Contador brasileiro na Irlanda: a trajetória de Alexandre Amarante

Ser contador brasileiro na Irlanda envolve muito mais do que preencher formulários ou calcular impostos. No Bolder Podcast, Alexandre Amarante conta como saiu de trabalhos de limpeza, criou um pequeno curso de inglês, enfrentou uma multa de € 6 mil e transformou esses aprendizados em uma carreira voltada a orientar empreendedores.

A conversa passa pela história pessoal de Alexandre, pela importância do planejamento financeiro para o imigrante e pelos cuidados necessários ao contratar serviços contábeis. Como o episódio foi gravado há alguns anos, valores, regras e programas mencionados refletem aquele momento; decisões fiscais atuais devem ser confirmadas com profissionais registrados e fontes oficiais.

Publicidade

Do trabalho de limpeza à contabilidade na Irlanda

Alexandre descreve uma fase em que recebia € 8,65 por hora trabalhando com limpeza. Ele pedalava de madrugada até o centro de Dublin, ouvia livros e conteúdos de motivação no caminho e, depois do expediente, estudava inglês. Ao chegar à escola, trocava a roupa de trabalho por terno e gravata.

Na época, dividia uma casa com 24 brasileiros e controlava os gastos de forma extrema. O objetivo, segundo ele, não era sustentar aquela rotina para sempre, mas usar o trabalho como etapa de um projeto maior. A ideia central do relato é clara: a ocupação do momento não precisava determinar o futuro profissional.

Esse planejamento também apareceu quando decidiu fazer um MBA. Alexandre calculou quanto precisaria para viver por mês e formou uma reserva capaz de sustentá-lo durante dois anos de estudo sem trabalhar. Para ele, qualificação não era uma promessa abstrata, mas um investimento que exigia orçamento, prazo e disciplina.

A primeira empresa e uma multa que mudou sua trajetória

Antes de consolidar a carreira contábil, Alexandre percebeu que muitos brasileiros reclamavam das aulas de inglês e da falta de contato com outros idiomas. Como dividia o quarto com um croata que ensinava inglês, propôs uma parceria: ele reuniria os alunos e o colega daria as aulas.

As turmas começaram dentro de casa, com cobrança de € 5 por pessoa, material e café incluídos. A iniciativa cresceu até ocupar três salas em uma escola. Alexandre afirma que o projeto faturou € 42 mil, mas também expôs um problema decisivo: ele ainda era estudante e não poderia conduzir aquela empresa da maneira como vinha fazendo.

O resultado foi uma multa de € 6 mil e o encerramento da atividade. No episódio, ele interpreta o caso como consequência direta da falta de informação. Se tivesse recebido orientação correta desde o início, diz que poderia ter escolhido uma estrutura compatível com sua situação migratória ou evitado abrir o negócio naquele momento.

Por que Alexandre vê o imigrante como empreendedor

Uma das ideias mais interessantes da conversa é que o imigrante já pratica comportamentos associados ao empreendedorismo. Ele avalia um destino, organiza recursos, aceita incerteza e investe em si mesmo. Isso não significa que todos precisem abrir uma empresa, mas que a mudança de país exige iniciativa e adaptação.

Para quem chega como estudante, Alexandre recomenda separar o custo básico mensal e trabalhar o suficiente para cobri-lo, reservando tempo para o inglês e a formação profissional. É uma visão exigente, baseada na experiência dele: trocar todo o tempo disponível por renda imediata pode dificultar a transição para uma área mais qualificada.

Como nasceu a consultoria para empreendedores

Alexandre conta que iniciou a consultoria com € 400. Já tinha o computador usado no mestrado, investiu em identidade visual, cartões de visita e um terno, e foi pessoalmente buscar os primeiros clientes. A empresa cresceu oferecendo contabilidade e suporte para quem desejava começar ou organizar um negócio na Irlanda.

O propósito surgiu justamente da experiência negativa com sua primeira empresa: reduzir a distância entre as regras irlandesas e o empreendedor imigrante. Na entrevista, ele destaca que pequenos clientes também merecem atenção, pois um profissional autônomo ou uma empresa nascente pode crescer quando recebe uma base contábil adequada desde o começo.

Como escolher um contador na Irlanda?

Alexandre faz um alerta direto sobre pessoas que oferecem serviços contábeis sem qualificação ou registro. O risco não desaparece porque alguém fala português ou parece conhecer o sistema: informações erradas, declarações incorretas e acesso indevido às contas podem gerar problemas para o próprio contribuinte.

  • Confirme se o profissional possui registro e certificações compatíveis com o serviço oferecido.
  • Entenda quem será responsável pelas declarações e documentos enviados.
  • Não compartilhe senhas pessoais como se isso fosse parte normal do atendimento.
  • Desconfie de promessas de economia garantida ou soluções que ignoram sua situação migratória e fiscal.
  • Peça uma estratégia individual, especialmente se ainda mantém renda, patrimônio ou investimentos no Brasil.

É preciso fazer faculdade para trabalhar com contabilidade na Irlanda?

No episódio, Alexandre explica que fez um MBA e depois seguiu o processo de provas para obter a qualificação contábil. Ele menciona um conjunto de 13 exames e a possibilidade de eliminar alguns conforme as certificações anteriores. O ponto defendido por ele é estudar de forma orientada à habilidade e ao reconhecimento profissional exigidos pelo mercado.

Os caminhos de certificação e os requisitos podem mudar. Portanto, quem pretende exercer a profissão deve verificar as regras atuais diretamente com as entidades contábeis irlandesas, sem tratar o relato do podcast como aconselhamento profissional atualizado.

Residência fiscal entre Brasil e Irlanda exige planejamento

Durante as perguntas do público, a conversa aborda quem muda para a Irlanda, mas mantém investimentos no Brasil. Alexandre reforça que não existe uma resposta automática válida para todos: é preciso considerar residência fiscal, declaração de renda, patrimônio, planos de retorno e transferência de recursos.

Esse é um dos pontos em que mais vale procurar orientação individual. Encerrar ou manter vínculos fiscais pode produzir efeitos nos dois países, e uma decisão tomada apenas com base em comentários de redes sociais pode sair cara.

O principal aprendizado da conversa

A história de Alexandre não apresenta o empreendedorismo como uma sequência perfeita de acertos. Pelo contrário: a multa, o fechamento da primeira empresa, os trabalhos de limpeza e os negócios que não prosperaram aparecem como partes importantes da formação dele.

Para quem quer empreender ou construir carreira na Irlanda, a lição é combinar ambição com preparação concreta: formar reserva, estudar, validar as regras, contratar profissionais qualificados e aceitar que o plano pode precisar mudar. Assista ao episódio completo para acompanhar os exemplos e as perguntas respondidas por Bolder e Alexandre.