Edu Trips: trabalho na Irlanda e viagens pela Europa

Viajar pela Europa parecia um objetivo distante para Eduardo Pramio quando ele estudava Engenharia de Alimentos no interior de Santa Catarina. Uma pesquisa casual sobre intercâmbio na Irlanda, porém, abriu uma sequência de decisões: estudar inglês, buscar a cidadania italiana, concluir a faculdade, mudar de país e transformar as próprias viagens no projeto Edu Trips.

No Bolder Podcast, Eduardo conta como conheceu 18 países, começou do zero no mercado de trabalho irlandês e encontrou uma forma própria de produzir conteúdo. A conversa também passa por hostels, viagens econômicas, Auschwitz, perrengues em Mallorca e a diferença entre apenas visitar um lugar e pesquisar sua história.

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Quem é Eduardo Pramio, do Edu Trips?

Eduardo é de Concórdia, cidade de aproximadamente 70 mil habitantes em Santa Catarina. Antes de morar fora, cursava Engenharia de Alimentos no Instituto Federal Catarinense e ainda não tinha uma ideia clara do que faria depois da graduação.

O plano começou por acaso. Ao navegar pelo site de uma empresa de viagens, encontrou a possibilidade de estudar e trabalhar na Irlanda. Naquela noite, abriu cerca de 150 abas para pesquisar vistos, mercado de trabalho, roupas e tudo o que julgava necessário para o intercâmbio.

Na época, seu inglês se limitava ao vocabulário básico aprendido na escola. Ele começou as aulas e, poucas semanas depois, já tentava responder a uma pergunta que muita gente deixa para fazer somente depois de chegar: o que aconteceria se quisesse permanecer na Irlanda por mais de dois anos?

Cidadania italiana antes da mudança para a Irlanda

Eduardo pesquisou alternativas como faculdade, emprego com permissão de trabalho e cidadania europeia. Como ainda não era formado e tinha pouca experiência profissional, não considerava prudente depender de uma vaga qualificada. Ao investigar a história da família, descobriu a possibilidade de reconhecer a cidadania italiana.

O processo exigiu organização financeira. Durante a semana, ele conciliava faculdade, inglês, espanhol e estágio; às sextas, sábados e domingos, trabalhava como garçom para economizar. Em 2019, perto de concluir o curso, decidiu viajar à Itália e seguir a via administrativa disponível naquela época.

Era sua primeira viagem de avião e ele ainda precisou emitir o primeiro passaporte. A confirmação de que os documentos estavam corretos veio em apenas dois dias. Isso não significou sair imediatamente com todos os documentos prontos, mas liberou Eduardo para usar os 27 dias restantes da viagem antes de voltar ao Brasil.

As regras de cidadania e imigração podem mudar. A experiência relatada por Eduardo corresponde ao período em que ele realizou o processo e não substitui uma verificação atualizada antes de tomar decisões.

A primeira viagem pela Europa mudou o plano de vida

O choque de realidade aconteceu em Roma, diante do Coliseu. Eduardo afirma que aquele encontro com um lugar antes visto apenas em livros e na televisão confirmou que queria construir uma vida com mais experiências internacionais.

O roteiro passou por Roma, Nápoles, Mondragone, Florença, Pisa, Turim, Milão, Zurique, Munique e Veneza. Para reduzir custos, ele se hospedava em hostels e, em alguns trajetos, viajava durante a noite em ônibus da FlixBus. Assim economizava uma diária, embora reconheça que hoje não repetiria todas as escolhas desconfortáveis daquela primeira aventura.

Florença também mudou sua relação com museus. Até então, Eduardo não se via como alguém interessado nesse tipo de visita. Ao encontrar obras e referências que havia estudado na infância, percebeu que viajar poderia conectar história, arte e experiência pessoal.

Como foi começar a trabalhar na Irlanda?

Depois da viagem, Eduardo voltou ao Brasil pouco antes do início das restrições da pandemia. Concluiu a graduação, trabalhou por algum tempo na área e juntou dinheiro. Quando finalmente se mudou para a Irlanda, chegou com documentação, uma reserva e um quarto em casa de família, mas sem emprego garantido.

Os três pilares do planejamento

Na entrevista, ele organiza a preparação em três pilares. O financeiro é ter reserva para pagar aluguel e alimentação sem procurar trabalho em desespero. O psicológico é aceitar a distância, a solidão e a necessidade de reconstruir a vida. O técnico reúne inglês e experiência profissional, mesmo que a experiência inicial não seja exatamente na carreira desejada.

Seu primeiro emprego foi como kitchen porter, lavando pratos e panelas em um restaurante. Ficou apenas três dias porque logo conseguiu uma vaga no café da manhã de um hotel. Enquanto aguardava o PPS Number, também trabalhou em um armazém separando compras feitas pela internet.

Durante aproximadamente um mês, somou os turnos do hotel e do armazém e chegou perto de 75 horas semanais. Quando recebeu o documento, começou a procurar algo ligado à indústria de alimentos. Uma vaga de operador em uma fábrica de pescados, divulgada pelo perfil Dublin Jobs, abriu a primeira porta.

Da fábrica de pescados a uma vaga de especialista

Ao ligar para a empresa, Eduardo se apresentou como engenheiro de alimentos. O recrutador analisou o currículo e o chamou para uma vaga diferente. Com cerca de um mês e meio de Irlanda, conseguiu o primeiro trabalho na própria área.

