Carreira em TI na Irlanda: de redes a DevOps com Fábio Teixeira

Construir uma carreira em TI na Irlanda não depende apenas de saber programar ou acumular certificações. No Bolder Podcast, Fábio Teixeira mostra como experiência prática, inglês, formação contínua e capacidade de mudar de direção levaram sua trajetória de um pequeno provedor de internet em Minas Gerais até uma posição de Principal Network Engineer na Irlanda.

A conversa passa por infraestrutura, redes, Cisco, cloud, automação e DevOps, mas também revela uma parte menos visível da mudança: o choque com diferentes sotaques, a síndrome do impostor e a adaptação a uma cultura de trabalho com menos horas extras. Fábio ainda explica por que morar fora de Dublin pode fazer sentido para profissionais de tecnologia.

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Contexto: o mercado de tecnologia, os salários, as regras de imigração e as listas de ocupações mudam com o tempo. As experiências e orientações deste episódio representam o período da gravação; antes de planejar uma mudança, confirme os requisitos atuais em fontes oficiais irlandesas.

De Arcos para a área de redes e infraestrutura

Fábio nasceu em Arcos, cidade mineira com cerca de 40 mil habitantes e forte presença da mineração e da indústria ligada ao calcário. Antes de entrar de vez em TI, trabalhou na área administrativa de uma escola do Sebrae e iniciou Sistemas de Informação numa unidade da PUC.

A primeira experiência técnica veio em um pequeno provedor de internet da cidade. Era a época em que conexões por rádio e ADSL ainda exigiam muito trabalho de campo. Fábio comprava equipamentos, instalava antenas, configurava modems e precisava descobrir por que determinado cliente não conseguia receber o sinal.

Os problemas eram extremamente concretos. Um telhado de zinco podia refletir o sinal, uma roupa molhada no varal podia interromper a conexão e uma construção nova podia bloquear a linha de visada entre duas antenas. Essa rotina ensinou algo que continuou útil ao longo da carreira: infraestrutura não é apenas teoria. É preciso observar o ambiente, testar hipóteses e encontrar a causa real da falha.

O provedor também atendia empresas da região, inclusive operações ligadas à mineração. Isso colocou Fábio diante de redes mais importantes e aumentou sua responsabilidade técnica ainda no início da carreira.

O investimento em formação que mudou sua carreira

Por volta de 2004, Fábio decidiu sair de Arcos e ir para Belo Horizonte. A mudança estava ligada a uma pós-graduação em telecomunicações na UFMG e à busca por um mercado maior. Para avançar em redes, ele também investiu em treinamento Cisco.

O custo do curso consumiu quase todo o dinheiro que havia recebido de um acerto trabalhista acumulado em aproximadamente três anos. Ainda assim, ele considera que a decisão fez diferença nas contratações seguintes. A certificação não substituía experiência, mas mostrava iniciativa e domínio de uma base técnica procurada pelas empresas.

Esse ponto é importante para entender a área de infraestrutura. Em desenvolvimento de software, uma certificação nem sempre pesa tanto. Em redes, cloud e segurança, fabricantes e parceiros frequentemente precisam demonstrar que possuem profissionais certificados para participar de projetos, contratos ou concorrências.

CCNA, CCNP e o papel das certificações

No episódio, Fábio explica a progressão das certificações Cisco. O CCNA funciona como uma formação inicial em redes, enquanto o CCNP representa um nível profissional mais avançado. Ele possui CCNP há anos e manteve a credencial atualizada, além de buscar conhecimentos em plataformas como AWS, Google Cloud, Microsoft e virtualização.

A recomendação não é colecionar provas sem experiência. Certificações ajudam a organizar o estudo, validar fundamentos e diferenciar um candidato, principalmente no começo. Para um profissional mais experiente, elas ganham força quando confirmam competências já aplicadas em projetos reais.

Como surgiu a oportunidade de trabalhar na Irlanda

Trabalhar fora do Brasil já era um objetivo antigo. Fábio participou de processos para empresas na Europa, Austrália, Japão, África do Sul e Irlanda. Em algumas entrevistas, o inglês impediu que avançasse. A experiência mostrou que conhecimento técnico sem comunicação suficiente limita as oportunidades internacionais.

Quando estava na TIM Brasil, ele já havia decidido permanecer no país. Foi então que recebeu o contato de uma recrutadora pelo LinkedIn. A empresa irlandesa, anteriormente chamada Neueda e depois integrada à Zinkworks, buscava profissionais com seu perfil.

