Como investir morando na Irlanda sem cair em promessas de dinheiro rápido? No Bolder Podcast 53, Thalita Conceição, criadora da Tia Rica, explica que o investimento é a última etapa de um processo que começa com comportamento, organização financeira e reserva de emergência.
A conversa parte da trajetória pessoal de Thalita. Antes de falar sobre ações, ETFs ou criptomoedas, ela trabalhou em Recursos Humanos, viu profissionais perderem o emprego sem qualquer planejamento, foi demitida durante uma reestruturação e chegou à Irlanda com inglês praticamente zero. Foi durante o intercâmbio que começou a estudar finanças de maneira estruturada.
Quem é Thalita Conceição, a Tia Rica?
Thalita é baiana e formada em Psicologia. Antes disso, chegou a cursar dois semestres de Publicidade e Propaganda, mas percebeu que aquela não era a área que procurava. Na Psicologia, direcionou a carreira para o ambiente corporativo, trabalhando com Recursos Humanos, desenvolvimento de pessoas, treinamentos e gestão.
Desde a faculdade, precisava gerar a própria renda. Por isso, optou pela Psicologia Organizacional, que oferecia retorno mais rápido do que construir uma carteira de pacientes na clínica. Seu último trabalho no Brasil foi em uma grande fábrica de cadeados e fechaduras, na região de Pirajá, em Salvador.
O que as demissões ensinaram sobre reserva de emergência
Entre as responsabilidades de Thalita estava a entrevista de desligamento. Ela conversava com funcionários que haviam acabado de perder o emprego e percebia um padrão: muitos não possuíam reserva de emergência, planejamento ou outra fonte de renda.
A situação não se restringia a pessoas com salários baixos. Durante um estágio voltado à recolocação profissional, ela atendia gestores e engenheiros experientes que haviam recebido salários altos durante anos, mas chegavam ao desemprego sem proteção financeira.
Thalita ainda não chamava aquilo de educação financeira. Sua reação foi guardar tudo o que conseguia na poupança e controlar gastos, motivada também pelo que via em casa: o pai continuava trabalhando como taxista porque a aposentadoria não era suficiente, enquanto a mãe havia deixado o emprego para cuidar da família e não possuía renda própria.
O alerta se tornou pessoal quando a empresa em que trabalhava foi vendida e a área de RH passou por uma reestruturação. Thalita soube antecipadamente que seria desligada e decidiu usar aquele momento para retomar o antigo sonho de morar fora.
O intercâmbio na Irlanda parecia impossível
Anos antes, ainda na faculdade, Thalita havia procurado uma agência e perguntado qual era o intercâmbio mais barato disponível. Quando recebeu o orçamento para a Irlanda, considerou o valor inalcançável e concluiu que estudar fora era “coisa de rico”.
Mais tarde, percebeu que o erro havia sido olhar apenas para o valor final. Um objetivo grande pode ser dividido em prazo, economia mensal e aumento de renda. Mesmo que o planejamento leve anos, ele deixa de ser apenas um desejo abstrato.
Na Irlanda, Thalita morou com uma família e trabalhou em funções como cleaner, home care e housekeeper. Ela chegou sem conseguir conversar em inglês e enfrentou dificuldades já na imigração em Londres, recorrendo ao tradutor para responder às perguntas.
O idioma evoluiu lentamente. Morar com uma família ajudava na compreensão, mas a vergonha dificultava a fala. Thalita estima que levou cerca de um ano e meio para se sentir mais desenvolvida. Depois, o inglês abriu acesso a cursos e professores dos Estados Unidos e ampliou as fontes disponíveis para estudar o mercado financeiro.
Como Thalita começou a investir?
A mudança aconteceu durante uma conversa com uma amiga, que perguntou se ela conhecia Tesouro Selic, CDB e bolsa de valores. Thalita não conhecia os produtos e associava ações a pessoas ricas e ao risco de perder tudo.
Ao pesquisar os termos, encontrou livros, vídeos e cursos sobre educação financeira. Descobriu também a Psicologia Econômica, área que estuda como emoções, experiências familiares e vieses cognitivos interferem nas decisões com dinheiro.
O começo, porém, foi invertido. Movida pela ansiedade, Thalita entrou primeiro em renda variável, depois estudou renda fixa e só então aprofundou a parte comportamental. No episódio, ela usa os próprios erros para defender uma sequência mais segura.
O investimento é a última etapa
Para Thalita, não faz sentido escolher ações antes de entender quanto entra, quanto sai e quais compromissos precisam ser protegidos. A construção pode ser resumida em etapas.
1. Entender a relação com o dinheiro
Família, ambiente e experiências anteriores influenciam o comportamento financeiro. Algumas pessoas gastam para obter recompensa imediata; outras guardam tudo por medo do futuro. Conhecer esse padrão ajuda a criar um plano que seja possível manter.
