O Brasileirão Dublin é um campeonato de futebol organizado por brasileiros na Irlanda, com equipes ligadas às torcidas dos clubes do Brasil. No Bolder Podcast 422, Felipe Vaz Guimarães explica como o torneio nasceu, quais são as regras, como um jogador pode participar e por que a competição se tornou também uma rede de apoio para quem vive longe de casa.
A entrevista foi transmitida em abril de 2025. Datas, número de equipes e formato descritos neste texto correspondem àquela temporada e podem mudar nas edições seguintes.
Quem é Felipe Vaz Guimarães?
Felipe é jornalista e apaixonado por futebol. Antes de morar na Irlanda, trabalhou com comunicação esportiva e chegou a apresentar um programa enquanto ainda cursava a faculdade. Também acompanhou Copas do Mundo no Brasil, na Rússia e no Catar, experiências que aparecem em vários momentos da conversa com Bolder.
Em Dublin, passou a participar da Fiel Dublin, grupo que reúne torcedores do Corinthians. Além de jogar, assumiu tarefas na organização do campeonato. Na temporada apresentada no episódio, dividia a coordenação com João, da Flu Dublin, e Renato, do Palmeiras Dublin, com apoio dos representantes das demais equipes.
Como surgiu o Brasileirão Dublin?
As torcidas brasileiras na Irlanda começaram como pontos de encontro para assistir aos jogos dos clubes. Fiel Dublin, Palmeiras Dublin, São Paulo Dublin, Fla Dublin e outros grupos divulgavam horários e pubs onde os torcedores poderiam acompanhar as partidas transmitidas do Brasil.
Em 2018, Fiel Dublin e Palmeiras Dublin já disputavam amistosos. Naquele ano, as duas equipes receberam convite para jogar um torneio ligado às torcidas italianas que se reuniam no pub The Living Room e no The Woolshed. Times como Milan, Torino e outros contavam inclusive com jogadores brasileiros. A final acabou sendo entre Palmeiras Dublin e Fiel Dublin.
O resultado mostrou que existia gente suficiente para criar uma competição brasileira. A primeira edição do Brasileirão Dublin aconteceu em 2019, com dez equipes. Entre elas estavam Fla Dublin, Fiel Dublin, Palmeiras Dublin, São Paulo Dublin, Santos Dublin, Grêmio Dublin, Galo na Irlanda, Paysandu e Dublinzeiros, nome adotado pelo grupo do Cruzeiro.
Como funciona o campeonato?
O campeonato é organizado de forma colaborativa. Não há um proprietário ou dirigente permanente: os responsáveis mudam com o tempo, os representantes dos times ajudam nas rodadas e alterações importantes no regulamento são levadas a votação.
A taxa de inscrição cobre os custos do próprio torneio. Organizadores e jogadores não recebem salário. Parceiros comerciais podem ajudar com troféus, medalhas e premiações, mas Felipe reforça que a competição existe principalmente graças ao trabalho voluntário de quem participa.
Copa e Brasileirão são torneios diferentes
Na temporada de 2025, a organização planejava duas competições. A Copa seria um torneio curto, com 12 times divididos em dois grupos, partidas de aproximadamente 25 minutos e mata-mata. O Brasileirão começaria depois, com 11 equipes jogando entre si e as oito melhores avançando para as fases eliminatórias.
Os jogos seriam realizados aos sábados, normalmente entre 10h e 13h, em duas quadras na região de Blanchardstown. O calendário previsto ia de 21 de junho a 4 de outubro, sujeito a mudanças conforme a disponibilidade do espaço.
Rodada de clássicos
Uma das datas mais aguardadas reúne clássicos como Corinthians x Palmeiras, Fla-Flu e Gre-Nal. Em 2024, o Gre-Nal foi colocado na abertura enquanto as torcidas mobilizavam ajuda para as vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul.
Quem pode jogar no Brasileirão Dublin?
