Capoeirista na Irlanda: a trajetória de Wesley Tatu

A história de Wesley Tatu como capoeirista na Irlanda começou muito antes da mudança para Dublin. Filho de um praticante de capoeira, ele cresceu ouvindo o berimbau, iniciou os treinos ainda criança e deu suas primeiras aulas aos 14 anos. No Bolder Podcast 377, Wesley conta como transformou essa ligação em um projeto de vida, levou instrumentos na bagagem e construiu uma comunidade com alunos brasileiros e estrangeiros.

A conversa também revela um caminho menos linear do que parece. Antes de viver da capoeira, Tatu trabalhou por dez anos no setor de ortopedia no Brasil. Já na Irlanda, precisou conciliar as aulas com outros empregos, entender regras para trabalhar com crianças e buscar espaços onde pudesse ensinar. O resultado é um trabalho que chegou a escolas, projetos comunitários e competições internacionais.

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A capoeira começou dentro de casa

O pai foi a primeira influência de Wesley. Ele trabalhava em uma metalúrgica e praticava capoeira; quando o filho era pequeno, levava-o aos treinos. O apelido “Tatu” também nasceu nessa época, porque Wesley ficava escondido debaixo da mesa do pai. Em casa, um berimbau pendurado na parede despertava uma curiosidade que ele ainda não sabia explicar.

Na infância, Wesley passava muito tempo na rua e se envolvia em brigas. A mãe tentou direcionar sua energia para o futebol e depois para o karatê, mas o local escolhido oferecia capoeira. Foi ali que a atividade deixou de ser apenas uma lembrança ligada ao pai e se tornou prática constante.

Por volta dos 14 anos, quando começava a se afastar dos treinos, um tio o incentivou a continuar e conseguiu um espaço no quintal de um bar para que ele ensinasse crianças. A turma cresceu tanto que precisou ser transferida para a garagem de outro tio. Assim surgiu seu primeiro projeto social, quando Wesley tinha apenas 15 anos.

Disciplina, mestres e competições

Na adolescência, a orientação de professores e mestres foi decisiva. Wesley destaca regras que o mantiveram longe de drogas, cigarro e bebida, além da cobrança por treino e responsabilidade. Para ele, respeitar a hierarquia não significa abandonar o pensamento próprio, mas reconhecer quem preserva e transmite o conhecimento da capoeira.

Mais tarde, ele passou a treinar com Mestre Peixe Cru. A dedicação levou Tatu a competições em São Paulo e no Rio de Janeiro, com colocações em Jogos Paulistas, jogos de verão, eventos comunitários e uma competição mundial da escola. Mesmo morando fora do Brasil, manteve aulas online e o vínculo com seu mestre.

Anos depois da mudança, voltou ao país com quatro alunos — dois irlandeses, um venezuelano e um brasileiro — para participar de um mundial. O grupo chegou duas semanas antes, visitou rodas e academias históricas de São Paulo, adaptou alimentação e intensificou o condicionamento físico. Wesley conquistou o título de sua categoria e um dos alunos irlandeses chegou à final.

O que o jiu-jítsu e o fisiculturismo acrescentaram

Na Irlanda, a troca com outras modalidades também mudou sua preparação. Quando ainda tinha poucos alunos, uma academia de jiu-jítsu abriu espaço para as aulas e seus praticantes ajudaram em apresentações, vestindo o uniforme de capoeira. Como forma de retribuir, Wesley aceitou competir pela equipe e venceu um torneio. Mais importante do que a medalha foi aprender como organizar um ciclo de treinamento voltado para competição.

Ele também experimentou o fisiculturismo e fez uma preparação curta para subir ao palco. A musculação aumentou sua força, mas trouxe um custo: o corpo mais pesado dificultava flexibilidade, agilidade e movimentos acrobáticos. Por isso, quando uma competição de capoeira se aproxima, ele reduz o treino com pesos e prioriza mobilidade e movimentos específicos.

Essa combinação ajuda a explicar o método aplicado aos alunos que viajaram ao Brasil. Não bastava repetir golpes: o grupo trabalhou resistência, alimentação, adaptação ao clima e contato com diferentes rodas. Para Wesley, competir bem é resultado de preparação e leitura do jogo, sem perder o respeito por quem está do outro lado.

Por que Wesley decidiu levar a capoeira para a Irlanda?

Antes de emigrar, Wesley viveu uma fase de afastamento. Trabalhou como motorista em uma empresa de ortopedia, qualificou-se em instrumentação cirúrgica, tornou-se vendedor e depois gerente. Foram dez anos no setor. A dedicação que antes colocava nos treinos passou a ser concentrada no trabalho.

A mudança de direção aconteceu durante uma reunião de capoeira. Ao ouvir Mestre Peixe Cru citar o esforço de uma praticante que tentava movimentar a arte na Irlanda, Wesley sentiu que a mensagem também servia para ele. Comprou seis berimbaus, atabaque, pandeiro, uniformes e uma passagem. Era sua primeira viagem de avião e ele chegou sem falar inglês.

A recepção não foi simples: a mala com os instrumentos foi extraviada, e o apoio que imaginava encontrar demorou a se concretizar. Nas primeiras semanas ficou em um hostel; depois, um casal de colegas ofereceu um quarto. A confiança nasceu quando perceberam que Wesley estava realmente comprometido com a namorada que permanecera no Brasil e com o propósito da viagem.

Como começar a dar aulas de capoeira na Irlanda

Wesley e uma colega começaram procurando centros comunitários e espaços esportivos onde pudessem apresentar o projeto. Foi então que ele percebeu que vontade e experiência não bastavam. Para trabalhar com crianças, era necessário passar pelo Garda Vetting, processo de verificação conduzido por meio de uma organização registrada. Também havia exigências de seguro e regras próprias de cada espaço.

