Trabalhar de delivery na Irlanda costuma aparecer como uma forma rápida de começar a ganhar em euro, especialmente para quem já fazia entregas no Brasil. No entanto, os relatos reunidos por Bolder mostram uma rotina marcada por chuva, custos elevados, roubo de bicicletas e ataques que podem deixar o entregador meses sem renda.
O vídeo não condena quem depende desse trabalho nem afirma que a Irlanda seja um país perigoso de forma geral. O alerta é mais específico: entregadores ficam expostos durante muitas horas, são identificados pelas mochilas e roupas das plataformas e, em certas regiões, tornaram-se alvos frequentes de grupos de adolescentes. Para quem ainda está no Brasil e planeja chegar como estudante ou turista para viver exclusivamente de entregas, Bolder não recomenda esse caminho.
Por que trabalhar de delivery na Irlanda se tornou mais arriscado?
A preocupação não surgiu de um caso isolado. Em 2020, o entregador brasileiro Thiago Cortês morreu após ser atingido durante uma ocorrência envolvendo adolescentes em Dublin. Em outro episódio, um brasileiro que passou a carregar uma faca depois de sucessivos ataques reagiu a uma tentativa de roubo e matou um irlandês; ele chegou a ser preso, mas depois foi inocentado.
O trabalho também colocou brasileiros no centro de acontecimentos que ganharam repercussão nacional. Caio Benício, que fazia entregas, interveio ao ver uma menina sendo atacada em Dublin, usou o capacete para deter o agressor e ajudou a desarmá-lo. Em outro caso citado no vídeo, João perseguia adolescentes que haviam roubado uma moto quando foi atingido por uma viatura da Garda e teve uma perna amputada.
Esses episódios têm circunstâncias diferentes, mas revelam o grau de exposição da profissão. Pedradas, ovos, garrafas e tentativas de roubo podem parecer ocorrências menores diante dos casos mais graves, porém fazem parte de uma sensação constante de insegurança relatada pelos entregadores.
Alan José: atacado depois da última entrega do dia
Alan José aceitou uma última ordem em Finglas porque o valor era bom. Ele conhecia a reputação de algumas áreas do bairro, mas não sabia que aquele trecho apresentava o mesmo risco. Para evitar ser identificado à distância como entregador, trabalhava vestido de preto; ainda assim, dois jovens perceberam a mochila da Deliveroo quando ele passou perto deles.
Segundo Alan, os dois estavam com o rosto coberto e correram em sua direção. Ele tentou desviar, mas foi empurrado e caiu. Quando apoiou uma das pernas para se levantar, um dos agressores lançou uma lixeira grande contra ela. O impacto quebrou a tíbia e provocou diversas lesões no joelho.
Enquanto os jovens se preparavam para continuar a agressão, Alan começou a gritar por socorro. Um deles tentou levar a bicicleta, mas Alan conseguiu segurar a mochila presa à bateria até o cabo se romper. Mesmo cercado por casas com luzes acesas, ele permaneceu vários minutos no chão, gritando até ficar rouco.
Quatro pessoas que passavam de carro finalmente pararam. Dois rapazes seguiram na direção indicada por Alan, enquanto duas mulheres ficaram com ele e chamaram a Garda e a emergência. A previsão apresentada na entrevista era de aproximadamente seis meses sem trabalhar.
Alexandre Athos: perseguido e atropelado em Cork
Alexandre já trabalhava como entregador havia quase três anos no Brasil e juntou dinheiro para fazer intercâmbio na Irlanda. Escolheu Cork por acreditar que encontraria uma cidade mais tranquila, com aluguel mais acessível que Dublin. Até então, ouvia principalmente relatos de ovos lançados contra entregadores e tentativas de roubo de motos.
Na noite de Halloween, por volta das 23h45, ele terminava uma entrega quando percebeu um SUV preto circulando devagar por uma rua escura. Ao tentar passar pelo veículo, um homem com o rosto coberto saltou em sua direção. Alexandre acelerou, e o carro começou a persegui-lo por mais de dois quilômetros.
Durante a perseguição, os ocupantes lançaram garrafas e outros objetos contra ele. Alexandre entrou em uma área residencial, imaginando que as curvas dificultariam as manobras do SUV. Ao reduzir a velocidade para fazer uma curva fechada, teve a traseira da moto atingida e caiu.
Ele conseguiu se levantar e afastar um dos agressores, mas, quando voltou à moto para retirar a chave, o carro passou sobre sua perna. O grupo não levou carteira, telefone ou veículo. Moradores saíram de casa ao ouvir os gritos, uma enfermeira prestou os primeiros cuidados e outros entregadores chegaram depois que Alexandre compartilhou a localização em um grupo de emergência.
A fratura exposta atingiu tíbia e fíbula. No momento da gravação, Alexandre continuava internado e ainda aguardava informações médicas completas. O caso chama atenção porque aconteceu em Cork, fora de Dublin, onde se concentra a maior parte dos relatos de violência contra entregadores.
