Como é enfrentar um AVC na Irlanda, longe da família e precisando compreender diagnósticos e tratamentos em outro idioma? Cristiane Abbonante, criadora do canal A Mala da Cris, conta a Bolder como saiu de uma rotina ativa para cinco meses de internação e um longo processo de reabilitação.
A conversa também passa pela decisão de deixar o Brasil, pelos primeiros empregos sem dominar o inglês, pela criação de conteúdo sobre viagens e pela adaptação necessária para reconstruir a autonomia depois do AVC. É um relato pessoal, não uma orientação médica, mas mostra de forma concreta os desafios de adoecer enquanto se vive no exterior.
Quem é Cristiane Abbonante, do A Mala da Cris?
Cristiane é formada em Direito e trabalhou durante cerca de 13 anos na área jurídica. Insatisfeita com a profissão, começou uma faculdade de Nutrição, curso que sempre teve vontade de fazer. Ao mesmo tempo, o marido perdeu o trabalho após o encerramento do projeto em que atuava na região de Itaboraí, no Rio de Janeiro.
A possibilidade de morar fora já existia nos planos de Cris, mas a decisão do casal ganhou força depois de um assalto no Rio. Quatro homens armados abordaram os dois, e o episódio fez o marido reconsiderar a resistência que tinha em recomeçar em outro país.
Como filha de italiano, Cris conseguiu organizar a cidadania e o passaporte europeu. O casal pesquisou Inglaterra, Malta, Canadá e outros destinos. A Irlanda venceu por reunir língua inglesa, possibilidade de trabalho e uma estrutura considerada mais simples para o plano que tinham naquele momento.
O começo da vida na Irlanda sem inglês fluente
Cris chegou primeiro, enquanto o marido ficou temporariamente no Brasil. Uma semana depois de desembarcar, começou a trabalhar como kitchen porter em um hotel. O emprego apareceu rápido, mas a adaptação envolveu jornadas pesadas, procura por acomodação e a dificuldade de entender instruções e responder a situações desagradáveis em inglês.
Ela admite que chegou com algum preconceito em relação aos chamados empregos de entrada. A experiência mudou essa visão. Para Cris, grande parte desse julgamento vem dos próprios brasileiros: na Irlanda, trabalhar em cozinha, limpeza ou atendimento não carrega necessariamente a mesma ideia de status profissional.
O problema não era a função em si. Em um dos trabalhos, ela relata ter sido sobrecarregada e ridicularizada por um superior justamente porque não compreendia bem o sotaque. Sem vocabulário para se defender, muitas vezes voltava para casa chorando. Mais tarde, com maior domínio do idioma e conhecimento do mercado, percebeu que não precisava aceitar aquele tratamento.
A trajetória passou por cozinha de hotel, atendimento no café da manhã, trabalhos temporários e catering. A pandemia interrompeu um emprego que finalmente oferecia a rotina de segunda a sexta-feira. Mesmo assim, Cris afirma que trabalhar na Irlanda permitiu experiências que sua antiga posição em escritório no Brasil não proporcionava, sobretudo viajar pela Europa.
Os primeiros sinais antes do AVC na Irlanda
Em dezembro de 2020, Cris teve uma crise intensa de enxaqueca, com vômitos, e passou um dia no hospital. Foi medicada e voltou para casa. Cerca de um ano depois, após um período emocionalmente difícil provocado pela morte do pai e pela viagem ao Brasil para resolver as questões da família, as dores voltaram.
No dia 27 de dezembro de 2021, enquanto estava na cama, ela tentou pegar um copo e sentiu o braço perder a força. Também começou a enxergar luzes. Ao pesquisar os sintomas, desconfiou de um AVC, mas ainda cogitou que pudesse ser uma enxaqueca com aura.
Depois de se deitar, teve uma convulsão. O marido e um amigo a colocaram no carro e a levaram ao Mater Hospital. Cris ainda conseguiu entrar andando, passar pela triagem e explicar o que havia acontecido. A partir dali, guarda apenas flashes dos procedimentos e dos primeiros dias de internação.
O diagnóstico e a perda dos movimentos
Cris relata que sofreu um AVC hemorrágico no lado direito do cérebro, afetando os movimentos do lado esquerdo do corpo. Inicialmente, o braço e a perna ainda se moviam, mas novas convulsões agravaram o quadro. Quando despertou novamente, já não conseguia movimentar o lado esquerdo.
Segundo o relato dela, os exames identificaram uma trombose venosa cerebral. A equipe investigou fatores genéticos, trombofilia e lúpus, sem encontrar uma explicação conclusiva nessas frentes. Cris conta que os médicos relacionaram o quadro ao uso de anticoncepcional, que teria aumentado o risco no caso específico dela. Essa conclusão pertence ao histórico clínico de Cristiane e não deve ser generalizada para outras pessoas.
O sangramento foi tratado por cateter, sem necessidade de uma cirurgia aberta. Ela passou pelo Mater Hospital e pelo Beaumont Hospital, especializado em neurologia. Após sair da fase de maior risco, iniciou fisioterapia ainda internada.
Cinco meses de internação e reabilitação
No total, Cristiane permaneceu cerca de cinco meses internada: aproximadamente um mês entre os hospitais de atendimento agudo e quatro meses no St Mary’s Hospital, centro de reabilitação localizado na região do Phoenix Park.