Algumas academias ou estúdios já oferecem determinada cobertura; em outros casos, o professor precisa contratar seguro adequado. Até uma roda em parque ou apresentação na rua pode depender de autorização. Tatu lembra que o grupo já foi impedido de tocar instrumentos no St Stephen’s Green por causa das regras locais de ruído e uso do espaço.

Por isso, ele dá uma orientação prática a quem sonha em viver de capoeira na Irlanda: tenha outra fonte de renda no início. Formar uma turma leva tempo, especialmente quando o público local ainda conhece pouco a atividade. O crescimento depende de constância, documentação e confiança construída com alunos, pais e instituições.

Da roda ao trabalho em escolas irlandesas

O projeto ganhou força durante a pandemia, quando Wesley começou a tocar berimbau em encontros de exercício ao ar livre. A música atraía pessoas e criava uma roda espontânea. Com o tempo, vieram aulas regulares em estúdio no centro de Dublin e a expansão para outra cidade.

Uma parceria iniciada com Marcela, ligada à organização Five Lamps, abriu as portas de escolas e projetos comunitários. As aulas aconteciam durante o período escolar, com turmas diferentes e aproximadamente 45 minutos de atividade. Algumas instituições eram só para meninas, refletindo um modelo ainda presente no ensino irlandês.

O impacto apareceu quando uma ex-aluna, já adolescente, procurou Wesley quatro anos depois para voltar a treinar. Para ele, esse retorno mostrou que uma aula breve pode deixar memória e criar vínculo com a cultura brasileira. O trabalho também recebeu visitas de autoridades locais e representantes brasileiros.

Um ambiente acolhedor para mulheres

Wesley relata um aumento da participação feminina e atribui parte disso ao cuidado com o ambiente. Ele orienta seus alunos a respeitarem quem chega apenas para praticar, sem transformar a aula em espaço de paquera insistente. Para muitas alunas, a academia tornou-se um lugar de treino, amizade e conversa, onde elas se sentem à vontade para permanecer.

A experiência com uma criança autista

Em um projeto de after-school, Tatu pediu orientação para trabalhar de forma mais adequada com crianças autistas. Com apoio da equipe e contato com uma profissional brasileira, passou a estudar aspectos sensoriais e a necessidade de conversar com os pais antes das atividades.

Ele recorda uma aula em que conduziu uma criança por um exercício simples de equilíbrio e coordenação, adaptando o movimento e pedindo permissão antes do contato. A reação emocionada da mãe marcou Wesley. O relato representa uma experiência pessoal e não coloca a capoeira como tratamento para o autismo; ele próprio reconhece que ainda está aprendendo e precisa de orientação especializada.

Capoeira, união e identidade brasileira

Tatu participa da organização da apresentação de capoeira no Brazilian Day, ao lado de outros professores e mestres. O encontro anual consegue reunir grupos diferentes, mas ele gostaria que a colaboração acontecesse com mais frequência. Sua proposta é criar rodas regulares e uma equipe capaz de disputar competições europeias representando a Irlanda, independentemente da escola de origem de cada participante.

Um dos momentos mais fortes foi a participação no lançamento de uma associação brasileira. Wesley tocou berimbau enquanto a cantora Dani interpretava o Hino Nacional. Ao ver brasileiros emocionados, compreendeu como a capoeira funciona como ligação com o país de origem. Não se tratava apenas de uma performance, mas de ocupar um espaço institucional com uma expressão cultural criada no Brasil.

A união, porém, exige mediação. O convidado fala abertamente sobre rivalidade, vaidade e jogos que se tornam mais duros do que o necessário. Como capoeira também envolve luta e contato, a adrenalina pode transformar uma disputa em conflito pessoal. Para Wesley, professores mais experientes precisam reconhecer o momento de interromper a escalada e preservar a roda.

Os outros trabalhos que sustentaram o projeto

Enquanto construía as turmas, Wesley trabalhou com segurança e chegou à gerência de um hostel de acomodação emergencial. O local recebia pessoas com trajetórias muito diferentes, incluindo trabalhadores, refugiados, ex-detentos e pessoas em situação de dependência. Ele descreve turnos longos, ocorrências médicas e conflitos que exigiam treinamento, diálogo e atenção constante.

Outra lembrança do começo na Irlanda é a casa superlotada em Carrickmines. Wesley e um colega aceitaram cuidar do imóvel em troca de acomodação e ajudaram a montar beliches. Segundo ele, chegaram a viver ali quase 70 pessoas, de várias nacionalidades, com poucos banheiros. Uma reportagem expôs a situação, o local foi fechado e os moradores perderam o depósito. O episódio retrata a vulnerabilidade de quem chega sem inglês e precisa encontrar moradia rapidamente.

Mais do que esporte: um projeto de vida

A capoeira atravessa todas as fases da história de Wesley Tatu. Foi disciplina na adolescência, rede de apoio na imigração, caminho profissional e ponte com outras comunidades. O título conquistado no Brasil teve valor especial porque foi preparado a distância, com a ajuda dos próprios alunos que ele formou na Irlanda.

Hoje, Wesley continua conciliando trabalho, aulas e preparação para avançar à graduação de mestrando. Seu objetivo não é ser “dono” da capoeira irlandesa, mas ampliar a colaboração e garantir que quem ensina respeite a história, a segurança dos alunos e a responsabilidade de representar essa cultura.

Assista ao episódio completo para conhecer a trajetória do capoeirista na Irlanda, desde os primeiros treinos com o pai até as competições, escolas e projetos comunitários que mantêm o berimbau tocando longe do Brasil.