A lógica principal é representar a torcida. Quem quer participar deve procurar o grupo do clube para o qual torce e verificar se existe uma equipe ativa. Muitos grupos usam no Instagram o nome do clube seguido de “Dublin”; outros adotam apelidos, como Fiel Dublin, Colorado Dublin e Dublinzeiros.
Para ajudar times com menos torcedores disponíveis, o regulamento citado por Felipe permitia até cinco jogadores que não torciam para aquele clube. Essas vagas também podiam receber atletas cujos times brasileiros não tinham equipe na competição.
Cada elenco poderia inscrever até 25 jogadores. Havia um prazo antes do início e uma janela durante o campeonato para completar vagas ou substituir quem se machucou, mudou de horário de trabalho ou deixou a Irlanda. Um atleta já inscrito não poderia simplesmente trocar de equipe no meio da disputa.
Quem chega tarde para a inscrição ainda pode ir aos jogos, conhecer as torcidas e participar de treinos e peladas. Mesmo quando não surge uma vaga imediata, o contato ajuda na integração com a comunidade e pode abrir oportunidade na edição seguinte.
É competitivo ou apenas uma pelada?
Existe resenha, mas os times levam o resultado a sério. A diferença técnica entre as equipes costuma ser pequena, e um favorito pode perder se entrar desfalcado ou relaxar. Alguns atletas reservam as folgas de sábado durante meses para conseguir disputar todas as rodadas.
A primeira edição terminou com a Fla Dublin campeã nos pênaltis sobre a Fiel Dublin. O São Paulo venceu uma edição seguinte, e a Flu Dublin conquistou três títulos consecutivos entre 2022 e 2024, segundo a retrospectiva apresentada por Felipe.
O campeonato já apareceu em matérias do Globo Esporte e mobiliza familiares e torcedores que acompanham transmissões improvisadas do Brasil. A organização, porém, ainda não tinha estrutura financeira para produzir uma transmissão oficial simultânea das duas quadras.
Como a rivalidade é controlada?
As provocações fazem parte, mas agressões podem gerar suspensão do atleta e até afastamento da equipe em uma edição. Felipe conta que já houve discussões durante jogos, embora muitas terminassem com os envolvidos conversando no pub pouco depois.
A vida de imigrante também muda a relação entre torcidas. Em uma cidade relativamente pequena, corintianos, palmeirenses, gremistas e colorados podem trabalhar juntos, dividir casa ou indicar emprego uns aos outros. Isso não elimina a rivalidade, mas cria um limite mais claro entre competição e convivência.
Mais do que futebol: uma rede para brasileiros na Irlanda
Para muitos participantes, o sábado é o principal momento de lazer da semana. O campeonato ajuda quem acabou de chegar a conhecer pessoas, encontrar moradia, receber indicações de trabalho e tirar dúvidas sobre a vida na Irlanda.
Nos primeiros anos, parte das premiações era destinada a instituições escolhidas pelos campeões. As equipes também realizaram campanhas de agasalho e outras ações comunitárias. A confraternização costuma continuar depois das partidas, com encontros em pubs parceiros e uma festa de encerramento para entregar medalhas e troféus.
E o futebol feminino?
Felipe reconhece que ainda faltava uma competição feminina estruturada. Já existiram iniciativas dentro de algumas torcidas, mas não havia equipes suficientes para manter um calendário. Ele defende que as próprias jogadoras participem da organização, com apoio da estrutura existente, para que o projeto reflita o que elas realmente precisam.
Como acompanhar ou participar?
O caminho indicado no episódio é procurar o perfil do Brasileirão Dublin e a torcida do seu clube nas redes sociais. Mesmo quem não joga pode assistir às rodadas, apoiar o time e conhecer outros brasileiros.
Assista à entrevista completa para conhecer a trajetória de Felipe, os bastidores da organização e as histórias de rivalidade, viagens e Copas do Mundo que ele compartilha com Bolder.
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