Aloredana Santiago: do Rio aos títulos de jiu-jitsu na Europa

A trajetória de Aloredana Santiago no jiu-jitsu na Europa começou de um jeito improvável. Ela nunca havia praticado esporte, trabalhava como costureira e recusou durante anos os convites para entrar no tatame. No Bolder Podcast 424, conta como saiu do Rio de Janeiro, chegou à Irlanda com pouco inglês e conquistou títulos em países como Itália, França, Portugal e Irlanda.

A conversa não trata apenas de medalhas. Aloredana fala sobre luto, falta de perspectiva, ajuda de professores e empregadores, o risco de um corte de peso extremo e a forma como conciliou estudo, trabalho e treinamento em Dublin.

Publicidade

Como Aloredana conheceu o jiu-jitsu?

Um amigo tentou convencê-la a treinar entre 2010 e 2018, sem sucesso. A aproximação real aconteceu em 2019, quando Aloredana foi contratada por uma fábrica de quimonos. Ela já sabia operar as máquinas, mas nunca tinha trabalhado com o tecido e a construção específicos de um quimono.

A dona da empresa, ex-atleta de judô do Flamengo e faixa-marrom de jiu-jitsu, insistia para que ela experimentasse o esporte. Aloredana só mudou de ideia depois de trabalhar no estande da marca durante uma competição. Ao entrar no ginásio e observar as lutas, sentiu o que descreve como amor à primeira vista.

Os primeiros treinos foram interrompidos pela pandemia, mas o trabalho com quimonos manteve Aloredana próxima do circuito. Nesse período, conheceu a história de Gabi Pessanha, atleta da Cidade de Deus que se tornaria uma de suas maiores referências.

Treinar na Cidade de Deus mudou o caminho

Quando as academias reabriram, Aloredana decidiu se mudar para a Cidade de Deus para treinar. Pessoas próximas temiam que, após a morte da mãe e um período turbulento, ela estivesse tomando uma decisão errada. O objetivo, porém, era claro: ficar perto da equipe e levar o jiu-jitsu a sério.

Na academia, encontrou apoio técnico e pessoal. O professor Márcio de Deus virou uma figura importante em sua vida, enquanto Gabi Pessanha passou de inspiração distante a amiga e parceira de treino. Aloredana também conseguiu emprego em outra empresa de quimonos, cujo proprietário, Sérgio, apoiava suas viagens e inscrições.

Em seu primeiro Campeonato Brasileiro como faixa-branca, chegou ao segundo lugar. Depois, já na faixa-azul, voltou ao torneio, fez quatro lutas e conquistou o título. A vitória tinha um peso emocional adicional: o campeonato ocorria em abril, período em que ela lembrava intensamente da mãe, falecida anos antes.

O World Pro em Dubai e o limite do corte de peso

Sem visto americano para disputar o Mundial nos Estados Unidos, surgiu a possibilidade de competir no World Pro, em Dubai. Para pagar a viagem, Aloredana pediu ajuda ao empregador. Em vez de simplesmente emprestar o dinheiro, ele separou 20 quimonos para que ela vendesse e ficasse com toda a arrecadação. Também a liberou por duas semanas.

O problema era a categoria: ela precisava chegar a 95 kg e tentou perder cerca de 30 kg em três meses. Treinou jiu-jitsu à noite, fez crossfit pela manhã e seguiu dietas sem acompanhamento profissional. Após o voo, ainda reteve peso e recorreu a longas sessões de sauna.

Mesmo perdendo cerca de 5 kg em um dia, o peso travou e ela ficou muito fraca. Professor e amigos decidiram interromper o processo antes que colocasse a saúde em risco. Aloredana não conseguiu lutar, mas a experiência deixou uma lição importante: nenhuma competição vale ultrapassar o limite do corpo. Cortes de peso extremos exigem acompanhamento médico e nutricional e podem ser perigosos.

