Dança na Irlanda: a trajetória de Yves Lorrhan

Yves Lorrhan levou mais de duas décadas de experiência para trabalhar com dança na Irlanda. Baiano de Salvador, ele conta a Bolder como uma aula iniciada ainda na infância virou forma de expressão, profissão e ferramenta para criar comunidade depois da imigração.

Todo mundo consegue dançar?

Para Yves, sim. Ele diferencia a capacidade de movimentar o corpo da coordenação técnica, que pode ser desenvolvida com prática. A família já tinha músicos e artistas, mas ele próprio não queria começar.

O pai pagava cerca de R$20 por mês pelas aulas quando Yves tinha aproximadamente oito anos. A professora Sônia Bamberg foi direta: ele precisava participar ou sair. Quando finalmente entrou na atividade, descobriu algo que continuaria fazendo por décadas.

Preconceito contra homens na dança

Durante a infância e adolescência, Yves ouviu provocações e comentários que associavam dança a falta de masculinidade. Em vez de abandonar o palco, transformou a prática em espaço de liberdade e expressão.

Na escola e no projeto ligado à professora, participou também de apresentações sociais, inclusive em hospitais e atividades com crianças em tratamento de câncer. Mais tarde, integrou uma companhia.

Yves Lorrhan conversa com Bolder sobre dança na Irlanda
Yves fala sobre dança, imigração e os preconceitos enfrentados ao longo da carreira.

Engenharia ou dança?

A família desejava uma carreira considerada mais estável, deixando a dança como hobby. Yves cursou engenharia mecânica e levou sete anos para concluir a graduação prevista para cinco. Ele não descreve a dança como obstáculo: era o que dava energia para continuar.

Com o tempo, porém, a rotina repetitiva despertou vontade de mudança. A irmã já estava na Irlanda. Antes de chegar, Yves fez uma viagem de 52 dias por 12 países e desembarcou praticamente sem dinheiro. A irmã comprovou os recursos necessários, que ele depois devolveu.

Do trabalho em cozinha às aulas de dança

O primeiro emprego foi como kitchen porter em um restaurante indiano. O trabalho físico e o contato com produtos químicos fizeram Yves rever preconceitos sobre funções manuais e sobre a realidade de quem recomeça fora do Brasil.

Em outubro, começou a oferecer aulas gratuitas de dança em português em uma escola, durante cerca de três meses. Parcerias, indicações e uma coreografia para o casamento de uma influenciadora ajudaram a ampliar sua rede.

Dança durante a pandemia

A pandemia chegou pouco depois e interrompeu os planos presenciais. Yves reagiu com aulas e um projeto gratuito pela internet, usando o ambiente online para manter alunos conectados e alcançar novas pessoas.

Quais ritmos Yves ensina?

Sua base está nas danças a dois, incluindo samba, forró, bolero, tango, lambada e salsa. O episódio também aborda terapia, grupos de homens e a revisão de ideias sobre machismo e masculinidade.

A história de Yves mostra que trabalhar com dança na Irlanda envolveu técnica, rede de contatos e disposição para recomeçar em outra função. Assista ao episódio completo para acompanhar o caminho entre Salvador, a engenharia e as pistas de dança irlandesas.