Receber um diagnóstico grave longe da família, em outro idioma e dentro de um sistema de saúde desconhecido pode tornar um momento difícil ainda mais solitário. Foi dessa experiência que nasceu o apoio a brasileiros com câncer na Irlanda oferecido pelo Amor Simples de Doar, grupo fundado por Márcia Miranda.
No vídeo “O câncer me fez descobrir minha força”, Márcia revisita uma trajetória que começa muito antes da doença. Ela fala sobre infância, publicidade, imigração, dois cânceres primários descobertos em 2021, uma metástase diagnosticada em 2024 e a rede que hoje reúne pacientes, sobreviventes e voluntários em diferentes cidades irlandesas.
O relato não transforma o câncer em uma história fácil de superação. Márcia ainda faz tratamento, convive com efeitos colaterais e rejeita a imagem da pessoa que precisa ser forte o tempo inteiro. O que ela encontrou foi uma maneira de usar a própria experiência para que outros brasileiros não atravessem o mesmo caminho sozinhos.
Quem é Márcia Miranda?
Márcia tem 62 anos, nasceu em Santa Catarina e vive na Irlanda desde 2010. Antes de emigrar, saiu de uma cidade pequena para trabalhar com publicidade em São Paulo. O sonho profissional veio acompanhado de empregos instáveis, dificuldades financeiras e conflitos em ambientes nos quais ela se recusava a ignorar abusos e injustiças.
Um dos episódios mais duros ocorreu quando, segundo seu relato, o filho de um chefe tentou violentá-la dentro do escritório. Márcia conseguiu escapar e contou o que havia acontecido, mas viu colegas se afastarem e acabou demitida. O episódio reforçou uma sensação que a acompanhava havia anos: ela queria defender pessoas, porém frequentemente terminava isolada por fazer isso.
Depois de outra demissão, em 2010, decidiu recomeçar num lugar onde ninguém a conhecesse. Mudou-se para a Irlanda e passou a trabalhar como cleaner e cuidadora de crianças. Algumas das famílias para as quais trabalhou se transformaram em amizades que permanecem até hoje.
Essa vida aparentemente mais simples não apagou a personalidade que ela descrevia como “briguenta”. Anos depois, Márcia perceberia que a insistência em questionar e proteger outras pessoas seria essencial para o trabalho que viria a desenvolver.


O diagnóstico de câncer na Irlanda
Em 2021, Márcia percebeu um nódulo no pescoço. Não sentia dor nem apresentava outros sintomas, mas o caroço cresceu. A biópsia mostrou que havia câncer, embora o tumor não tivesse começado naquele ponto: os linfonodos indicavam uma doença originada em outra parte do corpo.
A investigação aconteceu durante a pandemia, quando hospitais estavam sob forte pressão. Os médicos encontraram um pequeno tumor na mama, mas as amostras não correspondiam. Isso significava que havia outro câncer, com características diferentes, ainda não localizado.
Depois de diversos exames, a equipe suspeitou das trompas e dos ovários. Os órgãos pareciam normais nas imagens, e a confirmação exigia uma cirurgia para removê-los e analisá-los. Márcia aceitou o procedimento. O resultado mostrou câncer nas trompas e nos ovários, já em estágio quatro.
Ela tinha, portanto, dois cânceres primários: um na mama e outro no sistema reprodutivo. Não se tratava simplesmente de um tumor que havia migrado de um local para o outro. Essa distinção determinou tratamentos diferentes.
Cirurgia, quimioterapia e radioterapia
O câncer de mama desapareceu com a quimioterapia. Para o câncer de trompas e ovários, Márcia passou por cirurgia, novas sessões de quimioterapia e radioterapia. O primeiro ciclo de tratamento durou mais de um ano, e em 2022 a doença estava controlada, sob acompanhamento.
Na entrevista, ela insiste na importância de não ignorar mudanças persistentes no corpo. Isso não significa tentar fazer um diagnóstico sozinho pela internet: um nódulo ou uma dor podem ter diversas causas. A orientação segura é procurar atendimento médico quando algo novo não desaparece ou piora.
Por que Márcia foi vestida de Olaf à quimioterapia?
