Câncer de mama na Irlanda: diagnóstico e tratamento de Joana

Joana Angélica Caminha estava trabalhando em dois empregos e havia acabado de conquistar mais estabilidade migratória quando recebeu o diagnóstico de câncer de mama na Irlanda. Maquiadora no Brasil, ela reconstruía a vida como cleaner em um hospital e começava no home care. Então, durante um banho, percebeu algo diferente no peito.

No Bolder Podcast 562, Joana explica como procurou o GP, passou por mamografia, biópsia e tomografia no sistema público e começou a quimioterapia. A conversa também mostra uma parte menos visível do tratamento: o afastamento do trabalho, o medo de uma infecção, a perda do cabelo e a importância de ter alguém presente em cada consulta.

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Este texto relata a experiência pessoal de Joana e não substitui orientação médica. Diagnóstico, medicamentos e tratamento variam de pessoa para pessoa. Quem perceber qualquer alteração na mama deve procurar um GP ou outro profissional de saúde.

Quem é Joana Angélica Caminha?

Joana é de Fortaleza e trabalhou como maquiadora no Brasil. O desejo de viver fora surgiu ainda na adolescência, depois de fazer um trabalho escolar sobre a Itália. Anos mais tarde, veio para a Irlanda após o então marido, mas o relacionamento terminou e ela chegou a voltar ao Brasil por três meses.

Ao decidir retornar à Irlanda, enfrentou outra ruptura: faltando 15 dias para a viagem, o relacionamento chegou ao fim. Com dois filhos no Brasil — um deles autista e com outras necessidades de suporte — Joana precisava decidir se embarcaria ou abandonaria o plano.

Ela estabeleceu para si mesma um prazo curto: teria 24 horas para chorar e, no dia seguinte, começaria a resolver a vida. Na Irlanda, recomeçou com três trabalhos de limpeza. Depois conseguiu uma posição fixa como cleaner em um hospital e foi aprovada para trabalhar também com home care.

Quando o câncer foi descoberto, Joana já trabalhava havia cerca de um ano e meio e conta que o processo relacionado ao seu visto de trabalho estava aprovado. Era justamente o momento em que a vida parecia entrar nos trilhos.

O sinal percebido durante o banho

O primeiro sinal não parecia uma bolinha perfeitamente definida. Joana sentiu uma área estranha, densa e difícil de delimitar. Como o formato não correspondia à imagem que tinha de um nódulo, ela chegou a se perguntar se seria apenas inchaço.

A preocupação aumentou quando percebeu que a região havia crescido. Em determinado momento, sentiu também uma pequena parte arredondada embaixo. Joana procurou o GP que já a acompanhava. Durante o exame, ele identificou três nódulos e disse que seria necessário investigar.

O médico perguntou se ela preferia seguir pelo sistema público ou particular. Joana escolheu o público. Segundo seu relato, os primeiros exames começaram no fim de julho e, em aproximadamente 15 dias, novos procedimentos já estavam sendo solicitados.

Da mamografia ao diagnóstico de câncer de mama

A sequência incluiu mamografia, biópsia e, posteriormente, tomografia computadorizada. A rapidez com que um novo exame era marcado fazia Joana suspeitar que havia algo sério, embora a equipe só pudesse confirmar o diagnóstico depois de reunir os resultados necessários.

Quando recebeu a notícia, ela chorou muito. O medo foi ampliado por um problema antigo de coluna: como sentia dores frequentes, passou uma semana imaginando que o câncer poderia ter se espalhado. Joana descreve a espera pela tomografia como uma das semanas mais longas de sua vida.

Os exames não indicaram metástase. O câncer foi classificado como estágio 2, com comprometimento de linfonodos. De acordo com Joana, o intervalo entre o início da investigação e a definição do plano de quimioterapia foi de aproximadamente um mês e meio.

O caminho descrito por ela é compatível com as etapas explicadas pelo HSE para investigar câncer de mama: avaliação do GP, encaminhamento para uma clínica especializada e exames como mamografia, ultrassom e biópsia. Quando o diagnóstico é confirmado, outros exames podem ser feitos para avaliar o estágio e planejar o tratamento.

Joana Angélica durante entrevista sobre o tratamento do câncer de mama na Irlanda
Joana Angélica fala sobre diagnóstico, quimioterapia, trabalho e rede de apoio durante o tratamento na Irlanda.

Por que Joana decidiu permanecer na Irlanda?

