Construir uma carreira como ator brasileiro na Irlanda não foi um plano que Tad Morari conseguiu seguir imediatamente. Antes de atuar em produções irlandesas e participar do longa de terror Bring Out the Fear, ele fritou batatas e hambúrgueres em feiras e festivais, retomou a profissão de designer gráfico e começou no cinema por cursos, curtas independentes e trabalhos de figuração. No Bolder Podcast, Tad conta como essas etapas se conectaram.
A conversa passa pela mudança para a Irlanda, pelas diferenças entre o ambiente profissional brasileiro e o irlandês e pelos bastidores de uma produção de baixo orçamento. É um relato sobre imigração, mas também sobre o espaço que uma rotina mais equilibrada abriu para um projeto artístico que havia ficado de lado no Brasil.
De Mogi Mirim a uma nova vida na Irlanda
Tad nasceu em Mogi Mirim, no interior de São Paulo, e mudou-se para Campinas por volta dos 20 anos em busca de mais oportunidades. Designer gráfico desde os 18, construiu sua carreira na área e permaneceu quase uma década em Campinas. A ideia de morar na Irlanda apareceu em um momento de transição: ele havia saído de uma startup e recebeu o valor da rescisão.
Em vez de começar imediatamente outro emprego semelhante, decidiu usar o dinheiro para viajar e experimentar algo diferente. Um amigo que havia feito intercâmbio e um primo que já estava na Irlanda tornaram o destino mais próximo. O plano inicial era passar apenas um ano no país. Cerca de um mês depois da chegada, porém, Tad já havia decidido ficar.
Ele chegou em 2014, quando, segundo sua experiência, ainda era mais fácil encontrar acomodação por valores administráveis. Dividia o apartamento com outras cinco pessoas e conseguia se manter mesmo sem ganhar o que recebia como designer no Brasil. A percepção de que poderia ter qualidade de vida e aproveitar melhor o tempo pesou na decisão de permanecer.
O primeiro trabalho: hambúrgueres, batatas e festivais
O primeiro emprego de Tad na Irlanda não foi numa agência. Ele começou preparando hambúrgueres e fritando batatas em barracas que circulavam por parques, feiras e festivais. Em dias comuns, trabalhava principalmente no horário do almoço. Nos grandes eventos, a jornada podia chegar a 12 ou 13 horas, com filas de dezenas de pessoas e várias fritadeiras funcionando ao mesmo tempo.
Nos festivais, a equipe dormia em barracas e recomeçava no dia seguinte. Em algumas ocasiões era possível ouvir os shows ao longe ou ver parte das apresentações, mas o trabalho continuava pesado, quente e repetitivo. A remuneração por hora ajudava a pagar as contas, sobretudo nos fins de semana, porém a falta de uma escala constante dificultava depender exclusivamente da atividade.
Tad ficou menos de seis meses nessa função. Ele não trata o período como algo vergonhoso e resume uma lição importante da imigração: não existe trabalho inferior. Ao mesmo tempo, não transforma o esforço em uma história fácil. Fritar alimentos durante tantas horas, lidar com óleo quente e dormir pouco cobrava um preço físico alto.
A volta ao design gráfico na Irlanda
O retorno à profissão aconteceu por meio da comunidade brasileira. Tad conheceu designers que o indicaram para uma agência, seu primeiro emprego na área na Irlanda. Depois passou por outras empresas e seguiu trabalhando com design, atividade que continuava pagando suas contas quando o episódio foi gravado.
Uma das diferenças que mais o marcou foi a relação com o horário de trabalho. No Brasil, ele havia conhecido a cultura de agência em que ficar depois do expediente era visto como sinal de dedicação. Na Irlanda, viu colegas desligarem o computador no fim do dia e irem para casa. Os problemas com clientes e prazos continuavam existindo, mas havia uma separação mais clara entre vida profissional e pessoal.
Foi justamente essa mudança que criou espaço para a atuação. Tad sempre gostou de cinema e já pensava em fazer teatro ou filmes no Brasil, mas dizia não ter tempo, dinheiro e energia para começar. Na Irlanda, conseguiu reunir os três elementos e decidiu testar se aquele interesse poderia se transformar em trabalho.
Como começar a trabalhar como ator na Irlanda?