Antes de iniciar a quimioterapia, Márcia observava o ambiente do hospital e pensava em como atravessaria aquele período. Na primeira sessão, decidiu vestir um macacão do Olaf, personagem de “Frozen”, e levar pirulitos para os outros pacientes.
O marido irlandês atravessou a rua com ela até o St. Vincent’s Hospital, de cabeça baixa pela atenção que a fantasia atraía. Já Márcia entrou na sala, pediu autorização à enfermeira e foi de cadeira em cadeira oferecendo um pirulito e desejando um dia mais leve.
Quando chegou a hora de receber a própria medicação, explicou: “Eu sou uma de vocês”. A partir dali, as fantasias, camisetas com mensagens, biscoitos brasileiros e pequenas brincadeiras passaram a fazer parte das sessões. Outros pacientes começaram a perguntar em que dia ela estaria no hospital.
Não era uma tentativa de fingir que a doença não existia. Márcia queria recuperar algum controle sobre um espaço associado ao medo e, ao mesmo tempo, criar uma conexão com quem estava vivendo algo parecido.
Como nasceu o Amor Simples de Doar
Durante o tratamento, Márcia percebeu que tinha vantagens que muitos imigrantes não tinham: falava inglês, conhecia pessoas na Irlanda e contava com o apoio da família do marido. Começou então a pensar em estudantes e trabalhadores brasileiros que poderiam receber o mesmo diagnóstico sem dominar o idioma ou entender o sistema de saúde.
Ela publicou no Facebook que estava com câncer e deixou o número de telefone para quem precisasse conversar, tomar um café ou receber ajuda. As mensagens chegaram rapidamente. O contato inicial se transformou em um grupo de WhatsApp e, depois, no Amor Simples de Doar.
Segundo Márcia, o grupo reúne atualmente cerca de 110 pacientes e sobreviventes. Há pessoas atendidas em Dublin, Waterford, Limerick, Cork, Galway e Letterkenny, além de seis voluntários trabalhando diretamente com os pacientes.
O apoio pode incluir companhia, tradução, explicações práticas, alimentos, roupas e conexão com serviços. O grupo também produziu uma cartilha em português baseada na experiência de pacientes e sobreviventes, com informações sobre tratamento, efeitos colaterais, Medical Card e questões enfrentadas por estudantes.
Márcia conta que a iniciativa mantém contato com hospitais e instituições como a Irish Cancer Society e a ARC Cancer Support. O projeto está em processo para se tornar uma charity, o que poderá facilitar doações e ampliar a atuação.
O sonho de ter um espaço próprio
Hoje, perucas, materiais e doações ficam guardados em um quarto da casa de Márcia. O próximo objetivo é criar uma sede na qual pacientes possam conversar com privacidade, participar de grupos de apoio e receber atividades como psicologia, fisioterapia, massagem e yoga.
Ela também imagina um espaço silencioso para quem simplesmente precise descansar. A ideia nasceu de uma experiência pessoal: em um dia difícil, Márcia foi acolhida pela Irish Cancer Society e recebeu uma sala onde pôde chorar e ficar sozinha pelo tempo necessário.
A metástase descoberta em 2024
Em 2024, Márcia recebeu um novo diagnóstico: uma metástase entre o rim direito e a coluna, atrás de vasos sanguíneos importantes. A localização torna a cirurgia arriscada, porque uma intervenção poderia comprometer o fluxo de sangue para o rim.
Na gravação, ela estava próxima de completar dois anos em quimioterapia. O tumor diminuiu e permanecia estável, resultado considerado positivo pela equipe médica, mas a pressão sobre os vasos provoca dores. Os efeitos da quimioterapia também se tornaram mais intensos com o tratamento prolongado.
Márcia relata dias de enjoo, baixa imunidade e repouso. Em vez de esconder essa parte, diz que aprendeu a respeitar o próprio corpo. Quando está bem, dedica energia ao grupo; quando não está, permite-se ficar de pijama e descansar.
Quando a rede de apoio cuidou de quem a criou
Ao voltar à sala de quimioterapia depois da metástase, Márcia encontrou uma voluntária com presentes e um vídeo gravado por pacientes e sobreviventes. A mensagem era simples: depois de estar ao lado de tantas pessoas, agora ela não passaria pelo tratamento sozinha.
