You in Africa: alimentação e educação para crianças no Quênia

O projeto You in Africa nasceu depois que um brasileiro chegou ao Quênia para um trabalho voluntário ligado ao futebol e percebeu que as crianças não tinham sequer água e comida suficientes para praticar o esporte. O que começou com refeições para 30 crianças transformou-se numa organização voltada à alimentação, à educação e ao acompanhamento de comunidades quenianas.

No Bolder Podcast 167, Sara Soares e Talita Trevisan explicam como o projeto funciona, de onde vêm os recursos e por que manter doações recorrentes é tão importante. Elas também contam como brasileiros que vivem na Irlanda passaram a organizar bazares, venda de refeições e outras ações para financiar cozinhas e bolsas de estudo no Quênia.

Publicidade

O que é o projeto You in Africa?

Na época da entrevista, a organização atuava em quatro comunidades no Quênia: Ruiru, Cheptulo, Thika e Makuyu. Cada uma possuía uma cozinha usada para preparar as refeições das crianças atendidas.

Segundo Sara e Talita, muitas dessas crianças dependiam da refeição oferecida pelo projeto como principal — e, em alguns casos, única — alimentação do dia. Algumas caminhavam longas distâncias para chegar ao local. Quando faltava dinheiro para comprar os alimentos, a equipe precisava mobilizar amigos e voluntários rapidamente.

A atuação não se limitava a entregar comida. Coordenadores quenianos acompanhavam as comunidades, orientavam as crianças e mantinham contato com a equipe internacional. Eles eram fundamentais para compreender a realidade local e transformar os recursos arrecadados fora do país em ações concretas.

Durante a gravação, o projeto informava alimentar aproximadamente 600 crianças por dia. Esse número pertence ao período do episódio e pode ter mudado. Informações atuais devem ser consultadas diretamente nos canais oficiais da organização.

Como o You in Africa começou?

O projeto foi criado em 2018 por Lucas, que havia vivido na Irlanda como estudante. Ele viajou ao Quênia para realizar um voluntariado com futebol, mas encontrou crianças sem condições básicas para participar.

Lucas começou a publicar vídeos e pedir ajuda aos amigos. Com as primeiras contribuições, passou a oferecer refeições para cerca de 30 crianças durante o período em que estava no país. A intenção inicial era uma ação temporária, mas o contato com as famílias mostrou que a necessidade continuaria depois de sua partida.

O trabalho cresceu, ganhou voluntários em diferentes países e passou a operar com projetos de alimentação e educação. Na época da conversa, a organização tinha registros no Brasil, no Quênia e na Áustria, além de uma base importante de colaboradores brasileiros na Irlanda.

Quem são Sara Soares e Talita Trevisan?

Talita chegou à Irlanda em janeiro de 2017 acompanhando o sonho da melhor amiga, Aline. Poucos meses depois, iniciou o processo de cidadania italiana e decidiu permanecer na Europa. A amiga enfrentou um câncer, e Talita ficou ao lado dela durante parte do tratamento.

Num período particularmente difícil, conheceu o You in Africa e começou a apadrinhar uma estudante chamada Pauline. A relação com a jovem aproximou Talita do cotidiano do projeto. Mais tarde, recebeu um convite do fundador para integrar a equipe e passou a acompanhar a comunidade de Ruiru e a organização de eventos.

Sara veio inicialmente para estudar inglês por oito meses. Ela não estava satisfeita com o trabalho e a vida no Brasil, deixou a empresa e embarcou pouco tempo depois. Acabou renovando a permanência, conseguiu trabalhar em Recursos Humanos na Irlanda e permaneceu no país.

O voluntariado já fazia parte da vida de Sara havia mais de 15 anos. No Brasil, participou de ações em abrigos de crianças, casas de repouso e escolas. Quando se mudou, sentiu falta de um projeto em que pudesse trabalhar de maneira direta. Conheceu Lucas por meio de uma reportagem durante a pandemia, entrou em contato e, depois de uma conversa de aproximadamente três horas, juntou-se à organização.

Por que alimentação e educação precisam caminhar juntas?

O ensino primário queniano era apresentado na conversa como gratuito, mas as famílias ainda precisavam arcar com uniforme, material e alimentação. No secundário, os custos incluíam também mensalidade, transporte e outros itens.

Para uma família que não consegue colocar comida na mesa, essas despesas tornam a escola inacessível. Algumas turmas chegavam a reunir de 70 a 100 alunos, e muitos jovens abandonavam os estudos para trabalhar e contribuir com a renda doméstica.

