As eleições 2026 na Irlanda produziram um resultado bem diferente da disputa apertada vista no Brasil. No segundo turno, os brasileiros que votaram em Dublin deram 7.194 votos a Lula e 1.776 a Flávio Bolsonaro. Na prática, foram 80,20% dos votos válidos para o candidato do PT e 19,80% para o candidato do PL.
No Bolder Solo 563, gravado no dia seguinte à votação, Bolder analisa esses números, discute por que o voto dos brasileiros na Europa costuma ter um perfil diferente e responde a uma pergunta que sempre reaparece em ano eleitoral: quem mora fora do Brasil deveria continuar votando?
A live também vai além das urnas. O episódio fala sobre a alta do euro, decisões apressadas de imigração, justificativa eleitoral, mercado de trabalho e o fechamento da ICOT College, escola de inglês que entrou em processo de liquidação na Irlanda.
Resultado das eleições 2026 na Irlanda
O segundo turno foi realizado em 25 de outubro de 2026 no Royal Dublin Society (RDS), em Ballsbridge. Segundo os dados da Justiça Eleitoral, 16.725 pessoas estavam aptas a votar na Irlanda e 9.086 compareceram, uma participação de 54,33%.
- Lula (PT): 7.194 votos, ou 80,20% dos votos válidos;
- Flávio Bolsonaro (PL): 1.776 votos, ou 19,80%;
- Brancos: 47 votos;
- Nulos: 69 votos.
A diferença foi de 5.418 votos. No resultado nacional, porém, a eleição foi muito mais equilibrada: Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.
Bolder esteve no RDS durante a votação e já havia mostrado o movimento, a organização e as opiniões dos eleitores em uma reportagem sobre o segundo turno em Dublin. Segundo ele, houve falta de energia e acúmulo de filas pela manhã, mas a situação se normalizou depois.
O eleitorado brasileiro cresceu na Irlanda
O número de eleitores cadastrados na Irlanda aumentou bastante. Em 2022, eram 11.946 pessoas; em 2026, passaram de 16,7 mil. Isso representa um crescimento próximo de 40% em quatro anos.
Mesmo com esse avanço, a abstenção continuou alta: 45,67% dos eleitores aptos não compareceram no segundo turno. O dado é importante porque mostra que os 80,20% refletem os votos válidos de quem efetivamente participou — não a opinião de toda a comunidade brasileira que vive no país.


Por que o voto na Irlanda foi tão diferente?
Na live, Bolder apresenta algumas hipóteses para tentar entender a vantagem expressiva de Lula na Irlanda e em boa parte da Europa. Ele próprio faz uma ressalva importante: são interpretações, não uma pesquisa científica sobre o comportamento eleitoral dos imigrantes.
Uma possível explicação está no perfil da comunidade brasileira na Irlanda. Muitos chegaram como estudantes, são adultos jovens, vieram de grandes centros urbanos e passaram pelos empregos de entrada mais comuns entre imigrantes. Experiências com trabalho precário, adaptação ou xenofobia podem influenciar a forma como essas pessoas enxergam políticas sociais e discursos sobre imigração.
Bolder também menciona o contato com o modelo de proteção social europeu. Quem vive na Irlanda observa benefícios de desemprego, auxílio-doença, habitação social e participação ampla do Estado em diferentes áreas. Isso não significa que todos os residentes apoiem a esquerda, nem que seja possível transportar o modelo irlandês diretamente para o Brasil. Mas essa vivência pode mudar a referência usada por parte do eleitorado para avaliar propostas políticas.
Outros fatores levantados foram a preocupação com a imagem internacional do Brasil, a rejeição aos candidatos e o voto útil. A combinação varia de pessoa para pessoa e não deve ser tratada como uma explicação única.
A Europa votou diferente de outros continentes
Ao comparar os resultados internacionais, Bolder observa que Lula teve desempenho forte em vários países europeus. Na Irlanda e nos Países Baixos, recebeu aproximadamente 80% dos votos válidos; na Alemanha, ficou perto dessa proporção; e também venceu em Portugal, Espanha, França, Bélgica, Itália e Reino Unido.
