Intercâmbio na Irlanda: planejamento, trabalho e a experiência de Maurício Callegaro

Fazer um intercâmbio na Irlanda exige mais do que comprar um curso e embarcar. No Bolder Podcast, Maurício Callegaro conta como transformou a vontade de morar fora em um projeto concreto: pesquisou o mercado, criou um canal para apresentar seu trabalho e chegou a Dublin com uma estratégia profissional definida. A conversa também mostra o choque entre expectativa e realidade, incluindo a passagem por uma casa com 24 moradores e as dificuldades para encontrar acomodação.

O episódio foi gravado durante a retomada das atividades após as restrições da pandemia. Por isso, datas, protocolos, regras de entrada e informações sobre vistos mencionadas na conversa são um registro daquele período e não devem ser usadas como orientação atual. A parte mais duradoura do relato está no planejamento, na adaptação cultural e nas escolhas que ajudaram Maurício a construir sua trajetória na Irlanda.

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Do primeiro intercâmbio à decisão de morar na Irlanda

Nascido e criado em Campinas, Maurício estudou Propaganda e Marketing na Unip e depois fez uma especialização em Marketing Organizacional na Unicamp. Ele já tinha contato com a ideia de viver no exterior por influência do pai, que havia trabalhado nos Estados Unidos e no México e incentivava os filhos a conhecer outras realidades.

A primeira experiência marcante veio em 2009, durante um intercâmbio no Chile. Mais do que conhecer outro país, ele precisou organizar a própria rotina, conviver com pessoas de diferentes nacionalidades e assumir responsabilidades longe de casa. Algumas das amizades criadas naquela viagem continuavam presentes muitos anos depois. Foi ali que nasceu a vontade de repetir a experiência internacional.

O plano, porém, não aconteceu imediatamente. Maurício voltou ao Brasil, concluiu os estudos e trabalhou em publicidade. Mais tarde, passou por uma empresa do setor educacional ligada a marcas de cursos de idiomas e formação profissional. Essa combinação entre marketing, vendas e educação seria decisiva para sua entrada no mercado de trabalho irlandês.

Como ele planejou o intercâmbio na Irlanda

Antes de escolher a Irlanda, Maurício também pesquisou destinos como Canadá e Austrália. Dublin ganhou força pelo custo-benefício considerado por ele naquele momento, pela possibilidade então existente de conciliar estudo e trabalho e pela localização que facilitaria conhecer outros países europeus.

Em vez de viajar sem direção profissional, ele relacionou sua experiência no Brasil às empresas que poderia procurar na Irlanda. Fez uma lista de escolas de inglês e agências de intercâmbio, reuniu contatos e avisou à consultora que havia interesse em trabalhar no setor. Em 2016, ainda antes da mudança, criou um canal no YouTube sobre seu planejamento. O canal também funcionaria como portfólio para mostrar que sabia produzir conteúdo e cuidar de redes sociais.

Dois meses para ganhar confiança no inglês

Ao chegar, Maurício decidiu passar os dois primeiros meses concentrado no inglês. Ele acreditava ter uma boa base, mas percebeu rapidamente a diferença entre estudar no Brasil e compreender sotaques, expressões e interações cotidianas em Dublin. Situações simples, como entender um motorista ou pedir uma bebida em um pub, mostraram que a adaptação linguística também acontece fora da sala de aula.

Depois desse período, procurou a agência por meio da qual havia comprado o curso e apresentou seu interesse profissional. Uma consultora o marcou em uma oportunidade; ele participou de duas entrevistas e foi contratado para a área comercial, vendendo cursos. Quando o episódio foi gravado, já estava havia cerca de quatro anos na empresa. O resultado não veio apenas do currículo: houve preparação, posicionamento e uma tentativa deliberada de entrar numa área compatível com sua experiência.

O choque de realidade ao chegar a Dublin

Antes da viagem, Maurício imaginava uma Irlanda extremamente organizada, muito verde e quase idealizada pelas imagens que encontrava na internet. A chegada trouxe uma visão mais complexa. Ele continuou reconhecendo as qualidades do país, mas encontrou problemas urbanos, diferenças culturais e uma rotina menos perfeita do que havia projetado.

