Morar no Paraguai passou a chamar a atenção de brasileiros interessados em segurança, menor carga tributária e um custo de vida diferente do encontrado nas grandes cidades do Brasil. Mas a mudança realmente vale a pena? No Bolder Podcast, Talita e Jezer, do perfil Paraguai Real, contam por que trocaram São Paulo por Ciudad del Este e o que encontraram depois da mudança.
A conversa não apresenta o país como uma solução automática. O casal fala de um apartamento maior, sensação de segurança e oportunidades para empreendedores, mas também descreve problemas de infraestrutura, dependência de serviços privados, dificuldade com documentação e o risco de chegar sem renda ou reserva.
O resultado é um retrato mais completo: o Paraguai pode funcionar muito bem para determinados perfis, principalmente quem já possui renda, trabalha remotamente ou leva um negócio estruturado. Para quem pretende sobreviver apenas com o primeiro salário local, a conta exige mais cuidado.
Por que Talita e Jezer decidiram morar no Paraguai?
Jezer trabalha com uma consultoria fitness digital que atende alunos em vários países. Talita já havia morado na Irlanda, trabalhado em banco e vivido também em outros lugares. Depois de se conhecerem e se casarem, os dois passaram um período em São Paulo, mas continuaram interessados em uma experiência internacional.
A discussão começou com os custos da empresa, especialmente publicidade digital, mas a decisão não foi apenas tributária. Eles queriam reduzir despesas, formar patrimônio e preparar a vida financeira para ter filhos. Como o aluguel em Alphaville estava caro para o padrão de imóvel que encontravam, começaram a pesquisar o Paraguai.
O casal não chegou dependendo de emprego imediato. Segundo Jezer, eles calcularam quanto tempo conseguiriam manter a vida se a consultoria parasse de vender e viajaram com uma reserva que cobriria aproximadamente um ano. Essa tranquilidade ajudou a avaliar oportunidades sem a pressão de aceitar qualquer condição.


O custo de vida no Paraguai é realmente mais baixo?
A resposta do episódio é: depende do padrão de vida, da cidade e da renda. Em Alphaville, Talita e Jezer viviam em um apartamento de 48 m² e estimam que aluguel e contas se aproximavam de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Em Ciudad del Este, passaram a morar em um imóvel de aproximadamente 80 m², com dois quartos, três banheiros e varanda, gastando em torno de R$ 6 mil a R$ 6,2 mil com as contas.
A economia nominal, portanto, não foi gigantesca. A principal diferença foi receber mais espaço e morar em uma região considerada segura pagando um pouco menos. Eles também relatam energia mais barata, apesar do uso constante de ar-condicionado, e dizem que alguns edifícios utilizam poços, eliminando a cobrança separada de água.
Esses valores são a experiência do casal no momento da entrevista, não uma tabela de preços do país. Ciudad del Este possui imóveis caros no centro e alternativas mais acessíveis em bairros afastados ou cidades próximas. Quanto mais perto do comércio e da fronteira, maior pode ser a presença de contratos em dólar.
Dólar, guarani e uma conta que pode mudar
Os salários locais costumam ser pagos em guaranis, mas imóveis, negócios e serviços voltados a estrangeiros podem ser negociados em dólar. Quem recebe em reais e assume aluguel em dólar fica exposto ao câmbio, mesmo quando o preço inicial parece atraente.
O casal também observa que nem tudo é barato. Alguns produtos importados ou pouco produzidos localmente custam mais, e eles ainda faziam parte das compras em Foz do Iguaçu. Morar na fronteira permite comparar preços, mas isso não elimina regras alfandegárias nem autoriza transportar mercadorias proibidas ou acima das cotas.
Segurança foi uma das maiores diferenças percebidas
Talita afirma que se sentiu mais segura em Ciudad del Este do que nos outros países em que viveu. Ela e Jezer contam que caminham à noite em sua região e gravam com celular no microcentro sem a tensão que sentiam em São Paulo.
Esse é um relato pessoal, não uma garantia de que toda região seja segura. O próprio casal ressalta que bairros e cidades possuem realidades diferentes. Antes de alugar, vale visitar a área em horários distintos, conversar com moradores e consultar dados locais.
Para Bolder, a possibilidade de circular com menos medo pesa muito na decisão de viver fora. Ao mesmo tempo, o episódio mostra que segurança não pode ser o único critério: renda, documentação, saúde, educação e mobilidade podem tornar a mudança melhor ou pior.