O processo teve três etapas, incluiu negociação de remuneração e terminou com uma proposta para a Irlanda. A empresa cuidou da documentação ligada ao trabalho e ofereceu acomodação temporária no primeiro mês. Fábio chegou com a vaga definida, em vez de viajar como estudante para procurar emprego depois.

Para quem deseja seguir caminho semelhante, ele reforça duas providências básicas: manter o LinkedIn em inglês e preparar o currículo em inglês. Também recomenda começar as candidaturas antes da viagem. Ter endereço ou telefone irlandês pode facilitar alguns contatos, mas a trajetória dele comprova que uma contratação direta do Brasil é possível para perfis procurados.

Do trabalho com redes à transição para DevOps

Na Irlanda, Fábio foi inicialmente alocado em um projeto da Ericsson em Athlone. A expectativa era apoiar equipes de desenvolvimento com seu conhecimento de redes. Na prática, a empresa já possuía uma estrutura própria e a demanda específica pelo trabalho tradicional de networking era menor do que o previsto.

Em vez de esperar que aparecessem tarefas, ele começou a ampliar sua atuação. Aproximou infraestrutura e desenvolvimento, aprendeu novas ferramentas e direcionou parte da carreira para DevOps. Essa mudança permitiu aproveitar a experiência anterior em redes sem ficar preso a uma função que estava sendo transformada pela automação.

Fábio descreve DevOps como uma combinação entre desenvolvimento, infraestrutura e automação. O objetivo é reduzir trabalhos manuais, padronizar ambientes, implantar sistemas com mais rapidez e monitorar o que acontece depois da entrega.

É possível começar a carreira diretamente em DevOps?

A resposta de Fábio é cautelosa. Embora existam cursos que prometam formar um profissional de DevOps do zero, ele considera mais sólido construir primeiro uma base em infraestrutura ou desenvolvimento. Depois, a pessoa aprende a integrar os dois mundos.

Sem fundamentos, ferramentas como containers, pipelines, cloud e infraestrutura como código podem virar apenas comandos decorados. Quem entende redes, sistemas operacionais ou programação consegue investigar problemas e adaptar a automação quando o cenário foge do tutorial.

Profissionais de redes precisam aprender programação?

Fábio não afirma que todo engenheiro de redes precise se tornar desenvolvedor, mas vê programação como um diferencial cada vez maior. Equipamentos que antes eram configurados um por um agora podem ser provisionados por software. Switches, roteadores, firewalls, servidores e storages fazem parte de ambientes virtualizados e automatizados.

O exemplo usado na conversa é um data center com 200 switches. Configurar manualmente cada equipamento levaria muito tempo e aumentaria a chance de erro. Com automação e processos de zero-touch provisioning, os dispositivos podem receber configurações padronizadas assim que são conectados à rede.

Para quem vem de infraestrutura, Fábio recomenda Python. É uma linguagem relativamente acessível e muito usada para scripts, integração de ferramentas e automação de tarefas. Nem sempre será necessário criar tudo do início: existem bibliotecas e exemplos prontos, mas o profissional precisa entender o código para adaptá-lo ao próprio ambiente.

Ele também cita formatos e ferramentas usados na automação, como YAML, JSON e Ansible. O ponto central não é decorar uma lista de tecnologias, e sim conseguir transformar um processo repetitivo em algo reproduzível, verificável e mais rápido.

Cloud, segurança e especialização

Na discussão sobre cloud, Fábio sugere começar por uma plataforma com grande volume de oportunidades e material de estudo. À época, indicava AWS para construir a base e, posteriormente, aprender Azure ou Google Cloud. Os nomes dos serviços mudam, mas conceitos como computação, armazenamento, redes, permissões e bancos de dados se repetem entre provedores.

Para engenharia de dados, ele também destaca a importância de plataformas de cloud e dos serviços voltados a grandes volumes de informação. A escolha de uma certificação deve acompanhar o tipo de vaga pretendida e as tecnologias usadas pelas empresas-alvo.

Na área de segurança, a conversa passa por testes de invasão, vulnerabilidades e phishing. Fábio lembra que proteção não depende apenas da ferramenta: usuários precisam reconhecer tentativas de fraude, e as empresas precisam trabalhar em camadas. Segurança ofensiva, monitoramento, redes e cloud são áreas relacionadas, mas cada uma exige estudo específico.