A acomodação temporária da agência foi confortável, especialmente porque ele chegou em fevereiro e encontrou aquecimento e boa estrutura. O contraste apareceu quando começou a procurar um lugar definitivo. Havia muita concorrência por vagas e pouco tempo para decidir. Sem conseguir uma opção adequada antes do fim da hospedagem, aceitou provisoriamente uma casa compartilhada por 24 pessoas.

Como foi morar com 24 pessoas

Maurício dividia o quarto com outras três pessoas. A casa tinha uma cozinha grande, mas os espaços eram disputados e quem chegava por último normalmente ficava com a cama e o armazenamento menos convenientes. Depois de sair do quarto que tinha no Brasil e da privacidade da casa da mãe, ele acordou em Dublin se perguntando o que estava fazendo ali.

O lugar tinha problemas de limpeza e hábitos de convivência muito diferentes, mas também produziu amizades e uma rede de apoio. Com tanta gente reunida, sempre havia alguém capaz de indicar uma vaga de trabalho, avisar sobre outra acomodação ou ajudar quem acabara de chegar. Maurício resume essa fase sem romantizá-la: foi difícil, porém também confirmou que ele queria continuar na Irlanda.

Mais tarde, ele se mudou para uma casa de aproximadamente 30 metros quadrados, dividida por quatro pessoas, e permaneceu ali por dois anos. A troca constante de moradores fez com que ele se tornasse uma espécie de responsável informal pela casa, intermediando aluguel e contato com o proprietário. A experiência mostra por que depósito, prazo de saída e substituição de moradores precisam ser combinados com clareza.

O que pesquisar antes de fazer intercâmbio

Ao falar dos erros mais comuns de estudantes, Maurício destaca a falta de pesquisa. Algumas pessoas chegavam sem compreender o frio, o compartilhamento de casa ou as regras de uma homestay. Numa casa de família, por exemplo, horários para refeições e entrada podem fazer parte da rotina do anfitrião. Quem interpreta qualquer regra como hostilidade perde a oportunidade de entender o contexto cultural.

  • Pesquise fatos e fontes oficiais, sem formar uma opinião apenas por relatos muito positivos ou muito negativos.
  • Prepare uma reserva financeira para os primeiros meses e para despesas como depósito e mudança de acomodação.
  • Relacione sua experiência profissional às empresas que existem no destino e comece a fazer contatos antes do embarque.
  • Esteja preparado para aceitar um trabalho diferente da sua área caso o plano inicial demore a funcionar.
  • Use a comunidade brasileira como apoio, mas procure também conviver com outras nacionalidades e conhecer a cultura local.

A reabertura das escolas no contexto da pandemia

Na parte final do episódio, Bolder e Maurício discutem a reabertura do intercâmbio depois de um longo período de restrições. Naquela fase, escolas precisavam voltar das aulas online para o ensino presencial, adaptar prédios, reorganizar turmas, adotar máscara e distanciamento e acomodar uma quantidade de estudantes que havia crescido enquanto as aulas aconteciam remotamente.

Maurício também reforça um princípio que continua útil: uma agência responsável deve transmitir a informação oficial, e não prometer que uma pessoa terá o mesmo resultado de alguém que conseguiu entrar no país em circunstâncias excepcionais. Em temas de imigração, visto e permissão de trabalho, depoimentos em redes sociais não substituem as regras publicadas pelas autoridades.

Atenção: as datas de reabertura, extensões de visto, exigências sanitárias e percentuais de presença discutidos no vídeo refletem o momento em que a entrevista foi gravada. Para planejar um intercâmbio hoje, confirme todas as condições nos canais oficiais da imigração e da instituição de ensino.

Vale a pena fazer intercâmbio na Irlanda?

A experiência de Maurício não oferece uma resposta universal, mas mostra quais fatores tornaram a decisão viável para ele: formação ligada ao trabalho pretendido, pesquisa prévia, contatos, reserva para o começo e disposição para rever expectativas. Mesmo tendo conseguido uma vaga em sua área, ele chegou preparado para trabalhar em outra atividade se fosse necessário.

Para quem avalia estudar e trabalhar na Irlanda, o principal aprendizado do episódio é planejar sem idealizar. O país pode oferecer oportunidades, amizades e crescimento pessoal, mas a experiência também envolve sotaque, frio, moradia compartilhada, burocracia e adaptação. Assista à conversa completa para conhecer os detalhes da trajetória de Maurício Callegaro e a visão de quem acompanhava estudantes durante um período especialmente incerto do intercâmbio.