Como funciona a documentação para brasileiros?
Talita e Jezer diferenciam três situações: quem vive informalmente e movimenta dinheiro em espécie; quem obtém residência e cédula para construir uma vida financeira no país; e quem pretende abrir ou transferir uma empresa. Permanecer sem regularização limita acesso a conta bancária, contratos, escola e outras atividades.
No caso deles, o processo foi uma das partes mais problemáticas. O casal relata promessas de prazos que não foram cumpridas, pagamentos extras e informações contraditórias de assessorias. A principal lição é não montar todo o planejamento sobre uma promessa verbal.
Brasileiros podem solicitar a residência temporária pelo Acordo de Residência do Mercosul. Segundo a Direção Nacional de Migrações do Paraguai, a autorização tem validade de dois anos e exige documentos como identidade vigente e antecedentes, entre outros requisitos. A residência não deve ser confundida com a cédula de identidade paraguaia, que faz parte de uma etapa própria.
Em 2026, o Paraguai também atualizou a comprovação de solvência para pedidos de residência permanente. As exigências variam conforme a situação do candidato, incluindo empregados, profissionais, empresários, trabalhadores remotos, proprietários, aposentados e estudantes. Por isso, listas antigas em vídeos podem estar desatualizadas.
Cuidados antes de contratar uma assessoria
- Confira os requisitos diretamente no site oficial de Migrações.
- Peça contrato com serviço, preço e prazo claramente descritos.
- Não entregue documentos sem comprovante.
- Desconfie de garantias de aprovação ou de prazos extraordinariamente curtos.
- Separe residência, cédula, registro tributário, habilitação e abertura de empresa: são procedimentos diferentes.
Impostos mais baixos: o que é verdade e o que precisa de cuidado?
O ambiente tributário é um dos pontos mais atraentes para o casal. Eles destacam a simplicidade e a possibilidade de organizar um negócio com custos menores. Contudo, mudar de endereço não transfere automaticamente uma empresa, não encerra obrigações no Brasil e não torna toda renda isenta.
A Direção Nacional de Ingressos Tributários informa que o Imposto de Renda Empresarial, o IRE, possui alíquota geral de 10% sobre a renda líquida de fonte paraguaia. A incidência concreta depende da atividade, da origem da renda, do tipo de empresa e da residência fiscal dos envolvidos. Saída fiscal brasileira e estrutura societária precisam ser analisadas por profissionais habilitados nos dois países.
O episódio também menciona a Lei de Maquila. O regime realmente prevê um tributo único de 1%, mas não se aplica automaticamente a qualquer pequeno negócio. A legislação atual é voltada a programas aprovados de produção ou serviços relacionados à exportação, com registro, controles e condições específicas.
Em outras palavras, abrir uma empresa comum no Paraguai não significa pagar apenas 1%. O regime de Maquila pode ser interessante para operações enquadradas, mas exige avaliação jurídica, tributária e operacional.
Vale a pena trabalhar como empregado no Paraguai?
Essa é uma das distinções mais importantes da conversa. O Paraguai pode ser atraente para quem chega com empresa, renda remota, profissão demandada ou uma oportunidade já encaminhada. Para quem busca o primeiro emprego depois de desembarcar, o cenário é mais apertado.
Desde julho de 2026, o salário mínimo geral do setor privado é de 3.044.000 guaranis mensais, conforme o Ministério do Trabalho do Paraguai. O valor em reais varia diariamente e não deve ser usado como referência fixa.
Jezer faz uma simulação de um casal com filho recebendo dois salários mínimos. Ao somar aluguel fora do centro, transporte, escola, alimentação, internet, energia e plano de saúde, a família ainda precisaria complementar a renda. A conta é ilustrativa, mas revela um ponto real: custo baixo para quem ganha em moeda estrangeira não significa folga para quem recebe salário local.
O episódio traz exemplos de pessoas que cresceram profissionalmente, incluindo um brasileiro que começou como balconista e se tornou gerente. Mas os convidados atribuem essa evolução a indicação, comunicação, iniciativa e desempenho — não a uma abundância automática de vagas.
Saúde, escola e transporte entram no orçamento
Talita e Jezer são diretos sobre as limitações. Na experiência deles, o transporte público é precário, a saúde pública não atende ao padrão que buscavam e famílias podem precisar de escola particular. Isso altera completamente a comparação com alguém que, no Brasil, utiliza SUS, escola pública e transporte coletivo.