Ruan Teixeira: agressão e denúncia envolvendo agentes à paisana
Outro depoimento apresentado é o de Ruan Teixeira, abordado enquanto pedalava para encontrar amigos na noite anterior ao seu aniversário. Um carro cinza se aproximou e os ocupantes mandaram que ele parasse. Com receio por ser Halloween, Ruan continuou, mas o veículo o fechou contra um carro estacionado. Ele subiu na calçada, perdeu o equilíbrio e caiu.
Ruan relata que dois homens saíram do automóvel e o agrediram, causando ferimentos no rosto e quebrando um dente. Em seguida, disseram ser integrantes da Garda à paisana, algemaram o brasileiro e o levaram para uma delegacia. Lá, ele foi identificado, revistado e examinado por um médico antes de ser liberado.
Como se tratava de uma denúncia contra integrantes da própria polícia, Ruan informou que uma investigação seria aberta. Uma organização não governamental e o consulado estavam oferecendo apoio. O relato é apresentado como uma acusação feita por ele e ainda sujeita à apuração mencionada na entrevista.
Conta alugada, seguro e situação migratória
Além da violência, existe uma questão migratória importante. Conforme explicado no vídeo, as principais plataformas não aceitavam o cadastro de estudantes naquele momento. Por isso, parte dos entregadores recorria ao aluguel de contas abertas por pessoas com passaporte europeu ou permissão de residência.
O trabalhador pagava uma taxa semanal ao titular e, em alguns acordos, também uma porcentagem dos ganhos para cobrir os impostos cobrados pelo Revenue. Essa estrutura deixava o entregador mais vulnerável: a conta não estava em seu nome e, em caso de acidente, não havia garantia de que a plataforma ou um seguro assumiria os custos.
Bolder recomenda chegar à Irlanda por uma rota legal, ainda que seja mais cara e demorada. As regras das plataformas, os vistos e a tributação podem mudar, portanto devem ser conferidos diretamente nas fontes oficiais antes de qualquer decisão.
Quanto custa trabalhar com entregas na Irlanda?
O faturamento bruto não conta toda a história. Quem trabalha com uma conta de terceiros pode pagar pelo acesso à plataforma, pelo aluguel da bicicleta elétrica, pela manutenção do equipamento e pelos impostos repassados pelo titular. Depois ainda vêm aluguel da moradia, alimentação e o custo de vida irlandês.
A flexibilidade também é relativa. Para atingir ganhos relevantes, o entregador precisa permanecer disponível por longos períodos e esperar as melhores ordens. Chuva, vento e frio fazem parte da rotina porque todo o trabalho acontece na rua.
Há ainda um custo profissional menos visível. O isolamento e a pouca necessidade de conversar durante as entregas podem dificultar o aprendizado do inglês. Para quem pretende construir uma carreira no país, passar anos na atividade sem desenvolver o idioma pode limitar o acesso a empregos mais estáveis.
Quais regiões os entregadores evitam?
Nos relatos, entregadores citam áreas de Dublin como Finglas, Ballymun e Ballyfermot entre os locais analisados com mais cautela. Algumas ordens acabam rejeitadas sucessivamente porque os trabalhadores consideram que o risco não compensa.
O efeito chega ao restante do serviço: o cliente espera mais, o restaurante corre o risco de ter o pedido cancelado e o entregador perde renda ou se expõe a uma região que teme. Como há muita rotatividade na profissão, os entrevistados destacam a importância de orientar quem acabou de começar.
A recomendação é registrar até ocorrências consideradas pequenas, como cusparadas, ovos e pedras. O acúmulo de denúncias ajuda a demonstrar a frequência do problema e aumenta a pressão por uma resposta das autoridades.
Afinal, vale a pena fazer delivery na Irlanda?
Para Bolder, o delivery ainda pode servir como renda extra para quem já possui passaporte europeu ou residência, tem um trabalho principal e precisa complementar temporariamente os ganhos. A recomendação negativa é dirigida sobretudo a quem pretende sair do Brasil como estudante ou turista contando exclusivamente com entregas.
O setor de hospitalidade pode oferecer alternativas com horário mais previsível, ambiente protegido do clima e contato maior com o inglês. Nenhuma opção é fácil, mas trabalhar legalmente e construir experiência local amplia as possibilidades de crescimento.
A Irlanda continua sendo apresentada no vídeo como um país de oportunidades. O alerta existe para que o planejamento inclua também a violência direcionada aos entregadores, os custos da atividade, o seguro médico, a situação migratória e as perspectivas profissionais de longo prazo.
Entrevistas e relatos completos
Entrevista com Ruan Teixeira:
Entrevista com Alexandre Athos: a campanha de apoio mencionada no vídeo está disponível no GoFundMe.
Entrevista com Erone Lessa sobre imigração e trabalho de delivery:
