numa sala multicultural, por que o medo costuma travar mais do que a gramática e como o inglês pode ampliar as oportunidades de quem vive no exterior.

A conversa também percorre a trajetória de Wes: o contato com o idioma ainda na infância, os dois anos como missionário, a experiência vendendo geladinho depois de deixar uma sociedade e a chegada a Dublin. Entre histórias pessoais e exemplos de sala de aula, ele oferece dicas práticas para quem quer aprender inglês sem depender de traduções para tudo.

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Como Wes Frazão começou a aprender inglês?

O inglês apareceu cedo na vida de Wes. Como seus pais eram muito jovens, a trilha sonora de casa tinha música internacional, programas de rádio e filmes legendados. Seu pai também lhe deu um pequeno livro em inglês quando ele tinha cerca de seis anos. Wes começou associando palavras simples às coisas ao redor, antes mesmo de frequentar uma escola de idiomas.

A primeira experiência formal, aos 12 anos, não foi boa. Segundo Wes, o professor exigia uma pronúncia britânica e lhe deu uma nota baixa numa avaliação oral porque sua fala tinha influência americana. O episódio gerou insegurança, mas não encerrou sua relação com o idioma. Sem outra escola paga, ele continuou estudando por conta própria.

Essa história ajuda a separar duas coisas que muitas vezes são confundidas: ter sotaque e pronunciar uma palavra de modo que dificulte a compreensão. Todo falante tem sotaque — inclusive britânicos, americanos e irlandeses. O objetivo não precisa ser apagar a origem brasileira, e sim falar com clareza suficiente para que a comunicação funcione.

O que realmente ajudou Wes a destravar a fala?

Uma das práticas mais simples foi falar sozinho. Wes recomenda transformar pensamentos cotidianos em pequenas frases em inglês: comentar que perdeu o ônibus, repassar o dia antes de dormir ou descrever o que está fazendo. Isso cria oportunidades de produção mesmo quando não há outra pessoa disponível para conversar.

O salto maior aconteceu durante os dois anos em que serviu como missionário no Rio Grande do Sul. Dos 15 companheiros que teve, nove eram americanos. Em casa, o acordo era falar apenas inglês; na rua, eles usavam português. A convivência diária mostrou a Wes que seus erros e seu sotaque não impediam a comunicação.

Os colegas o elogiavam e não o ridicularizavam quando alguma frase saía imperfeita. Esse ambiente reduziu o filtro emocional que o fazia pensar demais antes de abrir a boca. Para Wes, muita gente sabe mais do que imagina, mas precisa acumular pequenas experiências reais para acreditar na própria capacidade.

Pequenas vitórias contra o medo de falar

Wes conta o caso de uma aluna que morava na Bélgica e travava diante de qualquer conversa. A primeira tarefa foi apenas perguntar as horas a alguém na rua. O objetivo não era praticar uma estrutura complexa, mas provar que ela conseguia falar, ser entendida e receber uma resposta.

A proposta revela um ponto central de seu método: confiança não nasce apenas de estudar mais regras. Ela cresce quando o aluno age, percebe que sobreviveu ao erro e passa para um desafio um pouco maior. Repetir “não sei falar inglês” reforça a barreira; testar o que já sabe produz evidência do contrário.

De missionário a professor de inglês

A carreira começou quase por acaso. Durante a missão, um grupo de americanos decidiu oferecer um curso gratuito de inglês para a comunidade. Wes preparava materiais e, quando os colegas tinham dificuldade para explicar algum ponto aos brasileiros, entrava na conversa. Com o tempo, o grupo percebeu que ele conseguia ensinar e lhe entregou a turma.

Na primeira aula aos 19 anos, Wes viu os alunos praticando e decidiu que queria seguir aquela profissão. Abandonou o curso de Direito, voltou a João Pessoa e distribuiu currículos. Numa escola de um amigo, foi contratado inicialmente como recepcionista porque o dono ainda não confiava em seu inglês.

Quando surgiu um problema com outro professor, Wes se ofereceu para assumir a turma sem receber a mais por isso. Os alunos evoluíram, o trabalho ganhou reconhecimento e ele foi promovido a coordenador pedagógico, responsável por revisar materiais e treinar professores. Mais tarde, tornou-se sócio da escola.

