Ator brasileiro na Irlanda: a carreira de Rodrigo Ternevoy

Rodrigo Ternevoy construiu uma carreira como ator brasileiro na Irlanda depois de deixar auditoria e contabilidade para começar novamente como figurante. No Bolder Podcast, ele conta como entrou na Bow Street, conseguiu uma agente e transformou uma participação de três semanas em mais de cinco anos e cerca de 400 episódios na novela irlandesa Fair City.

A conversa também passa pelo sotaque, pelas negociações conduzidas por agentes, pelo filme O Velho Fusca, por uma participação em Irish Wish e pela mudança para a Inglaterra. Acima de tudo, Rodrigo apresenta a atuação como uma carreira de estudo, incerteza e muitas rejeições.

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Antes de ser ator, Rodrigo trabalhava com finanças

Rodrigo formou-se em Administração Financeira e entrou como trainee no Citibank, em São Paulo. Permaneceu no banco por aproximadamente cinco anos e tinha uma carreira promissora, mas sentia falta de espaço para criatividade.

Uma diretora o incentivava a fazer intercâmbio porque o inglês limitava seu crescimento no banco norte-americano. Rodrigo adiou o plano até viver um episódio difícil: foi vítima de um sequestro-relâmpago. Sem entrar em detalhes no podcast, ele diz que a experiência acelerou a decisão de viajar.

A chegada à Irlanda em 2008

Entre Malta, Estados Unidos, Austrália e Irlanda, escolheu um país sobre o qual sabia pouco. Chegou a Dublin em março de 2008 e ficou em um hostel perto do rio Liffey.

Seu inglês, segundo ele, mal passava de cumprimentos. Três meses depois, conheceu David, o irlandês que se tornaria seu marido. A convivência com familiares e amigos locais acelerou o aprendizado. Até ligações para conectar internet, gás ou eletricidade ficavam sob a responsabilidade de Rodrigo para que praticasse.

Os primeiros trabalhos incluíram uma semana como garçom em uma corrida de cavalos e três anos e meio em uma loja de roupas. Ainda pensando numa carreira corporativa, fez pós-graduação em contabilidade e entrou na Deloitte como auditor e contador.

Por que ele deixou uma carreira estável?

Aos 28 anos, Rodrigo percebeu que não estava bem. Ele recorda um dia em que acordou chorando antes do trabalho. David observava a infelicidade e perguntou por que ele não tentava atuar, desejo que continuava presente desde o Brasil.

A decisão não foi simples: ele já tinha experiência, salário e uma carreira construída como estrangeiro. Mesmo assim, pediu demissão, passou um período no Brasil e, ao voltar, começou a preparar a transição profissional.

O que a figuração ensinou sobre atuar na Irlanda?

Rodrigo não se apresentou como ator depois de um curso curto. Cadastrou-se numa agência de figurantes e passou cerca de dez meses observando sets, aprendendo a rotina das produções e conversando com outros profissionais.

Ele explica que a figuração é uma boa porta para conhecer o funcionamento de um set, mas raramente leva diretamente a um papel. O mais comum é que o candidato use essa experiência para entender a indústria, estudar e construir material profissional.

A formação na Bow Street

Durante os trabalhos como figurante, Rodrigo pesquisou escolas voltadas a cinema e televisão. Candidatou-se à instituição que havia sido chamada The Factory e, após uma reformulação, tornou-se Bow Street, em Smithfield.

O processo incluiu análise, entrevista e teste. Ao final da formação, os alunos apresentaram cenas em um showcase assistido por diretores e agentes. Rodrigo recebeu duas propostas de representação e escolheu a agente Alex Cusack, com quem ainda trabalhava na época da entrevista.

Qual é o papel de um agente?

O agente não apenas encontra testes. Também acompanha o mercado, apresenta o ator, negocia contrato, cachê e condições. Rodrigo cita uma produção da Disney em que sua representante conseguiu melhorar a negociação com base na experiência acumulada.

Existem exceções e chamadas abertas, mas ele considera a representação um sinal de profissionalismo e uma ponte importante entre ator e indústria.

Como Rodrigo entrou em Fair City?

Fair City está no ar na televisão irlandesa desde 1989. Rodrigo entrou em 2016 para interpretar Cristiano San Martin, um chileno que chegava à cidade fictícia de Carrigstown procurando o irmão.