Da competição em Dubai ao intercâmbio na Irlanda

Foi durante a viagem a Dubai que Aloredana se aproximou de Thiago, que vivia na Irlanda. Uma frase dele ficou na cabeça dela: oportunidades existem, mas as pessoas precisam dizer do que precisam. Depois da viagem, ela perguntou diretamente como poderia fazer um intercâmbio.

O plano avançou com apoio para documentos e passagem. Aloredana chegou à Irlanda em agosto de 2023 com € 400 e uma carta pela qual a escola se responsabilizava por ela. O começo exigiu adaptação: ela praticamente não falava inglês e entregou a pasta de documentos na imigração sem conseguir conversar.

Em Dublin, entrou na academia JS Brazilian Jiu-Jitsu. Recebeu uma bolsa de seis meses e continuou na equipe depois desse período. A convivência no treino e na escola ajudou no inglês; na entrevista, ela já conseguia conversar com colegas de diferentes países e percebia claramente a evolução.

Como ela conciliou trabalho, estudo e treino?

O primeiro trabalho na Irlanda foi em housekeeping. Nos primeiros dias, Aloredana também testou uma vaga numa loja de costura, mas teve dificuldades para receber. A experiência a levou a comprar uma máquina e começar a fazer ajustes de roupa em casa.

Essa atividade se transformou em segunda renda sem ocupar as noites de treino. Em vez de manter dois empregos externos, ela passou a combinar um trabalho regular com bainhas e ajustes feitos em casa. Depois, conseguiu uma vaga de fim de semana em uma cozinha no aeroporto, concentrando as 20 horas permitidas ao estudante em dois dias.

Durante a semana, continuava estudando e passou a auxiliar nas aulas infantis da academia. A iniciativa começou como trabalho voluntário; mais tarde, a equipe decidiu isentá-la da mensalidade.

Os títulos de Aloredana no jiu-jitsu europeu

A primeira competição europeia depois da mudança foi um Europeu No-Gi na Itália. Embora preferisse lutar com quimono e nunca tivesse disputado um campeonato sem ele no Brasil, venceu sua categoria e o absoluto.

Aloredana também conquistou peso e absoluto em um campeonato europeu na França. A graduação seguinte foi especial: mesmo treinando na Irlanda, quis receber a faixa-roxa das mãos de Márcio, seu professor no Brasil. Ele a graduou em Portugal, pouco antes do Europeu em Lisboa.

Na primeira competição como faixa-roxa, ela fez duas lutas na categoria e cinco no absoluto. Venceu as duas disputas e saiu de Lisboa com o chamado double gold: ouro no peso e no absoluto.

Dá para viver de jiu-jitsu?

Aloredana explica que a premiação em dinheiro se concentra principalmente na faixa-preta adulta e em determinados eventos. Para atletas em desenvolvimento, patrocínios de passagem, quimono e suplementos podem ser mais importantes do que prêmio direto.

O plano dela combina competição e empreendedorismo. Como conhece o esporte e sabe fabricar quimonos, pensa em criar a própria marca no futuro. Assim, pretende continuar no circuito mesmo que a renda não venha apenas das lutas.

O que o esporte mudou em sua vida?

Aloredana diz que chegou a pesar 180 kg e era sedentária. No momento da entrevista, estava perto de 120 kg, treinava regularmente e via no esporte uma mudança de qualidade de vida, disciplina e perspectiva — muito além da balança.

Em menos de dois anos na Irlanda, viajou para competir, aprendeu inglês, construiu uma nova rede de apoio e encontrou possibilidades profissionais ligadas à costura e ao jiu-jitsu. Ela não romantiza o processo: inscrições, passagens e quimonos custam caro, e quase todas as etapas dependeram de trabalho, planejamento e pessoas que decidiram apoiá-la.

Assista ao episódio completo para conhecer os bastidores das competições, a relação de Aloredana com seus professores e a estratégia que ela usa nas lutas da categoria superpesado.