Sara resume a relação de forma direta: não existe educação sem alimentação. Uma criança com fome não consegue se concentrar, permanecer em sala ou pensar num projeto de longo prazo. Por isso, as refeições atendem à urgência, enquanto o apadrinhamento escolar tenta mudar as possibilidades futuras.

O projeto Inspira

Além do suporte material, o You in Africa desenvolvia uma frente de orientação chamada Inspira. A proposta era conversar sobre estudo, escolhas e possibilidades profissionais com crianças que tinham pouco acesso à informação.

O objetivo não era sugerir que motivação sozinha resolve a pobreza. Sara e Talita reconhecem que, naquele estágio, a organização ainda “apagava incêndios”. Primeiro era necessário garantir comida e permanência na escola; depois, ampliar referências e mostrar caminhos que não estivessem ligados à exploração, ao crime ou à prostituição.

Como funcionava o apadrinhamento estudantil?

O apadrinhamento financiava mensalidade, material, uniforme, transporte e alimentação de um estudante. Os padrinhos assumiam um compromisso por todo o ano letivo, porque interromper os pagamentos poderia retirar a criança da escola no meio do período.

Na gravação, o valor informado era de aproximadamente €33 mensais para o ensino secundário. A quantia e as condições pertencem à época do episódio. Antes de contribuir atualmente, é necessário confirmar valores, cadastro, formas de pagamento e situação da organização em seus canais oficiais.

O vínculo ia além da transferência. Padrinhos e estudantes trocavam cartas físicas e recebiam fotografias e atualizações. Para Talita, esse contato transformava uma contribuição abstrata numa relação com uma pessoa específica.

A previsibilidade era essencial. Doações pontuais ajudavam em emergências, mas contribuições recorrentes permitiam calcular quantas crianças poderiam continuar recebendo refeições e estudando nos meses seguintes.

Bet voltou à escola no mesmo dia

Uma das histórias contadas por Talita é a de Bet, aluna descrita como muito dedicada. Uma dívida acumulada fez com que ela fosse retirada da escola justamente durante a semana de provas.

Enquanto a equipe tentava encontrar recursos, Bet continuou estudando sozinha em casa com os próprios cadernos. Um doador apareceu e pagou os valores atrasados. Quando Clinton, coordenador local, chegou para dar a notícia, encontrou a menina estudando.

Ela vestiu o uniforme e voltou imediatamente. Pouco depois, Talita recebeu um vídeo de Bet na escola. Apesar da interrupção, a estudante fez a prova e manteve uma nota alta porque não havia abandonado os estudos em casa.

O caso ilustra o peso de uma mensalidade para quem deseja aprender, mas não controla as condições econômicas da família. Também mostra por que um padrinho precisa assumir apenas um compromisso que consiga manter.

Ignatius e a oportunidade de cursar Jornalismo

Outro estudante apoiado pelo projeto, Ignatius, foi aprovado numa faculdade de Jornalismo. A equipe precisava encontrar alguém disposto a financiar o ano, pago de uma só vez, e o prazo estava terminando.

Durante uma reunião, quando os voluntários já acreditavam que não conseguiriam, chegou a mensagem de uma pessoa disposta a custear o período completo. A família do jovem agradeceu oferecendo a Lucas uma galinha e 25 ovos.

O presente pode parecer simples visto de fora, mas representava parte da alimentação da própria casa. Para os voluntários, a família retirar esses itens do pouco que possuía demonstrava a importância atribuída à oportunidade de estudar.

A cirurgia de Fidel e o acesso precário à saúde

Sara e Talita também lembram a história de Fidel, uma criança que nasceu com uma deformidade grave no crânio e no rosto. A condição dificultava sua alimentação, a frequência à escola e uma infância comum.

Com mobilização do projeto e apoio externo, foi possível conseguir financiamento e uma equipe médica para a cirurgia. Segundo o relato, Fidel passou a comer melhor, frequentar a escola e ter mais qualidade de vida, com acompanhamento posterior para novos procedimentos.

A história expõe uma limitação adicional: além da educação, o acesso à saúde era descrito como muito precário. Em casos que exigiam tratamento especializado, uma família sem renda dependia de uma rede de ajuda muito maior.

Como a organização prestava contas?

Durante a entrevista, Sara reconhece que desconfiar de uma ONG é natural. Quem doa precisa saber onde o dinheiro será empregado e quais resultados foram alcançados.

A equipe usava o Instagram como principal ferramenta de transparência. Publicava bastidores dos eventos, imagens das comunidades, ações realizadas e relatórios financeiros. Depois de uma venda de refeições, por exemplo, mostrava arrecadação, despesas, patrocínios e o valor enviado ao Quênia.

