Construir uma carreira como cantor brasileiro na Irlanda exige muito mais do que subir ao palco. No Bolder Podcast 85, JP Ribeiro conta como conciliou trabalhos pesados no interior do país, a separação da família e o investimento do próprio salário para produzir músicas e shows de forró.
A conversa com Bolder também mostra uma Irlanda distante da rotina dos estudantes em Dublin. JP viveu em cidades menores, trabalhou com coleta de resíduos, turfa, produção de leite, marcenaria e criação de gado enquanto desenvolvia seu projeto musical.
Da capoeira ao forró: como JP Ribeiro começou na música
JP não começou diretamente no forró. Criado na Zona Sul de São Paulo, na região de Campo Limpo e Capão Redondo, ele teve o primeiro contato prático com música aos seis anos, por meio da capoeira. O desejo de tocar berimbau, pandeiro e atabaque ajudou a vencer a timidez de cantar diante de outras pessoas.
Mais tarde, na Casa do Zezinho, teve a oportunidade de estudar cavaquinho e bateria. A escolha fazia sentido: o pai, o irmão e outros parentes já tocavam, e a família tinha uma ligação forte com samba e pagode.
O forró veio de outras referências. A mãe baiana ouvia bandas como Calcinha Preta e Magníficos, e JP costumava imaginar versões em forró das músicas ensaiadas na igreja. Ele passou aproximadamente nove anos envolvido com música religiosa, cantando e tocando bateria, sem abandonar o cavaquinho e o pagode.
A mudança de São Paulo para Anápolis
Entre os 18 e 19 anos, depois de frustrações profissionais e pessoais, JP decidiu deixar São Paulo. Morando sozinho e com poucos bens, vendeu até o guarda-roupa para comprar uma mala e se mudou para Anápolis, em Goiás, onde o pai e o irmão já viviam.
Foi em uma igreja de Anápolis que ele conheceu Diane, sua futura esposa. O pai dela já havia vivido na Irlanda e, quando o casal enfrentava dificuldades financeiras após o nascimento prematuro do primeiro filho, surgiu o convite para tentar a vida no exterior.
A chegada à Irlanda e a separação da família
A viagem deveria durar apenas 15 dias. JP entrou no país com carta-convite, mas relata que passou entre duas e três horas sendo questionado na imigração. Sem falar inglês, dependia do sogro para compreender o que estava acontecendo. Depois da intervenção de um supervisor e da confirmação do responsável que os receberia, os dois foram liberados.
O plano mudou e JP permaneceu na Irlanda. Primeiro viveu em Roscommon e depois em Tuam, no condado de Galway. A esposa e o filho pequeno ficaram no Brasil enquanto ele trabalhava e economizava para reuni-los novamente.
A primeira tentativa terminou de forma traumática: Diane e o filho foram impedidos de entrar por Dublin e enviados de volta. JP conta que havia passado um ano juntando dinheiro para as passagens. Na segunda tentativa, depois de buscar orientação jurídica e organizar melhor a documentação da viagem, a família conseguiu se reencontrar.


Os trabalhos pesados que financiaram um novo começo
Coleta de resíduos e trabalho com turfa
Para trazer a família, JP trabalhou na coleta de resíduos e também com turfa, material retirado de áreas conhecidas como bogs e usado como combustível. O serviço consistia em virar e organizar manualmente longas fileiras de blocos para que secassem dos dois lados.
Era um trabalho especialmente pesado para as costas e as pernas. Depois de aprender a medir os terrenos e calcular o preço, ele passou a negociar diretamente com proprietários rurais. Assim conseguiu aumentar a renda, embora deixe claro que não recomenda o serviço pela exigência física.
Ordenha de centenas de vacas em Cork
Em outro momento, JP foi para Cork trabalhar em uma fazenda leiteira. A rotina envolvia duas ordenhas diárias de cerca de 350 vacas, além da preparação das áreas onde os animais ficavam. A acomodação era um trailer sem cobrança separada de aluguel, mas o frio e a falta de horário definido fizeram com que ele permanecesse apenas duas semanas.