Uma ideia aprendida na missão continuou orientando suas aulas: é preciso ensinar pessoas, não apenas lições. Se a expressão do aluno mostra que ele não entendeu, repetir a mesma explicação não resolve. O professor deve mudar a abordagem, usar outro exemplo ou até desenhar, até que o conteúdo faça sentido.

Os R$ 50, o geladinho e a ligação de Gabriel Diniz

A sociedade não durou. Ao sair da escola, vários alunos disseram que continuariam estudando com Wes, mas nenhum apareceu no primeiro mês. Com contas para pagar e apenas R$ 50 no bolso, ele comprou ingredientes e passou a vender geladinho na praia.

A virada começou com a ligação de um ex-aluno: o cantor Gabriel Diniz, conhecido por “Jenifer”. Wes precisou pedir dinheiro emprestado para chegar à aula de carro por aplicativo. Gabriel divulgou o trabalho, novos alunos apareceram e as turmas voltaram a crescer.

O relato evita a impressão de que a carreira seguiu uma linha reta. Antes de ensinar na Irlanda, Wes passou por insegurança, trabalho voluntário, recepção de escola, sociedade, dificuldade financeira e reconstrução da base de alunos.

Como é ser professor de inglês na Irlanda?

Em 2018, depois do fim de um noivado, Wes visitou a irmã na Itália e aproveitou para testar seu inglês em Londres. Também conheceu Dublin e se encantou com a cidade, embora tenha pensado que nunca moraria ali por causa do preço da acomodação. Anos depois, estava justamente na Irlanda.

Dar aula no país exige trabalhar inteiramente em inglês. No Brasil, um professor pode recorrer rapidamente ao português quando a explicação não funciona. Em Dublin, Wes ensina estudantes chineses, turcos, franceses, mongóis e de várias outras nacionalidades; não existe uma língua comum de apoio.

Ele também enfrentou a expectativa de quem acredita que só um nativo pode ensinar bem. Alguns alunos se decepcionavam ao descobrir que o professor era brasileiro. Depois da primeira aula, a percepção geralmente mudava. Outros já o procuravam no corredor porque haviam ouvido falar do “professor brasileiro”.

Para Wes, a nacionalidade não substitui formação e método. Ele fez uma certificação para ensino de inglês como segunda língua e estuda pronúncia, articulação e aquisição de idiomas. Ao mesmo tempo, a experiência de ter aprendido inglês ajuda a antecipar dúvidas que um falante nativo talvez nunca tenha precisado formular.

Por que o inglês abre portas na Irlanda?

Um exemplo marcante veio de um aluno da Mongólia. No início, ele quase não falava e confundia alguns sons. Depois de trabalhar a consciência fonológica e ganhar vocabulário, deixou a função de kitchen porter, passou a auxiliar o chef e começou a atender no caixa.

O inglês não garante sozinho um emprego melhor, mas permite conversar com gestores, explicar um problema, pedir uma oportunidade e assumir funções com atendimento ao público. Wes afirma que é possível sobreviver em Dublin dentro de uma comunidade que fala português, porém crescer profissionalmente fica muito mais difícil sem o idioma local.

Aprender também é uma forma de respeito pelo país em que se escolheu viver. Para o imigrante, a língua aumenta a autonomia: em vez de depender de outra pessoa para resolver cada questão, ele consegue defender seus interesses e participar com mais segurança da vida cotidiana.

Por que o brasileiro sabe palavras, mas não forma frases?

A queixa mais frequente dos alunos é conhecer muitas palavras e não conseguir montar uma frase. Wes explica que o cérebro tenta encaixar o inglês na estrutura do português. Às vezes funciona; em outras, a tradução literal produz uma construção que não existe.

Por isso, ele diferencia tradução de adaptação. Em inglês, a idade é expressa com o verbo to be, não com o equivalente direto de “ter”. Em vez de discutir por que as línguas organizaram a ideia de maneiras diferentes, o estudante precisa observar a estrutura usada e praticá-la como unidade de sentido.

Uma dica é usar o Google Imagens antes de recorrer ao tradutor. Quando a pessoa pesquisa uma palavra e vê o objeto, cria uma associação direta entre o termo e o significado. Isso reduz o caminho mental inglês–português–imagem e ajuda a pensar no novo idioma.

O método das frases intercambiáveis

Wes sugere pegar uma frase comum e tratá-la como uma estrutura que pode ser modificada. A partir de What’s your name?, por exemplo, o estudante pode substituir o possessivo para perguntar o nome dele ou dela, sem desmontar toda a ordem da frase.