2. Organizar receitas, despesas e objetivos
Economizar não significa eliminar tudo o que traz prazer. Significa escolher prioridades. Durante um intercâmbio, por exemplo, pode ser necessário decidir entre viajar, trocar de telefone, renovar a escola ou enviar dinheiro ao Brasil. Tentar realizar tudo ao mesmo tempo tende a comprometer o orçamento.
3. Construir uma reserva de emergência
A reserva existe para imprevistos e períodos sem renda. Se for utilizada, precisa ser recomposta. Ela evita que uma queda no mercado obrigue o investidor a vender ativos em um momento ruim ou que uma emergência seja financiada com dívida cara.
4. Investir de acordo com objetivo e risco
Somente depois dessas etapas entra a escolha dos investimentos. O produto deve fazer sentido para o prazo, o objetivo e a tolerância a oscilações — não apenas porque está em alta ou foi indicado por alguém nas redes sociais.
Por que seguir a “manada” pode dar errado?
Thalita relaciona a Psicologia Econômica ao chamado efeito manada. Quando um ativo sobe e recebe atenção, muitas pessoas compram com medo de perder a oportunidade. Se o preço cai, vendem assustadas e transformam a oscilação em prejuízo.
No caso de ações, ela defende estudar os fundamentos da empresa, acompanhar os relatórios para investidores e compreender por que aquele negócio entrou na carteira. Gostar de uma marca ou ouvir uma recomendação não substitui análise.
Nos primeiros investimentos, Thalita acompanhava as cotações constantemente e ficava ansiosa com cada queda. Com estudo e experiência, passou a olhar menos para a variação de curto prazo e mais para a estratégia definida.
Bitcoin, ações e ETFs: qual é o melhor investimento?
A resposta de Thalita é que não existe um investimento universalmente melhor. Renda variável oscila, criptomoedas apresentam alta volatilidade, ETFs reúnem conjuntos de ativos e produtos de renda fixa têm características próprias. Cada alternativa resolve um problema diferente e envolve riscos distintos.
Ao falar sobre Bitcoin, ela evita recomendar compra ou venda. A abordagem é de diversificação e limite de exposição: antes de alocar qualquer valor, a pessoa deve entender o ativo e avaliar quanto suportaria ver oscilar sem comprometer objetivos essenciais.
Também não existe uma resposta única entre investir em ativos financeiros ou comprar um imóvel. Uma casa própria pode ter valor emocional e oferecer estabilidade, enquanto um imóvel para renda envolve financiamento, manutenção, vacância e burocracia. A decisão exige colocar números e prioridades na mesma análise.
É possível começar a investir com pouco dinheiro?
No episódio, Thalita explica que algumas plataformas permitem simulações com dinheiro fictício e compras fracionadas. O objetivo de começar pequeno não é enriquecer rapidamente, mas aprender a operar, observar a própria reação às oscilações e ganhar familiaridade.
Os valores mínimos, taxas, produtos disponíveis e corretoras citadas no vídeo refletem o período da gravação. Essas condições podem mudar, assim como a regulamentação e o tratamento tributário. Antes de abrir uma conta, é necessário verificar se a instituição está autorizada a operar e quais proteções se aplicam ao residente na Irlanda.
Impostos sobre investimentos na Irlanda
Thalita reforça a importância de registrar datas, preços de compra e venda, dividendos e país de origem dos rendimentos. A tributação pode variar conforme o ativo, a residência fiscal e a jurisdição envolvida.
As observações feitas no episódio não substituem orientação tributária atualizada. As regras irlandesas sofreram alterações desde a gravação e casos individuais podem exigir um contador ou consultor fiscal habilitado.
Como nasceu o projeto Tia Rica?
Depois de estudar o mercado brasileiro e fazer cursos online com professores americanos, Thalita percebeu que encontrava pouco conteúdo voltado especificamente a brasileiros que moravam na Irlanda e na Europa.
Um professor sugeriu que ela compartilhasse o conhecimento com a comunidade. Mesmo tímida e sem experiência nas redes, amadureceu a ideia. O nome surgiu da brincadeira de que quem mora na Europa se torna a “tia rica” da família, embora o cotidiano do imigrante envolva aluguel, escola, trabalho e muitos sacrifícios invisíveis para quem está no Brasil.
O projeto passou a abordar comportamento, organização financeira e investimentos. A proposta não era montar uma carteira para cada seguidor, mas ensinar as pessoas a fazer perguntas, analisar opções e assumir responsabilidade sobre as próprias decisões.
Como investir morando na Irlanda com mais consciência
A principal mensagem de Thalita é menos chamativa do que uma promessa de rentabilidade, mas muito mais útil: investimento não conserta uma vida financeira desorganizada. Antes de procurar a ação do momento, é preciso definir objetivos, controlar dívidas, manter uma reserva e conhecer a própria tolerância ao risco.
O episódio representa a experiência e as opiniões apresentadas por Thalita no momento da gravação; não é recomendação individual de investimento. Assista ao vídeo completo no topo da página para acompanhar a trajetória da psicóloga que transformou inquietações do RH e do intercâmbio no projeto Tia Rica.
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