Esse momento resume o propósito do Amor Simples de Doar. A fundadora afirma que o grupo não depende apenas dela; ela também depende do grupo. O cuidado construído ao longo dos anos voltou na direção de quem o iniciou.
Por que ela não gosta de ser chamada de “guerreira”
Márcia rejeita a palavra “guerreira” para descrever pacientes com câncer. Para ela, a metáfora da guerra cria a impressão de que a pessoa vence ou perde de acordo com a força que demonstrou. A doença não funciona dessa maneira.
Ela chora, sente dor e tem medo. Não quer ser tratada como uma fortaleza nem acredita que todos precisem transformar o diagnóstico numa missão. O Amor Simples de Doar foi a resposta que encontrou para a própria experiência, não uma obrigação imposta a outros pacientes.
Essa franqueza evita uma mensagem comum e injusta: a de que pensamento positivo seria suficiente para controlar um câncer. O acolhimento emocional pode ajudar alguém a atravessar o tratamento, mas não substitui exames, medicamentos, cirurgia ou acompanhamento de uma equipe especializada.
O luto vivido longe do Brasil
Enquanto fazia tratamento, Márcia decidiu não contar aos pais que estava com câncer. O pai enfrentava insuficiência renal e fazia hemodiálise; ela acreditava que a notícia agravaria o estado dele. Durante chamadas de vídeo, usava gorros e cachecóis para esconder a perda de cabelo.
O pai morreu em agosto de 2023. Cinco meses depois, a mãe sofreu um AVC e perdeu a capacidade de andar e falar. Em 2024, seis meses após o AVC, veio a notícia da metástase.
Márcia diz que ver a mãe nessa condição é mais doloroso do que enfrentar a própria doença. A mãe, aos 90 anos, continua sendo uma referência de vontade de viver. A forma que Márcia encontrou de honrar os pais foi continuar ajudando, como eles fizeram ao longo da vida.
Onde buscar ajuda para câncer na Irlanda
A recomendação mais direta de Márcia é não comparecer sozinho a uma consulta na qual possa receber um diagnóstico. Mesmo com intérprete, a presença de alguém de confiança ajuda a ouvir, anotar e processar informações num momento emocionalmente intenso.
O Amor Simples de Doar oferece acolhimento em português e pode ser encontrado também pelo Instagram. O contato com o grupo não substitui o atendimento médico, mas pode ajudar a entender etapas práticas e reduzir o isolamento.
Dentro do sistema irlandês, o paciente normalmente terá uma enfermeira especialista como ponto de contato. Também é possível pedir encaminhamento para um assistente social médico, que pode orientar sobre finanças, Medical Card e outros apoios.
A Irish Cancer Society mantém uma linha de suporte com enfermeiros pelo número 1800 200 700, além de aconselhamento, transporte voluntário e o fundo Travel2Care para pessoas elegíveis que precisam viajar para exames ou tratamento. Os critérios devem ser confirmados diretamente com a instituição.
Se houver uma alteração persistente no corpo ou suspeita de câncer, procure um GP ou serviço médico. Este artigo apresenta a experiência pessoal de Márcia e informações gerais; não oferece diagnóstico nem orientação clínica individual.
Uma história que continua
A trajetória de Márcia não termina com uma cura definitiva nem cabe numa frase sobre “vencer” o câncer. Ela continua em tratamento e ainda enfrenta dias difíceis. O que mudou foi a forma como enxerga aquela disposição antiga de lutar por outras pessoas.
A menina que questionava o bullying, a publicitária que denunciava abusos e a imigrante que recomeçou como cleaner aparecem hoje no trabalho do Amor Simples de Doar. O câncer não criou essa parte da personalidade de Márcia; ajudou-a a encontrar um lugar onde ela poderia ser útil.
Assista ao vídeo completo para ouvir a história nas palavras de Márcia. O Bolder também conversou com ela anteriormente no episódio sobre a criação do Amor Simples de Doar e o tratamento na Irlanda.
Fontes e serviços citados
- Amor Simples de Doar
- HSE: ajuda e apoio para pessoas com câncer
- HSE: apoio financeiro durante o tratamento
- Irish Cancer Society: serviços e benefícios
- Irish Cancer Society: Travel2Care
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