O comportamento não se repetiu da mesma forma em todos os lugares. Flávio Bolsonaro venceu, por exemplo, nos Estados Unidos, no Japão e no Paraguai. Isso reforça que “o brasileiro no exterior” não forma um grupo político uniforme. O país de residência, o perfil da comunidade e a história migratória local fazem diferença.
Brasileiro que mora fora deveria votar?
Essa é uma das partes mais interessantes do episódio. Bolder reconhece o direito político de quem mantém a cidadania brasileira, mas questiona os custos e a distância entre a escolha e seus efeitos. Quem vive no exterior não sente no cotidiano, da mesma forma, mudanças em serviços públicos, segurança, impostos e economia no Brasil.
Por outro lado, morar fora não elimina os vínculos. Muitos têm família no país, patrimônio, investimentos ou planos de retorno. As decisões do governo brasileiro também afetam passaportes, consulados, relações internacionais, câmbio e a própria possibilidade de voltar.
Há ainda uma questão de escala. Nas eleições de 2026, 918.876 brasileiros estavam aptos a votar fora do país, pouco mais de 0,5% do eleitorado nacional. Portanto, mesmo quando o resultado no exterior é muito diferente, seu peso no total continua limitado.
A votação internacional envolve custos de espaços, urnas, transporte e organização, mas a live não apresenta uma conta oficial do valor gasto no RDS. Por isso, seria precipitado afirmar se a operação é cara ou barata sem dados do Tribunal Superior Eleitoral, do Ministério das Relações Exteriores e da Embaixada.
Não votou? Como justificar no exterior
Quem não votou no segundo turno pode apresentar a justificativa pelo aplicativo e-Título ou pelo Autoatendimento Eleitoral. Para esse turno, o prazo divulgado pelo TSE vai até 8 de janeiro de 2027.
Após o dia da eleição, é necessário anexar um documento que comprove o motivo da ausência, e o pedido ainda será analisado pela Justiça Eleitoral. Quem estava fora do Brasil também pode usar o prazo de 30 dias após o retorno ao país, caso ele seja mais favorável.
Cada turno conta como uma eleição separada. Por isso, quem faltou nos dois precisa regularizar as duas ausências. Manter a situação eleitoral em dia evita dificuldades com serviços eleitorais e outros documentos brasileiros.
O euro subiu: é hora de desistir da Irlanda?
Durante a transmissão, vários espectadores demonstraram preocupação com a alta do euro após o resultado. Bolder evita fazer uma previsão e lembra que o câmbio pode oscilar por expectativa, especulação e decisões econômicas futuras. Para quem pretende viajar apenas daqui a alguns meses, pode haver espaço para observar o mercado; para quem embarca imediatamente, o custo maior já afeta a compra da moeda.
A principal recomendação, porém, é não transformar uma eleição em ordem para emigrar. Mudar de país envolve visto, trabalho, inglês, moradia, escola para os filhos e uma reserva financeira. Uma decisão tomada no calor da disputa política pode criar problemas muito maiores do que aqueles que a pessoa pretendia deixar para trás.
Isso vale especialmente para famílias. Sair do Brasil com crianças sem planejamento, acomodação e documentação é muito diferente de fazer uma viagem individual. Antes de comprar passagem, é necessário pesquisar a cidade, calcular o custo real e entender qual permissão permite estudar ou trabalhar.
ICOT College em liquidação: o que aconteceu?
Outra notícia comentada na live é a crise da International College of Technology (ICOT), escola de inglês com operações em Dublin e Cork. A instituição foi retirada da lista de programas elegíveis para estudantes internacionais e deixou de operar. Poucos dias depois, foi convocada uma reunião de credores para iniciar a liquidação.
Reportagens publicadas na Irlanda indicam que a empresa tinha cerca de 100 funcionários, centenas de estudantes afetados e dívidas de pelo menos €2 milhões. Entre os credores estavam proprietários de imóveis, financiadores, o Revenue, um banco, funcionários e ex-alunos.