Ao descobrir a doença, Joana considerou voltar para o Brasil. A resposta da mãe foi direta: ela deveria permanecer na Irlanda, porque os exames estavam concluídos e a primeira quimioterapia já tinha data. Viajar, reorganizar a vida e reiniciar o processo poderia atrasar o tratamento.

Joana afirma que foi muito bem atendida pelo sistema público irlandês. No caso dela, o hospital ofereceu transporte para as sessões mediante aviso prévio, apoio psicológico e um cartão para ajudar na compra de uma peruca. Como mora a cerca de dez minutos do local de tratamento e se sente bem para caminhar, ela não precisou usar o carro.

A experiência positiva não significa que todos os pacientes terão exatamente os mesmos serviços ou prazos. O suporte depende da condição clínica, do hospital, da elegibilidade e da avaliação da equipe. Ainda assim, o relato contraria a ideia de que um diagnóstico grave necessariamente deixaria um imigrante sem assistência na Irlanda.

Como foi organizado o tratamento?

Na data da entrevista, Joana ainda estava em tratamento. O plano informado a ela reunia 14 sessões de quimioterapia. As quatro primeiras, chamadas por ela de “químios vermelhas”, aconteceram com intervalos de 15 dias. Depois viria a etapa das sessões que ela chama de “brancas”.

A última quimioterapia estava prevista para 31 de dezembro de 2026, desde que os exames de sangue do dia anterior permitissem seguir o calendário. Depois dessa etapa, a equipe repetiria os exames de imagem e avaliaria a cirurgia. Pequenos marcadores foram colocados durante a biópsia para ajudar a localizar os tumores.

Joana relata que o tumor era sensível a hormônios. Por isso, também iniciou uma medicação para interromper temporariamente a atividade hormonal. Após a cirurgia, a equipe ainda decidiria sobre radioterapia e tratamento hormonal prolongado. Ela ressalta que nada disso deve ser usado como roteiro para outros pacientes: o tratamento depende do tipo, tamanho, estágio e características do câncer.

A realidade dos dias depois da quimioterapia

Joana consegue manter várias atividades, mas descreve os três primeiros dias depois da medicação como pesados. Fadiga extrema, náusea, dores no corpo e nas articulações fizeram parte dessa fase. No segundo dia, recebia uma medicação para estimular a imunidade, que também podia provocar dores.

Por volta do quarto dia, ela costumava recuperar energia. A estratégia era ouvir o corpo: descansar quando não conseguia levantar, manter alimentação e hidratação e retomar caminhadas ou exercícios leves quando se sentia melhor. Em casa, colocou tapetes na sala e usou um programa de exercícios pelo celular.

O principal receio passou a ser uma infecção. Após a primeira quimioterapia, Joana teve calafrios e alteração de temperatura. Davi insistiu para que fossem imediatamente ao hospital. Em poucos minutos, surgiu dor de garganta; exames indicaram inflamação e ela permaneceu internada para receber antibióticos e ser observada.

O episódio mudou sua percepção. Mesmo se sentindo capaz de trabalhar em alguns dias, o oncologista havia orientado afastamento por causa do contato constante com pessoas no hospital. Desde então, Joana passou a evitar ambientes cheios e pessoas gripadas para reduzir o risco de interrupção do tratamento.

O que aconteceu com os empregos durante o afastamento?

Joana recebeu inicialmente um certificado médico de três meses e conversou com os dois empregadores. Segundo ela, as vagas permaneceram disponíveis para seu retorno. Também iniciou o pedido do benefício pago durante a incapacidade temporária para o trabalho.

Na Irlanda, o Illness Benefit depende de certificação médica e do histórico de contribuições PRSI. O pagamento não é automático para todos e não corresponde necessariamente ao salário normal. Quem precisa se afastar deve comunicar o empregador, pedir a documentação médica e verificar rapidamente a própria elegibilidade.

Medicamentos e o Drugs Payment Scheme

Além das medicações administradas no hospital, Joana precisava retirar remédios para controle hormonal, dor, enjoo e outros efeitos. Ela se inscreveu no Drugs Payment Scheme, que limita o gasto familiar mensal com medicamentos e itens aprovados.

Em outubro de 2026, o teto informado pelo HSE permanece em €80 por mês. O programa não exige teste de renda, mas é necessário morar na República da Irlanda e pretender permanecer no país por pelo menos um ano. Nem todo produto comprado na farmácia entra no esquema.