A regra é trocar elementos equivalentes: verbo por verbo, pessoa por pessoa, possessivo por possessivo. Assim, uma única construção conhecida serve de base para dezenas de novas frases. O aluno deixa de criar cada sentença a partir do zero.

Pronúncia, sotaque e o som de “TH”

Entre as dificuldades de pronúncia dos brasileiros, Wes destaca o “TH”, um som que não existe no português. Ele descreve a posição da língua e a passagem de ar, mas também lembra que os próprios irlandeses frequentemente aproximam o som de um “T”.

Isso não significa abandonar o treino. A intenção é buscar clareza sem transformar uma pronúncia imperfeita em motivo para ficar calado. O ouvido melhora com exposição, e a articulação se torna mais natural com repetição.

O idioma também precisa de manutenção. Quando Wes percebeu que usava inglês quase exclusivamente com alunos iniciantes, notou seu vocabulário encolher e sua fala ficar lenta demais. Voltou a ler em inglês e assistir a filmes sem legenda para se expor a construções mais variadas.

Quanto tempo demora para aprender inglês na Irlanda?

Num cenário ideal — frequentando as aulas e praticando com disposição — Wes diz que resultados reais começam a aparecer por volta do terceiro mês. O aluno tende a compreender mais e, principalmente, a reagir com maior naturalidade numa conversa simples.

Por volta de seis meses, ele espera que a pessoa consiga expressar necessidades básicas, socializar e manter diálogos simples. Não é uma promessa universal. Ritmo de estudo, exposição ao idioma, ansiedade e condições como TDAH ou dislexia podem alterar bastante o processo.

A sala de aula só funciona se virar espaço de prática. Para brasileiros que passam o restante do dia falando português, aquelas horas podem ser a principal oportunidade de usar inglês. A frase de Wes resume sua orientação: “só se aprende a nadar nadando”. Quem evita falar por medo de errar também evita o exercício que produz fluência.

Gramática deve vir antes da comunicação?

Wes critica aulas em que o professor segue o livro mecanicamente e fala durante quase todo o tempo. Em sua formação, ele aprofundou a diferença entre adquirir e aprender a língua. Primeiro, o aluno precisa ser exposto a exemplos e perceber padrões; depois, a explicação gramatical organiza o que ele já começou a reconhecer.

Uma criança pode usar uma forma verbal incorreta e, ainda assim, demonstrar que entendeu a existência do passado. A correção vem para lapidar uma tentativa que já tem lógica. Quando a regra aparece antes de qualquer contato significativo, o estudante enxerga apenas uma lista abstrata de exceções.

Na correção, Wes prefere estimular a autocorreção. Ele sinaliza que existe algo a revisar e deixa o aluno localizar o problema. Corrigir imediatamente cada frase pode transmitir a mensagem de que a pessoa só consegue falar com um professor ao lado.

Hello My Friends e a vocação de ensinar

O nome do canal de Wes nasceu da saudação que ele repetia nos Stories: “Hello, my friends”. A audiência começou a reconhecê-lo pela frase, e ele transformou o canal numa escola gratuita, com aulas completas e materiais que também serviam para seus próprios alunos revisarem o conteúdo.

O projeto foi selecionado para o YouTube Educação e inclui conteúdos como preparação de inglês para o Enem e um passo a passo para estudar com a Netflix. Nas redes, as dúvidas reais dos alunos continuam guiando os temas.

Wes chegou a pensar que deveria deixar as aulas para abrir outro tipo de negócio. Na terapia, percebeu que ensinar não era apenas uma ocupação: mesmo em dias ruins, terminava a aula se sentindo melhor. Seu plano é continuar como professor e, se um dia sair da sala, permanecer ligado à educação.

O principal conselho para aprender inglês

A trajetória de Wes Frazão mostra que aprender inglês combina estudo, exposição e disposição para parecer imperfeito durante algum tempo. Falar sozinho, usar frases conhecidas como modelos, pesquisar imagens, consumir conteúdo sem tradução e aproveitar a sala para conversar são ações simples, mas cumulativas.

Para quem vive na Irlanda, o idioma não deve ser apenas uma exigência escolar. Ele afeta trabalho, autonomia, integração e acesso a conhecimento. Assista ao episódio completo para acompanhar os exemplos de pronúncia, as histórias de sala de aula e o caminho de Wes da Paraíba até se tornar professor de inglês em Dublin.