A experiência, porém, não correspondeu ao que ele esperava. Em vez de tratá-la como destino definitivo, começou a participar de novos processos. Fez aproximadamente 15 entrevistas, algumas diretamente depois do trabalho e ainda com cheiro de peixe. Cada resposta mal formulada virou preparação para a entrevista seguinte.

Essa prática o ajudou a conquistar uma posição de especialista em uma grande empresa do setor de carnes na Irlanda e no Reino Unido. Para Eduardo, cidadania facilitou a parte migratória, mas não substituiu formação, comunicação em inglês e disposição para começar em funções mais básicas.

Bolder entrevista Eduardo Pramio, criador do Edu Trips
Bolder e Eduardo conversam sobre trabalho, cidadania italiana e viagens pela Europa.

Como viajar pela Europa gastando menos?

A rotina profissional na Irlanda ajudou Eduardo a financiar as viagens. Seu orçamento prioriza o destino, não o quarto: quando viaja sozinho, costuma ficar em hostel, usa o espaço principalmente para dormir e aproveita a oportunidade para conhecer outras pessoas.

Ele alerta que o custo depende do país, da antecedência, do estilo de viagem e das atividades escolhidas. O episódio não apresenta uma fórmula universal. O que aparece é um método: pesquisar bastante, aceitar conforto mais simples quando fizer sentido e distribuir o dinheiro nas experiências que realmente importam.

Eduardo também recomenda variar o roteiro. Colocar três grandes museus no mesmo dia pode produzir cansaço e diminuir a atenção. Sua preferência é alternar museu, parque, restaurante, atividade, bar ou pôr do sol, criando ritmos diferentes ao longo da viagem.

Polônia, Auschwitz e o peso da memória

A Polônia está entre as viagens que mais marcaram Eduardo. Em Cracóvia e arredores, ele viu neve em uma escala inédita, tentou esquiar e encontrou comida e bebida por valores menores do que os praticados na Irlanda. Uma indicação de um colega polonês o levou a um restaurante onde o grupo comeu e bebeu por menos de 20 euros por pessoa.

Na mesma viagem, visitou Auschwitz durante o inverno. Eduardo descreve o silêncio, os retratos das vítimas e o impacto de uma sala com cabelo humano. Para ele, não era um passeio convencional, mas um memorial cuja função é preservar a história e impedir que a violência seja tratada como abstração.

Ao publicar conteúdo sobre o local, recebeu críticas de pessoas que consideravam inadequado mostrar um campo de concentração. A maioria, segundo ele, compreendeu a intenção. Eduardo respondeu destacando o propósito histórico da visita e a necessidade de tratar o espaço com respeito.

O que diferencia o conteúdo do Edu Trips?

Eduardo começou a levar a criação de conteúdo a sério depois de várias viagens. No início, fazia publicações genéricas, semelhantes às listas de atrações encontradas em muitos perfis. Com o tempo, percebeu que precisava mostrar sua forma de viajar.

O Edu Trips passou a combinar informações básicas com experiências, contexto histórico e os chamados hidden gems: lugares, acessos e detalhes menos conhecidos. A intenção é explicar o caminho completo para que outra pessoa consiga repetir a experiência, não apenas publicar uma imagem bonita.

A virada de audiência aconteceu com uma sequência sobre a Polônia. Eduardo tinha pouco mais de 3 mil seguidores quando um vídeo chegou a 100 mil visualizações. Outros conteúdos sobre piscinas, esqui, restaurante e roupas de inverno alcançaram centenas de milhares de visualizações. O resultado mostrou que havia público para informação prática e detalhada.

Produzir esse material exige tempo. Depois do expediente, ele pesquisa, escreve roteiro, escolhe imagens, grava a narração e ajusta cada trecho. Seu objetivo declarado é conhecer o mundo e, no futuro, receber pelo trabalho de documentar e explicar essas viagens.

Perrengues também fazem parte da viagem

Em Mallorca, uma cabra abriu um pacote e comeu as bolachas deixadas pelo grupo durante uma trilha. O problema maior veio depois: o carro alugado apresentou um alerta e não voltou a ligar. Foi preciso acionar o reboque e pagar cerca de 130 euros por um táxi de volta a Palma.

Eduardo procura não deixar um imprevisto dominar toda a experiência. Isso não elimina o prejuízo nem a necessidade de resolver o problema, mas evita transformar um episódio ruim no resumo da viagem inteira.

Ele também relata uma escolha arriscada na Itália: subir uma montanha coberta de neve sem calçado ou equipamento adequado porque o teleférico estava fechado. Levou tombos e hoje reconhece que não era uma decisão a ser imitada. Planejamento de viagem inclui saber quando desistir e não confundir improviso com segurança.

Vale a pena viajar sozinho pela Europa?

Para Eduardo, viajar sozinho permite seguir o próprio ritmo e não depender da coincidência de férias, dinheiro e interesses de vários amigos. Isso não significa ignorar riscos: ele permanece atento nas ruas, evita exibir o celular e se afasta quando percebe uma abordagem suspeita.

A trajetória do Edu Trips mostra que a viagem não começou quando ele comprou a passagem. Começou no planejamento, no estudo de idiomas e na construção de uma reserva. O mesmo raciocínio apareceu na carreira: aceitar o primeiro trabalho possível, aprender com entrevistas malsucedidas e continuar procurando uma vaga coerente com a formação.

Assista ao episódio completo para conhecer a história de Eduardo Pramio, os bastidores do Edu Trips e as experiências que transformaram uma pesquisa sobre intercâmbio em uma vida entre trabalho e viagens pela Europa.