Depois, voltou a trabalhar na profissão que já exercia no Brasil: marcenaria e instalação de móveis planejados. Como o empregador também mantinha uma fazenda, JP ajudava a limpar instalações, alimentar o gado e até acompanhar partos de bezerros.
Vale a pena morar no interior da Irlanda?
A experiência de JP oferece uma resposta diferente para quem pergunta se vale a pena morar no interior da Irlanda. Na época do episódio, ele pagava €550 por uma casa de dois andares e três quartos — um valor citado como exemplo pessoal daquele período, não como referência atual de mercado.
Para ele, cidades próximas de Galway podiam oferecer custo de moradia menor e oportunidades em fazendas, fábricas e serviços locais. O outro lado era a dependência de carro, o número reduzido de escolas de inglês e a necessidade de adaptação a trabalhos que muitos imigrantes nunca haviam considerado.
Como nasceu a carreira de cantor brasileiro na Irlanda
A decisão de profissionalizar a música surgiu quando JP assistiu a uma entrevista do cantor Aldair Playboy no programa de Danilo Gentili. Ao ouvir o artista falar sobre persistência, concluiu que precisava começar em vez de continuar apenas planejando.
Naquela mesma fase começou a compor com foco no forró estilizado. Uma das primeiras músicas foi “Procurando Você”, que ganhou videoclipe gravado em Dublin. JP buscou produtores no Brasil e encontrou uma forma de trabalhar a distância: gravava voz e violão no celular, enviava a referência e depois registrava a voz definitiva em estúdio na Irlanda.
O dinheiro para produção, clipes e divulgação vinha dos trabalhos na fazenda e na marcenaria. Sem empresário, ele aprendeu por conta própria a distribuir músicas nas plataformas e a organizar o projeto artístico.
“Atualizei, bebê” e a busca por um público além do Brasil
“Atualizei, bebê” foi a única música de outro compositor no repertório apresentado durante a entrevista. JP comprou uma licença de uso sem exclusividade e incluiu um trecho em inglês, pensando também nos irlandeses e em pessoas de outras nacionalidades que frequentavam festas brasileiras.
Ele também comenta que suas músicas já apareciam em reproduções na Irlanda, no Brasil, na França e na Itália. Para ultrapassar a barreira de divulgação, reconhecia que não bastava gravar bem: era preciso entender marketing, incentivar compartilhamentos e manter consistência.
Shows de forró na Irlanda e a valorização dos músicos
JP relembra apresentações em Galway, Dublin, Gort e Castlebar. Seu primeiro show aconteceu quase por acaso: ele faria apenas uma participação, mas o artista principal faltou. Como havia preparado cerca de 15 músicas, assumiu a apresentação e percebeu que queria seguir naquele caminho.
Com o tempo, passou a defender um formato com banda completa. Isso elevava o custo: alguns músicos vinham de Portugal ou de Londres, e era necessário pagar cachê, passagem, hospedagem, alimentação e até um assento separado para transportar a sanfona com segurança.
O ponto central do argumento é a valorização profissional. JP afirma que prefere recusar eventos com orçamento insuficiente a entregar um espetáculo improvisado ou pagar mal aos músicos. Para ter mais controle, criou a BR Music e começou a buscar parcerias com produtores e casas de eventos.
Persistência entre a fazenda e o palco
A história de JP Ribeiro não é apenas sobre fazer forró na Irlanda. É o relato de alguém que saiu de São Paulo com poucos bens, recomeçou em Goiás, atravessou dificuldades migratórias e sustentou um projeto artístico com trabalhos muito diferentes da música.
No episódio, ele resume sua estratégia em consistência: produzir, aprender e continuar investindo mesmo sem garantia de retorno imediato. Assista à conversa completa para conhecer os detalhes dessa trajetória e ouvir JP apresentar trechos de suas músicas.
