De cleaner ao Critical Skills na Irlanda: Thallyette Maria

A trajetória de Thallyette Maria mostra o caminho de quem saiu de trabalhos como cleaner até conseguir uma vaga na própria área e, naquele momento, um Critical Skills na Irlanda. No Bolder Podcast, ela conta que chegou duas semanas antes do primeiro lockdown, enfrentou meses de incerteza e estruturou a busca por trabalho em contabilidade como um projeto.

O relato é de uma experiência pessoal vivida durante a pandemia. Regras migratórias, lista de profissões e critérios salariais mudam; portanto, as condições do visto obtido por Thallyette não devem ser usadas como regra atual para toda vaga de contabilidade.

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Formação em contabilidade e mudança rápida para a Irlanda

Natural de João Pessoa, Thallyette entrou na universidade aos 16 anos. Começou a trabalhar na área contábil ainda no segundo semestre da graduação, fez pós-graduação e, antes de emigrar, atuava na área fiscal de uma concessionária Nissan.

Uma amiga que já vivia na Irlanda falava sobre o país. Quando uma reestruturação resultou em sua demissão no Brasil, Thallyette decidiu transformar a ideia em plano. Entre a decisão e a chegada passaram-se aproximadamente três meses.

Ela desembarcou em março de 2020. Teve apenas três dias de aula antes do fechamento das escolas. Com cerca de € 3 mil — valor informado por ela e referente àquela época — gastou quase metade em depósito e aluguel, ainda sem documentação completa ou trabalho.

O primeiro trabalho como cleaner na Irlanda

Depois de aproximadamente um mês, surgiu o primeiro emprego: limpar 12 prédios de seis andares. Eram três horas pagas por dia, mas o deslocamento e as escadas tornavam a rotina muito mais longa. O trabalho era de domingo a domingo, com folga nos feriados bancários.

Thallyette também trabalhou como minder, fez limpeza de escritório e passou por situações humilhantes, como ter o serviço inspecionado em busca de pequenas marcas. Um momento especialmente difícil foi limpar uma mesa de escritório semelhante àquela em que trabalhava no Brasil.

Ela deixa claro, porém, que não via a limpeza como sua identidade definitiva. Era a fonte de renda daquele momento enquanto preparava a volta para a contabilidade.

Como ela melhorou o inglês fora da escola

Com as aulas presenciais interrompidas, Thallyette buscou outras formas de praticar. Morou com falantes nativos, ouviu podcasts, leu livros e puxou conversa em filas e lojas. Ela recorda como marco a primeira vez em que sonhou em inglês.

Para as entrevistas, estudava cerca de 30 minutos por dia o vocabulário técnico do próprio currículo. Também preparou uma apresentação curta sobre sua experiência — o conhecido elevator pitch — para conseguir explicar sua trajetória com segurança.

A estratégia para voltar à contabilidade

No início, Thallyette enviava de 20 a 30 currículos por dia e somou mais de 200 e-mails. O volume não trouxe a resposta esperada. A mudança aconteceu quando passou a adaptar cada candidatura à vaga, mesmo que algumas levassem até duas horas.

Ela organizou o LinkedIn, investiu em revisão de currículo, mentoria e preparação para entrevistas. Também estudou os termos técnicos que já dominava em português, para não perder oportunidades por falta de vocabulário.

Do estágio à folha de pagamento internacional

Uma oportunidade de estágio apareceu em um grupo. Foram quatro entrevistas. Embora a empresa a considerasse mais qualificada do que o cargo exigia, Thallyette aceitou a entrada porque queria experiência local.

A companhia recrutava profissionais para projetos de construção em seis países. Ela começou com contas a pagar, contas a receber e reconciliação. Depois de um período de treinamento, recebeu uma proposta para atuar em folha de pagamento em tempo integral.

No episódio, Thallyette explica que passou a administrar folhas em diferentes países, moedas, legislações e regras de hora extra. A empresa também apoiou o processo migratório que resultou em uma permissão Critical Skills conforme sua qualificação e o cargo daquela época.

Como funciona o Critical Skills hoje?

O Critical Skills Employment Permit possui critérios oficiais de ocupação, remuneração, qualificação e oferta de trabalho. A lista atual de profissões elegíveis inclui apenas determinados perfis e especializações na área contábil, não qualquer emprego em contabilidade.

Antes de aceitar uma promessa de patrocínio, confira o cargo exato, o salário, a duração do contrato e as regras vigentes no site oficial do governo irlandês. A história de Thallyette ajuda a entender uma estratégia de carreira, mas não substitui a análise atual de elegibilidade.

Não foi apenas sorte

Thallyette insiste que o resultado não veio de sorte. Houve rejeições, investimento de dinheiro e tempo, estudo diário, terapia e sacrifícios. A principal virada foi trocar candidaturas em massa por aplicações direcionadas e manter um objetivo profissional claro mesmo enquanto trabalhava fora da área.

Para quem quer trabalhar com contabilidade na Irlanda, o episódio oferece um roteiro realista: estudar inglês técnico, adaptar o currículo, compreender o formato das entrevistas, buscar experiência local e verificar com cuidado as regras migratórias atuais.