As religiões dos brasileiros na Irlanda também ajudam a contar a história da imigração. Em junho de 2024, Bolder visitou quatro comunidades religiosas em Dublin para entender como a fé, a língua portuguesa e o convívio em grupo ajudam quem está reconstruindo a vida longe do Brasil.
O vídeo passa por uma comunidade católica, uma igreja protestante, uma sociedade espírita e um terreiro de Umbanda. Não é um levantamento de todas as religiões praticadas por brasileiros no país, mas um retrato de quatro espaços e das pessoas que os mantinham ativos naquele momento.
Nota: esta reportagem foi gravada e publicada em junho de 2024. Endereços, horários, quantidade de encontros e público citado abaixo correspondem à época da gravação e podem ter mudado.
Por que a religião ganha outro peso durante a imigração?
Mudar de país costuma significar perder, de uma vez, referências que pareciam naturais: a convivência com a família, a língua, os amigos e até a forma de celebrar datas importantes. No vídeo, esse impacto aparece em relatos sobre solidão, dificuldade para se expressar em inglês, moradia compartilhada e os primeiros trabalhos na Irlanda.
As comunidades visitadas cumprem uma função religiosa, mas não apenas isso. Elas também se tornam pontos de encontro, redes de apoio e lugares onde um recém-chegado pode pedir orientação, encontrar amizades ou simplesmente conversar com alguém que entende a experiência de viver fora.
A comunidade católica brasileira em Dublin
A primeira parada é a St Mary of the Angels, na Church Street, onde havia missa em português aos domingos. O frei entrevistado explica que a comunidade católica de língua portuguesa em Dublin teria começado com a atuação do padre irlandês Patrick McNamara, que falava português e acolhia fiéis lusófonos.
A língua aparece como uma parte importante da experiência. Mesmo quem consegue trabalhar e resolver a vida cotidiana em inglês nem sempre se sente à vontade para rezar, confessar ou acompanhar uma celebração inteira no idioma. A missa brasileira também costuma ter mais música, participação e momentos de convivência.
Na época da gravação, a celebração em português acontecia aos domingos, às 16h. Esse horário deve ser entendido como um registro de 2024; quem deseja participar hoje precisa confirmar a programação atual diretamente com a paróquia.
Leia a matéria completa sobre a igreja católica brasileira e as missas em português em Dublin.
Igreja protestante na Irlanda: a experiência da Lagoinha Dublin
Na sequência, Bolder visita a Lagoinha Dublin. A igreja nasceu em Belo Horizonte e, segundo o pastor entrevistado, intensificou sua expansão internacional a partir de 2014 e 2015. A unidade de Dublin começou em outubro de 2022 para atender uma comunidade brasileira que crescia rapidamente.
Um detalhe chama atenção: os cultos eram realizados em salas de cinema na região da Parnell Street. Encontrar um imóvel adequado em Dublin era difícil e caro, enquanto o cinema já oferecia acústica, assentos e estrutura técnica. Entre 30 e 40 voluntários participavam da montagem e da desmontagem a cada domingo.
O pastor estimava um público semanal entre 500 e 550 pessoas, dividido em duas celebrações. Para muitos participantes, ouvir a pregação, cantar e orar em português criava um sentimento imediato de pertencimento. Uma das pessoas entrevistadas conta que tentou frequentar uma igreja em inglês, mas só sentiu que havia encontrado sua comunidade quando chegou à Lagoinha.
Leia a matéria completa sobre a igreja protestante brasileira na Irlanda.
Spiritist Society of Ireland: espiritismo brasileiro em inglês
A Spiritist Society of Ireland adotou uma escolha diferente: seus encontros eram realizados em inglês. O grupo começou com amigos reunidos em uma casa e, conforme cresceu, passou a alugar um espaço próprio. A intenção de usar o inglês era abrir a comunidade aos irlandeses e adaptar a maneira brasileira de apresentar o espiritismo ao contexto local.