Tad não iniciou por uma graduação longa. Procurou um curso de atuação para iniciantes e depois fez workshops específicos, incluindo combate cênico. A formação ajudou a entender o funcionamento de um set e acrescentou habilidades ao currículo, mas a experiência prática veio principalmente de filmes independentes, curtas e projetos estudantis.
O primeiro teste e os projetos sem orçamento
Seu primeiro papel veio em um curta de conclusão de curso. O teste aconteceu de maneira simples: ele encontrou a diretora em um café, recebeu algumas páginas do roteiro e leu as falas enquanto ela fazia o outro personagem. Logo depois, ela perguntou quando ele poderia gravar. Projetos assim muitas vezes não pagavam, mas ofereciam material para o portfólio, contatos e familiaridade com a câmera.
Ele também trabalhou como figurante e explica que esse universo exige paciência. Um dia de gravação pode envolver horas esperando maquiagem, figurino, preparação de cenário e repetição de uma ação que aparecerá por poucos segundos. Em produções maiores, Tad observou uma estrutura profissional capaz de cuidar de transporte, hospedagem e alimentação; nas menores, a mesma pessoa frequentemente acumulava várias funções e mudanças podiam acontecer em cima da hora.
Uma participação pequena em uma série permitiu que ele acompanhasse de perto uma produção de televisão. Mesmo sem uma fala na versão final, fazia parte do elenco, ficou no mesmo hotel dos atores principais e recebeu por três dias um valor superior ao que costumava ganhar no design no período. A experiência confirmou que queria continuar naquele ambiente.
Bring Out the Fear: um longa de terror gravado na Irlanda
O primeiro longa-metragem de Tad foi Bring Out the Fear, um filme de terror irlandês concentrado basicamente em dois atores. A história acompanha um casal numa floresta, com a sensação crescente de que existe algo ameaçador naquele ambiente. O formato exigia que Tad e a outra protagonista sustentassem grande parte da narrativa.
As filmagens aconteceram no fim de 2019 e duraram aproximadamente duas semanas. A equipe utilizou áreas muito próximas umas das outras, mas com árvores e paisagens diferentes, criando a impressão de que os personagens percorriam uma floresta extensa durante vários dias. Como o orçamento era reduzido, todos precisavam ser rápidos e eficientes.
A produção ainda tinha cenas pendentes quando a pandemia interrompeu o trabalho. O diretor perdeu o emprego e precisou priorizar outros projetos, o que atrasou a finalização. Quando ficou pronto, o longa estreou no FrightFest, em Londres, um festival dedicado ao cinema de terror. Tad conta que o filme recebeu comentários positivos, inclusive sobre sua atuação, e depois ganhou uma sessão em Dublin no período de Halloween.
Embora o longa fosse claramente uma produção independente, Tad destaca a direção, a fotografia e principalmente a edição. Para ele, atuar em terror foi divertido e mostrou como criatividade e planejamento podem compensar parte das limitações financeiras.
Dá para viver de atuação na Irlanda?
Tad é direto: poucas pessoas conseguem viver exclusivamente de atuação. Por isso, continuou trabalhando como designer enquanto buscava testes e novos papéis. A pandemia interrompeu uma fase em que os projetos estavam avançando e o levou a aceitar mais trabalhos de design, feitos de casa, até que as produções audiovisuais começassem a retomar as atividades.
O objetivo não era abandonar uma profissão pela outra de maneira impulsiva, mas recuperar o ritmo que havia alcançado antes das paralisações. A boa recepção do longa funcionava como um novo cartão de visitas. Cursos, curtas, figuração, contatos e um papel de maior responsabilidade formaram uma sequência de passos, não um sucesso repentino.
Uma carreira construída sem desprezar o começo
A trajetória de Tad Morari mostra que ser ator brasileiro na Irlanda envolve muito trabalho que acontece antes de aparecer na tela. Ele chegou disposto a recomeçar, enfrentou jornadas exaustivas em barracas de comida, recuperou a carreira no design e usou a estabilidade conquistada para estudar e entrar no audiovisual.
O episódio também ajuda a entender os bastidores: um teste pode acontecer num café, uma diária pode ser quase toda de espera e um filme de duas semanas pode levar anos para chegar ao público. Assista à conversa completa com Bolder para conhecer as histórias de Tad nos festivais, nos sets de filmagem e na vida profissional na Irlanda.
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