O casal contratou plano de saúde e relata uma experiência positiva com cirurgia particular. Ainda assim, Talita precisou pagar o procedimento porque o plano estava no período de carência. A reserva de emergência permitiu resolver o problema sem adiar o atendimento.
A infraestrutura também aparece como desvantagem. Eles falam sobre alagamentos após chuvas, ruas ruins e interrupções de energia em edifícios sem gerador. O Paraguai produz muita energia, mas isso não significa que a distribuição local seja perfeita.
Ciudad del Este ou Assunção?
O plano inicial era viver em Assunção. O casal alugou um Airbnb por um mês para conhecer a cidade antes de assumir um contrato longo. Ao passar por Ciudad del Este, encontrou contatos e oportunidades comerciais que mudaram o caminho.
Em poucas semanas, parcerias e trabalhos ligados à comunicação fizeram os dois escolherem a fronteira. A experiência reforça uma boa estratégia: testar a cidade em hospedagem temporária, conhecer bairros e avaliar a rotina antes de comprar imóvel ou fechar aluguel à distância.
Ciudad del Este oferece proximidade com Foz do Iguaçu, comércio intenso e uma comunidade acostumada a brasileiros. O português é compreendido em muitos estabelecimentos, embora aprender espanhol seja importante para integração. Em outras regiões, a presença do guarani pode tornar a adaptação linguística mais desafiadora.
Em lazer, os convidados consideram Ciudad del Este limitada. Há bares, restaurantes e natureza, mas menos opções para famílias do que em grandes centros. Eles recorrem também a Foz e mencionam a proximidade com a Argentina.
Para quem morar no Paraguai pode valer a pena?
- Empreendedores com operação compatível: desde que façam planejamento tributário e não confundam benefícios específicos com regras gerais.
- Profissionais remotos: especialmente quem mantém renda estável e entende o risco cambial.
- Pessoas que valorizam segurança e espaço: depois de comparar bairros e custos reais.
- Famílias com orçamento para serviços privados: incluindo saúde, escola e transporte.
- Quem aceita uma infraestrutura diferente: com vantagens e limitações que mudam conforme a cidade.
A mudança tende a ser mais arriscada para quem chega sem documentação, depende de emprego imediato, não fala espanhol, não conhece a cidade e possui apenas uma pequena reserva em reais.
Planejamento recomendado antes da mudança
- Visite o país e teste a cidade em hospedagem temporária.
- Calcule aluguel inicial, garantia, eventual comissão e custos de instalação.
- Monte pelo menos seis meses de reserva, recomendação enfatizada pelos convidados.
- Confirme residência e documentos em fontes oficiais.
- Compare saúde, escola e transporte de acordo com a sua família.
- Defina de onde virá a renda e simule a variação do dólar, real e guarani.
- Procure orientação contábil antes de alterar residência fiscal ou empresa.
Afinal, é melhor viver no Paraguai ou no Brasil?
Para Talita e Jezer, a mudança valeu a pena. Eles ganharam espaço, se sentiram mais seguros, ampliaram contatos e encontraram novas oportunidades. Mas o resultado está ligado ao ponto de partida: renda digital, experiência anterior fora do país, reserva financeira e disposição para empreender.
O próprio casal rejeita a ideia de “terra prometida”. Quem não organiza as finanças pode continuar gastando mais do que ganha em qualquer país. A eleição, a insegurança ou a insatisfação com o Brasil podem servir de gatilho, mas não substituem planejamento.
Assista à entrevista completa para entender os relatos de Talita e Jezer sobre aluguel, documentação, negócios, saúde, mercado de trabalho e a rotina em Ciudad del Este.
Fontes oficiais consultadas
- Migrações do Paraguai: residência temporária Mercosul
- Migrações do Paraguai: comprovação de solvência em 2026
- DNIT: Imposto de Renda Empresarial
- Ministério da Indústria e Comércio: regime de Maquila
- Ministério do Trabalho: salário mínimo vigente desde julho de 2026
Continue acompanhando o Bolder
Histórias reais de brasileiros pelo mundo: imigração, intercâmbio, carreira e vida fora do Brasil.
💥 Recursos para você
Alguns links são de parceiros e podem apoiar o Bolder sem custo adicional para você.
🤝 Parceiros
Conheça as empresas que apoiam o Bolder Podcast.
📱 Mais Bolder
#irlanda #intercambio #imigracao