Essa prestação de contas também era importante porque a organização dependia de pequenos doadores. Sem um grande patrocinador corporativo, a confiança de quem contribuía mensalmente sustentava boa parte da operação.

Antes de apoiar qualquer instituição atualmente, vale verificar registro, relatórios recentes, responsáveis, canais oficiais e política de proteção de crianças. O episódio mostra como a equipe dizia trabalhar naquela época, mas uma doação presente deve ser baseada em informações presentes.

Eventos organizados por brasileiros na Irlanda

Para arrecadar recursos, os voluntários criavam eventos comunitários em Dublin. Entre as ações mencionadas estavam bazar de roupas, feijoada e venda de strogonoff.

No evento do strogonoff, uma voluntária cedeu a cozinha e preparou as refeições. Entregadores ajudaram a embalar e distribuir as marmitas, enquanto empresas brasileiras contribuíram com ingredientes e patrocínio. Algumas pessoas compraram sem querer receber o prato, transformando o valor integral em doação.

O bazar durou um fim de semana e exigiu semanas de separação de roupas, transporte e organização. Para Talita, foi especialmente marcante porque aproximou o projeto da comunidade e abriu novas conexões.

Essas ações revelam que voluntariado não é apenas aparecer no dia do evento. Há logística, divulgação, controle financeiro, cozinha, atendimento, entregas e prestação de contas. Sara e Talita conciliavam tudo isso com emprego e estudos.

Por que brasileiros na Irlanda aderiram ao projeto?

A maior parte das contribuições vinha de brasileiros residentes na Irlanda. Segundo as entrevistadas, muitos doadores trabalhavam como cleaner, minder ou kitchen porter — não eram necessariamente pessoas de alta renda.

A proximidade com a desigualdade no Brasil pode ajudar a explicar a identificação. Mesmo quem não viveu pobreza extrema provavelmente cresceu vendo realidades muito diferentes na mesma cidade.

Também pesava o valor relativo do dinheiro. Na entrevista, Sara e Talita diziam que €5 poderiam financiar a alimentação mensal de uma criança. O exemplo tornava visível como uma quantia pequena no cotidiano de Dublin tinha outro alcance no Quênia.

Esse valor é histórico e não deve ser usado como referência atual. Preços de alimentos, câmbio, número de beneficiários e custos operacionais mudam. A contribuição deve ser calculada a partir dos dados mais recentes fornecidos pela organização.

“Por que não ajudar o Brasil?”

Uma crítica recorrente era perguntar por que brasileiros ajudavam o Quênia em vez do próprio país. Sara responde que atuou por muitos anos em projetos no Brasil e continua apoiando campanhas brasileiras, mas não considera necessário limitar a solidariedade a uma fronteira.

Ela reconhece que há pobreza grave no Brasil, especialmente em regiões afastadas dos grandes centros, e deseja construir no futuro uma iniciativa voltada ao país. Talita, por sua vez, se conectou profundamente com o projeto africano.

Para as duas, o importante é transformar a preocupação em alguma ação: no Brasil, no Quênia ou em outra comunidade. Apontar qual causa outra pessoa deveria escolher não substitui trabalho, doação ou voluntariado.

Como participar de um projeto voluntário com responsabilidade?

Naquele período, interessados podiam entrar em contato pelo perfil oficial da organização e integrar um grupo convocado quando surgiam eventos ou tarefas. Também era possível ajudar compartilhando as campanhas e apresentando o projeto a possíveis parceiros.

Para quem pensa em viajar e atuar presencialmente, Sara e Talita alertam para o impacto emocional. Visitar uma comunidade em pobreza extrema exige preparação e respeito. O voluntário não deve transformar crianças em atração, prometer o que não pode cumprir nem desconsiderar o conhecimento dos coordenadores locais.

Uma atuação responsável fortalece profissionais e lideranças quenianas. No You in Africa, os coordenadores locais administravam as cozinhas, acompanhavam estudantes e orientavam as famílias. O trabalho dos brasileiros dependia diretamente dessa equipe.

O legado apresentado no Bolder Podcast

A entrevista com Sara Soares e Talita Trevisan mostra uma rede construída entre Irlanda, Brasil, Áustria e Quênia. Pequenas doações, eventos comunitários e acompanhamento local sustentavam refeições e oportunidades escolares.

As histórias de Bet, Ignatius e Fidel dão rosto aos números, mas também lembram que assistência exige continuidade. Uma refeição resolve a fome daquele dia; educação, saúde e proteção precisam de planejamento mais longo.

Assista ao episódio completo para conhecer a origem do You in Africa, os desafios de manter as cozinhas e a experiência das brasileiras que conciliavam trabalho na Irlanda com a gestão voluntária do projeto.