O personagem deveria aparecer durante apenas três semanas. A recepção do público, a relação com a equipe e o desenvolvimento dos roteiros ampliaram sua participação. Cristiano tornou-se dono de um café e viveu tramas de comédia, luto, relacionamentos e violência.

Rodrigo permaneceu até 2022, por pouco mais de cinco anos, e calcula ter gravado cerca de 400 episódios. Quando se mudou da Irlanda para a Inglaterra, encontrou o primeiro e o último roteiro e decidiu guardá-los como marcas da trajetória.

A trama sobre violência doméstica em um casal LGBT

Uma das histórias de maior repercussão colocou Cristiano numa relação abusiva. Rodrigo relata que abordar violência doméstica em um casal LGBT na televisão irlandesa teve grande impacto. A audiência levou a produção a dedicar um episódio inteiro apenas aos dois personagens, algo incomum na estrutura da novela.

O julgamento do agressor também provocou forte reação. Segundo Rodrigo, houve espectadores diante da emissora reclamando do resultado da trama. Foi quando ele percebeu de forma mais clara como o público incorporava o personagem à rotina.

O sotaque limita um ator estrangeiro?

Rodrigo reconhece que não imita sotaques com facilidade. Como chegou à Irlanda aos 24 anos, manteve traços da fala brasileira e costuma interpretar estrangeiros. Para garantir clareza e se adaptar a personagens específicos, trabalhou com fonoaudiólogos e dialect coaches.

Em uma produção da Disney, por exemplo, precisou preparar um sotaque mineiro. A experiência mostra que sotaque não impede uma carreira, mas influencia os papéis considerados plausíveis e pode exigir treinamento específico.

Por que ele saiu de uma novela de sucesso?

Mesmo com estabilidade e grande audiência, o compromisso integral com Fair City dificultava aceitar teatro, filmes e outras séries. Os roteiros chegavam com pouco tempo para memorização e a agenda futura nem sempre era conhecida com meses de antecedência.

Rodrigo pediu para sair no início de 2022. A produção manteve o personagem vivo e deixou a possibilidade de retorno, mas ele queria experimentar outros formatos.

Filmes no Brasil, Netflix e novos projetos

Depois da novela, Rodrigo passou cerca de seis meses no Brasil e gravou O Velho Fusca, com Cléo Pires, Danton Mello, Tonico Pereira, Caio Manhente e Christian Malheiros. Foi sua primeira atuação em português.

Também fez uma pequena participação em Irish Wish, filme da Netflix com Lindsay Lohan. Sua cena foi com o ator Ed Speleers. No episódio, Rodrigo ainda comenta uma série dramática da Disney cujo nome não podia divulgar naquele momento.

Esses projetos são mencionados conforme o estágio em que estavam na entrevista, publicada em janeiro de 2025. Disponibilidade, lançamento e créditos devem ser conferidos nas plataformas e fontes oficiais.

Inglaterra oferece mais oportunidades?

Ao se mudar para a Inglaterra, Rodrigo encontrou uma indústria maior, mas também muito mais concorrência. Na Irlanda, anos de trabalho fizeram com que diretores de elenco já conhecessem seu nome e sua experiência. No novo mercado, precisava reconstruir parte dessa rede.

Ele considera que há mais produções e testes na Inglaterra, inclusive porque uma oportunidade da Disney veio por meio do mercado britânico. Isso não torna a progressão automática: o ator continua dependendo de preparação, perfil adequado ao personagem, contatos e fatores fora de seu controle.

Como lidar com a rejeição na carreira de ator?

Rodrigo descreve a atuação como uma profissão não linear. Um teste excelente pode não resultar em trabalho por causa de idade, aparência, sotaque ou combinação com outro integrante do elenco.

Quando uma rejeição realmente o atinge, ele se permite ficar frustrado por um dia. Depois, procura separar o que pode melhorar — estudo, técnica ou material — daquilo que não controla. Também destaca a importância de reserva financeira e rede de apoio, porque entusiasmo não paga aluguel durante períodos sem trabalho.

A trajetória de Rodrigo Ternevoy mostra que ser ator brasileiro na Irlanda não depende apenas de “ser descoberto”. Foram meses de figuração, formação, agente, preparação de sotaque, centenas de episódios e disposição para recomeçar novamente em outro país. Assista à conversa completa para conhecer os bastidores dessa carreira.