Uma polonesa que ama o Brasil poderia render apenas uma conversa sobre diferenças culturais. Com Anna Kowalska Guimarães, o assunto vai além: ela conta como chegou ao país sem falar português, viveu em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, construiu relações com brasileiros e passou a questionar tanto os estereótipos sobre o Brasil quanto as certezas trazidas da Europa.
Hoje vivendo na Irlanda e próxima da comunidade brasileira, Anna conversa com Bolder sobre espontaneidade, segurança, criatividade, comida, barulho e a sensação de pertencer a mais de uma cultura.
Da Polônia para uma oportunidade na Holanda
Anna nasceu em Częstochowa, no centro-sul da Polônia, a cerca de 160 quilômetros de Cracóvia. Formou-se em Psicologia Organizacional e queria começar a carreira fora do país.
Por meio da AIESEC, encontrou uma oportunidade na Holanda. Foi ali que conheceu o ex-marido brasileiro e começou uma mudança que não fazia parte do plano original.
Até então, suas referências sobre o Brasil eram as mais conhecidas: futebol, Carnaval e arroz com feijão. A novela Escrava Isaura, exibida na Polônia, também fazia parte do imaginário de gerações anteriores — Anna brinca que houve quem quisesse juntar dinheiro para libertar a personagem.
Como foi chegar ao Brasil sem falar português
Anna não falava o idioma quando chegou. Parte do aprendizado aconteceu na convivência cotidiana, observando vizinhos e se expondo a situações nas quais precisava se comunicar.
Em Belo Horizonte, primeiro viveu em um bairro simples. Uma vizinha estranhou a casa sem televisão e se ofereceu para dar um aparelho para que ela pudesse assistir às novelas. Para Anna, o episódio resume a proximidade que encontrou: as pessoas entravam na vida umas das outras com naturalidade.
Mais tarde, ao morar em uma região de padrão mais alto, percebeu menos contato com os vizinhos. A comparação desfez a ideia de que conforto material produz automaticamente maior sensação de comunidade.
O Brasil visto além do medo
A segurança aparece sem romantização. Anna reconhece os riscos e conta que o noticiário aumentou sua percepção de perigo à medida que aprendia português. Ao mesmo tempo, recusa a ideia de que toda experiência no país será definida pela violência.
Ela lembra de uma corrida de táxi em que não conseguiu pagar porque o motorista não aceitava cartão. Em vez de abandoná-la na rua, ele a deixou entrar no prédio e dispensou o pagamento. Em viagens ao Rio, também usou redes de hospedagem com pessoas desconhecidas, apesar do receio de quem a acompanhava, e teve boas experiências.
O argumento de Anna é que estatísticas importam, mas não substituem relações reais. Ela própria testemunhou um crime grave quando criança em uma cidade polonesa considerada segura. O caso isolado não definiu toda a Polônia, assim como um episódio positivo não apaga os problemas do Brasil.
O que uma polonesa admira nos brasileiros?
Anna destaca a criatividade para resolver problemas com poucos recursos. Em viagens pelo Nordeste, observou crianças transformando garrafas PET em brinquedos e associou essa capacidade de improviso à maneira como brasileiros constroem oportunidades no exterior.
Ela também se identifica com a espontaneidade e com a facilidade para conversar. Na Polônia e na Noruega, sentiu em alguns ambientes uma pressão maior pelo silêncio e pelo comportamento padronizado. No Brasil, encontrou mais liberdade de expressão — embora reconheça que barulho sem limite também invade o espaço do outro.
A conversa procura justamente esse meio-termo: organização sem rigidez, liberdade sem desrespeito.
Da experiência brasileira à vida na Irlanda
Anna viveu anos no Brasil, trabalhou online com coaching e também como professora de inglês. O sobrenome Guimarães e a fluência em português mostram que a relação com o país não ficou restrita a uma viagem.
Na Irlanda, ela mantém contato com brasileiros e observa semelhanças e contrastes entre as três culturas. A experiência migratória não apagou sua origem polonesa; ampliou o repertório com o qual ela interpreta trabalho, vizinhança, segurança e pertencimento.
Por que Anna ama o Brasil?
Não é porque considere o país perfeito. Anna gosta das pessoas, da curiosidade, do humor e das maneiras inesperadas de criar vínculos. Seu olhar é interessante justamente por combinar afeto e crítica.
No episódio completo, Bolder explora ainda as diferenças de comida, comportamento e vida cotidiana. É uma conversa sobre o Brasil vista por alguém que deixou de observá-lo como turista e passou a vivê-lo por dentro.
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