Inglês é requisito básico para TI na Irlanda

Um dos momentos mais sinceros do episódio é a descrição das primeiras semanas de trabalho. Mesmo com experiência, Fábio encontrou reuniões com irlandeses, indianos, russos, húngaros, italianos, chineses e profissionais de outras nacionalidades. Cada pessoa trazia sotaque, ritmo e vocabulário próprios.

Além do idioma cotidiano, havia siglas, termos técnicos e discussões de projeto. Em alguns dias, ele voltava para casa abalado e com medo de ser dispensado. A empresa, porém, entendia que a mudança de país exigia adaptação, e colegas brasileiros ajudaram nesse período.

Por isso, Fábio trata o inglês como requisito básico, não como um diferencial extraordinário. Não é necessário falar como um nativo, mas é preciso explicar problemas, fazer perguntas, acompanhar reuniões e escrever com clareza. A parte técnica abre a porta; a comunicação permite permanecer e crescer.

Síndrome do impostor e aprendizado contínuo

Descrições de vagas em tecnologia costumam reunir tantas ferramentas que mesmo profissionais experientes podem sentir que não estão preparados. Fábio viveu essa insegurança na chegada à Irlanda, especialmente ao trabalhar num ambiente internacional e mudar parcialmente de especialidade.

O que o ajudou foi reconhecer a própria trajetória. Ele já havia aprendido tecnologias novas em outras fases, enfrentado problemas de campo e se adaptado a empresas maiores. Não precisava saber tudo no primeiro dia; precisava dominar fundamentos, pedir ajuda quando necessário e continuar aprendendo.

Esse raciocínio também evita um erro comum: abandonar uma candidatura porque o currículo não corresponde a todos os itens da vaga. A empresa pode procurar uma combinação de conhecimento, experiência, capacidade de comunicação e potencial de desenvolvimento, não uma pessoa que marque cem por cento das palavras-chave.

É preciso morar em Dublin para trabalhar com TI?

Fábio mora em Athlone, no centro da Irlanda. A cidade possui presença importante da Ericsson e uma comunidade ligada a tecnologia, engenharia e educação. Para ele, a experiência mostra que as oportunidades não estão restritas a Dublin.

Durante a conversa, aparecem exemplos de empresas em Cork, Limerick, Shannon, Kerry, Galway e cidades menores. Algumas vagas exigem presença local; outras adotam trabalho híbrido ou remoto. O candidato precisa pesquisar onde estão os empregadores da sua especialidade, em vez de presumir que todo o mercado está na capital.

Morar no interior também muda o custo e o estilo de vida. Athlone não oferece a mesma variedade de Dublin, mas pode permitir mais espaço e deslocamentos menores. A decisão deve considerar trabalho, transporte, acomodação, escola de inglês quando aplicável e preferências pessoais.

A diferença na cultura de trabalho

Antes de emigrar, Fábio vivia no Rio de Janeiro, trabalhava perto da Barra e morava em Botafogo. O trajeto combinava diferentes meios de transporte e levava cerca de uma hora e quinze minutos em cada direção. Em alguns dias, ainda dava aulas em uma faculdade e chegava em casa perto das 23h.

A rotina era desgastante e afetava a convivência com a família. Na Irlanda, encontrou uma cultura com mais respeito ao horário de saída e menos expectativa de horas extras constantes. Essa mudança de ritmo se tornou uma das principais melhorias da vida fora do Brasil.

Isso não significa que toda empresa irlandesa funcione da mesma maneira. Equipe, liderança e fase do projeto fazem diferença. Ainda assim, a experiência de Fábio contrasta com a normalização do excesso de trabalho que havia encontrado anteriormente.

Como avançar em TI na Irlanda

A trajetória de Fábio reúne algumas ações práticas: construir fundamentos, ganhar experiência real, estudar inglês, deixar LinkedIn e currículo preparados para o mercado internacional e buscar formação coerente com a área escolhida.

Para redes e infraestrutura, certificações podem abrir portas, mas automação e programação ampliam as possibilidades. Para quem quer migrar para DevOps, uma base sólida em desenvolvimento ou operações é mais valiosa do que aprender apenas nomes de ferramentas. Para qualquer especialidade, a capacidade de adaptação continua essencial.

O episódio também mostra que uma carreira internacional raramente é uma linha reta. Fábio passou por provedor local, telecomunicações, grandes empresas, redes e DevOps. Cada etapa aproveitou conhecimentos anteriores e acrescentou uma nova camada.

Assista à conversa completa para acompanhar os exemplos técnicos, as perguntas do público e os detalhes da adaptação de Fábio à vida e ao trabalho em Athlone.