Atendimento em inglês e direito de compreender

Joana define seu inglês como comunicável, mas não fluente. Davi a acompanha nas consultas e ajuda com o vocabulário mais técnico. Mesmo assim, o hospital disponibilizou intérprete de português em duas ocasiões e uma profissional confirmou se as informações estavam suficientemente claras para ela.

Essa parte do relato é especialmente importante para imigrantes. Ter dificuldade com termos médicos não deve levar o paciente a fingir que compreendeu. É válido pedir que a equipe repita, escreva, use linguagem mais simples ou organize apoio de interpretação quando disponível.

O vídeo em que Joana e Davi raspam o cabelo

Joana tinha cabelo cacheado, volumoso e vermelho. Depois da segunda quimioterapia, a queda se acelerou em cerca de 48 horas. Os fios soltos se enrolavam nos cachos e formavam nós difíceis de pentear. Ela pediu uma tesoura, cortou o comprimento e decidiu passar a máquina.

A princípio, não queria filmar. Uma amiga sugeriu registrar o momento. Durante a gravação, Davi também raspou o próprio cabelo sem ter contado antes o que faria. A reação emocionada dos dois transformou o vídeo em uma demonstração pública do apoio que já existia fora das câmeras.

Para Joana, dizer simplesmente que “cabelo cresce” não ajuda. A perda pode afetar profundamente identidade, feminilidade e autoestima. Apoiar significa reconhecer esse luto sem diminuir o sentimento da pessoa.

A rede de apoio que fez Joana permanecer

A mãe e os filhos estão no Brasil, mas Joana encontrou apoio na Irlanda. Amigos telefonaram, ofereceram ajuda prática e até perguntaram se ela precisava de dinheiro. Davi reorganizou as folgas para estar em todas as consultas e sessões de quimioterapia, acompanhou sintomas e ajudou a tomar decisões nos momentos de medo.

No fim da entrevista, ele aparece diante das câmeras. Conta que precisou desenvolver paciência, força e coragem para ser um alicerce. Quando Joana ofereceu a possibilidade de ele ir embora diante de tudo que mudaria, Davi respondeu que ficaria e enfrentaria o processo ao lado dela.

BreastCheck não é a mesma coisa que CervicalCheck

Durante a conversa, os programas de rastreamento aparecem misturados. É importante corrigir: CervicalCheck é o programa de rastreamento do câncer do colo do útero. Ele não inclui mamografia. O programa nacional de mamografia chama-se BreastCheck.

O BreastCheck oferece mamografia de rastreamento para pessoas elegíveis entre 50 e 69 anos e foi criado para quem não apresenta sintomas. Quem percebe um caroço, espessamento, mudança no formato, alteração no mamilo, secreção com sangue ou outra mudança não deve esperar o próximo convite de rastreamento: deve procurar o GP.

O HSE lembra que a maioria dos caroços não é câncer, mas qualquer alteração precisa ser examinada. Dor mamária isolada geralmente não é sinal de câncer. Também existem casos em homens, embora sejam raros; alterações no peito masculino igualmente devem ser avaliadas.

O que não dizer a alguém com câncer?

Joana recebeu comentários atribuindo a doença a raiva, mágoas ou sentimentos guardados. Além de não terem base no diagnóstico dela, essas mensagens transferem culpa para quem já está atravessando um tratamento difícil.

  • Não diga que o câncer apareceu porque a pessoa “guardou mágoa”.
  • Não minimize a queda do cabelo com a frase “é só cabelo, depois cresce”.
  • Não compare tratamentos como se todos os casos fossem iguais.
  • Não imponha positividade nos dias em que a pessoa precisa admitir medo ou cansaço.
  • Ofereça ajuda concreta: acompanhar uma consulta, preparar comida, fazer compras ou simplesmente ouvir.

A mensagem de Joana sobre diagnóstico precoce

Joana não romantiza o tratamento. Ela fala do medo, da internação, da fadiga e do impacto sobre a imagem. Ao mesmo tempo, insiste que receber um diagnóstico não significa estar automaticamente “no corredor da morte”. Seu foco é atravessar cada etapa e reencontrar a mãe, os filhos e os amigos.

A mensagem final é objetiva: observe mudanças no corpo e não adie a procura por atendimento por medo do resultado. Encontrar o câncer cedo pode ampliar as possibilidades de tratamento. O HSE recomenda procurar o GP mesmo quando uma mamografia recente tenha sido normal, caso surja um novo sintoma.

Assista ao episódio completo no topo da página para conhecer a história nas palavras de Joana e entender como ela está vivendo o tratamento do câncer de mama na Irlanda.


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