Liquidação não significa que todos receberão o dinheiro
Na liquidação, um profissional independente assume o controle, identifica os bens e distribui o valor disponível conforme a prioridade estabelecida na legislação. Custos do processo e credores garantidos costumam aparecer antes de fornecedores comuns. Quando o patrimônio é insuficiente, parte dos credores pode receber apenas uma fração — ou nada.
Para os estudantes, a situação exige mais cuidado do que uma regra simples do tipo “quem começou está protegido e quem não começou perdeu”. Cursos vendidos a estudantes de fora do Espaço Econômico Europeu precisam ter algum mecanismo de proteção ao aluno, mas a cobertura varia.
Ela pode estar ligada ao QQI, a um grupo de escolas ou a uma apólice individual. Em certos contratos, a proteção começa no pagamento; em outros, somente no início do curso. O estudante deve localizar a apólice ou confirmação escrita recebida na matrícula e verificar se tem direito à transferência para outra instituição ou ao reembolso.
Quem foi afetado também deve guardar recibos, contrato, mensagens e comprovantes bancários. Como o processo ainda está em andamento, as orientações podem mudar; vale acompanhar as comunicações oficiais e buscar apoio do órgão de proteção aplicável ao curso.
Intercâmbio na Irlanda continua funcionando?
O fechamento de uma escola não significa que o intercâmbio na Irlanda tenha parado. A maioria das instituições continua operando normalmente. O caso serve como alerta para não escolher apenas pelo menor preço ou pela promessa feita por uma agência.
Antes de pagar, confirme se o programa aparece na lista oficial de cursos elegíveis, qual proteção ao aluno está incluída e quando ela entra em vigor. Peça tudo por escrito. Também é prudente pesquisar o histórico da escola e evitar transferir grandes valores sem entender a relação entre agência, instituição e seguradora.
Trabalho, inglês e adaptação na Irlanda
A parte final do Bolder Solo 563 reúne perguntas da audiência. Um espectador com cidadania europeia cogita Waterford por causa de aluguéis entre €600 e €800. Bolder observa que esses valores podem ser menores do que em Dublin, mas alerta que a cidade oferece menos escolas de inglês e um mercado de trabalho menor.
Outro participante pergunta sobre oportunidades em marketing. A resposta é realista: há vagas, inclusive funções específicas que podem se enquadrar em permissões de trabalho, mas “marketing” como área ampla não garante patrocínio de visto. Currículo adaptado, portfólio, inglês e busca por posições concretas fazem mais diferença do que a profissão escrita de forma genérica.
A live também destaca o valor de atividades coletivas para diminuir a solidão do imigrante. Esportes, grupos religiosos e associações profissionais ajudam a criar amizades e networking. Para quem passa o dia trabalhando ou estudando em outro idioma, ter uma comunidade pode ser tão importante quanto conseguir o primeiro emprego.
O que fica do Bolder Solo 563
O resultado das eleições 2026 na Irlanda mostra uma preferência muito clara entre os eleitores que compareceram, mas não autoriza conclusões fáceis sobre todos os brasileiros no país. O episódio é mais útil quando transforma o número em perguntas: quem vota no exterior, como a experiência de imigração influencia escolhas e que vínculo permanece com o Brasil?
Ao mesmo tempo, as notícias da ICOT e do câmbio lembram que a vida na Irlanda não pode ser reduzida a política. Escolas podem fechar, a moeda pode subir e o mercado de trabalho varia de cidade para cidade. Planejamento, documentação e verificação de informações continuam sendo as ferramentas mais seguras para quem pretende morar fora.
Assista ao Bolder Solo 563 para acompanhar a análise completa, as perguntas enviadas ao vivo e a opinião de Bolder sobre o momento no Brasil e na Irlanda.
Fontes consultadas
- TSE: resultado nacional do segundo turno de 2026
- TSE: votação e justificativa para eleitores no exterior
- Resultado oficial da votação na Irlanda
- ICOS: como funciona a proteção ao estudante na Irlanda
- QQI: guia de proteção ao aluno
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