Os organizadores contam que ouviram o público para entender quais expressões ou conceitos afastavam quem não conhecia a tradição brasileira. Essa adaptação não significava abandonar a identidade do grupo, mas tornar as conversas compreensíveis para pessoas de outras origens.
Em 2024, os encontros quinzenais reuniam aproximadamente 100 pessoas e combinavam palestra, troca de experiências e convivência. A comunidade se dizia aberta inclusive a pessoas de outras religiões: a proposta apresentada no vídeo era contribuir para o autoconhecimento, não exigir que alguém deixasse de ser católico ou protestante.
Conheça em detalhes a Spiritist Society e seu trabalho na Irlanda.
Umbanda na Irlanda: a Casa Vovó Catarina
A última visita é à Casa Vovó Catarina, terreiro que começou em maio de 2022 como um grupo de estudos na casa de sua fundadora, Regina. Poucos meses depois, em agosto, a comunidade passou a ocupar um espaço no Dublin Industrial Estate, próximo de Broombridge.
A escolha de um imóvel em área industrial tinha uma razão prática: os encontros envolvem cantos, movimento e horários que nem sempre combinam com as restrições de um prédio residencial. O novo espaço também permitia receber mais pessoas e encerrar as atividades sem a mesma pressão de vizinhos.
Regina descreve a Umbanda como uma tradição transmitida oralmente, na qual cada casa traz características de sua linhagem sacerdotal e ancestral. Por isso, dois terreiros podem ter práticas diferentes sem que um seja considerado superior ao outro.
Ela também relata que encontrou mais curiosidade do que preconceito entre irlandeses. A casa recebia brasileiros em busca de fé e pertencimento, mas também pessoas que nunca tinham participado de uma gira. A missão é resumida no vídeo como a vontade de oferecer um lar para quem está fora do seu lar.
Veja a reportagem completa sobre a Casa Vovó Catarina.

O que as quatro comunidades têm em comum?
As diferenças teológicas e rituais são grandes, mas as entrevistas revelam pontos em comum. Em todos os espaços, a comunidade é tão importante quanto o prédio. São voluntários, líderes e frequentadores que acolhem quem acabou de chegar e ainda tenta entender como viver na Irlanda.
Fé na língua em que a pessoa aprendeu a acreditar
Na missa e na igreja protestante, o português é parte essencial da experiência religiosa. Na sociedade espírita, a opção pelo inglês mostra o outro lado da mesma questão: a linguagem pode preservar uma identidade, mas também pode abrir portas para o diálogo com o país que recebeu o imigrante.
Uma rede para os momentos difíceis
As conversas mencionam problemas bastante concretos: solidão, distância da família, trabalhos cansativos, adaptação cultural e falta de referências. A comunidade religiosa não resolve automaticamente esses desafios, mas pode impedir que a pessoa os enfrente completamente sozinha.
Tradições brasileiras adaptadas à realidade irlandesa
O cinema transformado em igreja, o centro espírita que se comunica em inglês e o terreiro instalado em uma área industrial mostram como as tradições se reorganizam. A religião atravessa o oceano, mas precisa lidar com imóveis caros, regras locais, novos públicos e uma sociedade culturalmente diferente.
Um retrato das religiões dos brasileiros na Irlanda em 2024
O vídeo de Bolder não tenta escolher uma crença nem produzir um guia definitivo. Ele registra como quatro comunidades funcionavam em Dublin e permite que seus próprios integrantes expliquem o que encontraram ali.
Mais do que templos, as visitas mostram lugares de memória, acolhimento e reconstrução. Para quem imigrou, poder rezar, cantar, estudar ou conversar em comunidade pode ser uma forma de recuperar parte da vida deixada no Brasil — e, ao mesmo tempo, começar a criar raízes na Irlanda.
Assista ao vídeo completo no topo da página para conhecer os espaços, ouvir os responsáveis por cada comunidade e ver como essas experiências se conectam à vida dos brasileiros no país.
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