A rotina incluía fisioterapia e terapia ocupacional. O objetivo não era apenas voltar a andar, mas reaprender movimentos que antes pareciam automáticos. Cris explica que sua perna evoluiu mais rapidamente; braço, mão e dedos exigiam um trabalho mais detalhado por envolverem movimentos finos.
Ela descreve a neuroplasticidade de maneira prática: o cérebro precisa criar novas rotas e reaprender a enviar comandos para o lado afetado. Atividades simples, como puxar um lençol, prender o cabelo, colocar um brinco ou largar um objeto, passaram a exigir concentração e repetição.
A busca pela independência
Um dos trechos mais fortes da entrevista é quando Cris fala sobre depender de outras pessoas. Tomar banho e preparar a própria comida representaram conquistas importantes, mas tarefas ligadas à aparência e à organização pessoal ainda exigiam ajuda.
Ela reconhece o papel fundamental do marido durante todo o processo, ao mesmo tempo em que explica por que recuperar a autonomia se tornou sua principal motivação. Quando uma equipe médica explicou que a recuperação seria lenta, Cris respondeu que ficaria internada pelo tempo necessário: preferia enfrentar a reabilitação a aceitar uma vida inteira de dependência.
O fisioterapeuta brasileiro Igor também aparece no relato. Foi ele quem a ajudou a comparar os primeiros registros da recuperação com os movimentos conquistados meses depois. Para alguém impaciente e acostumada a resolver tudo rapidamente, perceber pequenas evoluções exigiu mudar a referência: comparar-se com o dia anterior, e não com a vida antes do AVC.
Como funcionou o atendimento de saúde na Irlanda?
Cristiane faz uma avaliação com contrastes. Antes do AVC, tinha ouvido muitas críticas ao sistema de saúde irlandês. Para situações menores, ela entende parte dessas reclamações. Em um caso grave, porém, afirma que recebeu atendimento rápido, internação, reabilitação e acompanhamento sem cobrança pelo tratamento hospitalar.
Após a alta, obteve um Medical Card e passou a pagar um valor reduzido pelos medicamentos. Também recebeu fisioterapia e terapia ocupacional em casa durante dois meses, visitas de acompanhamento e contato com organizações de apoio. Depois desse período, continuou a fisioterapia de forma particular.
A barreira do idioma foi real. Cris precisou aprender termos médicos em inglês e usar ferramentas de tradução para descrever sintomas. Ainda assim, elogia a estrutura de reabilitação, o acompanhamento periódico e recursos como terapia, avaliações neurológicas e aplicação de toxina botulínica para ajudar no controle da rigidez muscular, sempre dentro do tratamento indicado pelos profissionais responsáveis.
A Mala da Cris: viagens, Irlanda e vida depois do AVC
O projeto A Mala da Cris começou no Instagram durante a pandemia, a partir de fotos de viagens antigas. O nome representa aquilo que ela carrega na mala: experiências, gastronomia, história, culturas e sonhos. Cerca de um ano depois, o projeto ganhou um canal no YouTube.
Antes do AVC, Cris já havia viajado por Portugal, Espanha, Bélgica, Países Baixos, Itália e Grécia. No canal, decidiu mostrar não apenas intercâmbio, mas turismo dentro da Irlanda: lugares para visitar, onde comer e a história de cada destino.
Durante a recuperação, o conteúdo precisou se adaptar. Além de vídeos sobre profissões e cotidiano, Cristiane passou a enxergar a possibilidade de mostrar viagens realizadas por alguém com limitações de mobilidade. O roteiro pode precisar de mais pausas e mais dias, mas isso não significa abandonar o desejo de conhecer novos lugares.
A frase que resume essa nova fase é “existe vida após o AVC”. Para Cris, o canal pode mostrar a outras pessoas que a vida continua, mesmo quando o ritmo e a forma de fazer as coisas mudam.
O que Cristiane considera positivo e negativo na Irlanda?
Entre os pontos positivos, ela destaca a disponibilidade de trabalho para quem chega disposto a recomeçar, a cordialidade dos irlandeses e a possibilidade de economizar e viajar, apesar do custo de vida elevado. A atenção recebida durante a doença também alterou sua percepção sobre o país.
Entre os aspectos negativos estão o clima, a comida e o tamanho reduzido da Irlanda para alguém acostumada à intensidade do Rio de Janeiro. Cris se define como uma pessoa urbana, que gosta de variedade, movimento e opções culturais. Por isso, embora reconheça a beleza natural do país, sente falta de uma cidade com mais “vuco-vuco”.
Uma história de recomeços
A conversa de Bolder com Cristiane Abbonante reúne vários recomeços: abandonar uma carreira consolidada, aceitar empregos fora da área, aprender inglês na prática, criar um canal durante a pandemia e reconstruir movimentos depois de um AVC.
O episódio não romantiza a recuperação. Cris fala de medo, choro, impaciência e dependência, mas também mostra as conquistas que surgem quando o progresso é medido passo a passo. Assista ao vídeo completo para conhecer a história de A Mala da Cris e ouvir os detalhes dessa jornada na Irlanda.
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