Empreender na Irlanda parece uma decisão planejada quando o negócio já está consolidado. No caso de Luana Nascimento, fundadora do Vintage Studio em Dublin, o caminho envolveu mudança de carreira, três empregos ao mesmo tempo, sociedade difícil e muito aprendizado na prática.
Do comércio exterior ao intercâmbio em Dublin
Luana trabalhava com administração, logística e comércio exterior no Brasil. Veio para a Irlanda inicialmente para estudar inglês por seis meses, mas foi renovando a permanência enquanto avaliava se voltaria ao Brasil ou faria uma pós-graduação em Portugal.
Durante uma viagem de três meses ao Brasil, surgiu a oportunidade de assumir um ponto comercial na Capel Street, no centro de Dublin. O espaço era um salão nigeriano, todo roxo e decorado com borboletas. Com apoio financeiro do pai e de dois sócios, Luana decidiu entrar no negócio.
Como nasceu o Vintage Studio
O salão abriu em 1º de dezembro de 2016. Luana ainda estava no Brasil e só entrou no espaço quase um mês depois. O nome inicialmente pensado era VIP Studio, mas a existência de uma marca parecida levou ao Vintage — curto, fácil de lembrar e que acabou se tornando parte da identidade de Luana.
O Vintage reuniu barbearia, estética, cabelo feminino e masculino e maquiagem em uma localização cercada por escolas, comércio brasileiro e transporte. A boa localização, porém, também significava aluguel e custos fixos elevados.


Os desafios de abrir uma empresa na Irlanda
Formada na área administrativa, Luana chegou com plano de negócios e projeções para os anos seguintes. O cotidiano logo mostrou outro lado: resolver burocracia sem orientação, atender na recepção, cobrir falta de material, lidar com problemas no imóvel e fazer tudo com uma equipe pequena.
Nos primeiros meses, o salão não se pagava. Durante sete meses, Luana manteve outros trabalhos: atuava como au pair, fazia turnos em café e trabalhava de madrugada em pub. Em um período, chegou a ter três empregos além do Vintage. O estresse foi tamanho que ela perdeu 10 quilos em dois meses.
Sociedade, responsabilidade e caixa
Outro ponto específico da conversa é o desgaste da sociedade. Luana relata que os sócios se afastaram da operação pouco depois de sua chegada, embora ainda perguntassem sobre divisão de lucros. Ela precisou assumir a linha de frente antes de se sentir preparada.
O episódio também desmonta a ideia de que formação acadêmica resolve todos os problemas do empreendedor. Planejamento ajuda, mas não substitui presença diária, controle de caixa, contratação, relacionamento com profissionais e capacidade de reagir quando nada segue a cartilha.
O que fez o negócio virar
O salão começou com poucos clientes por dia, o que dificultava até atrair novos profissionais. Aos poucos, Luana passou a reconhecer o negócio como seu, construir processos e se posicionar como responsável pela marca. O crescimento veio com constância, atendimento e reputação — não com um atalho.
Ela também preferia trabalhar nos bastidores e demorou a aparecer nas redes sociais. Com incentivo da equipe de marketing, começou a mostrar mais a própria história e a criar uma relação mais direta entre a fundadora e o público.
Vale a pena empreender na Irlanda?
A experiência de Luana não produz uma resposta genérica. Empreender pode valer a pena, mas exige capital para atravessar o início, conhecimento da burocracia, disposição para executar tarefas básicas e clareza nas sociedades. O episódio completo mostra o preço pessoal do começo e como o Vintage Studio foi construído no coração de Dublin.
