Trabalhar com DevOps na Amazon na Irlanda foi o resultado de uma trajetória que Mateus Müller começou aos 16 anos, em uma cidade pequena do Rio Grande do Sul. No episódio 96 do Bolder Podcast, ele explica o que é DevOps, detalha o processo seletivo que fez ainda no Brasil e mostra como estudo constante, experiência com suporte e inglês abriram o caminho para Dublin.
Mateus não apresenta a carreira como resultado de talento instantâneo. Seu primeiro estágio pagava R$ 450 e envolvia formatar computadores, fazer manutenção e aprender Linux. Anos depois, ele chegou à AWS para trabalhar como Cloud Support Engineer em uma equipe ligada a DevOps.
A conversa foi gravada em 2021. Processos de contratação, políticas de trabalho remoto, benefícios e regras migratórias mencionados no episódio retratam aquele período e podem ter mudado.
O que é DevOps?
Mateus começa separando duas áreas que historicamente trabalhavam com objetivos diferentes. O desenvolvimento quer entregar novas funções com rapidez. A infraestrutura precisa manter o sistema estável e disponível. Quanto mais mudanças entram em produção, maior pode ser o risco de falhas.
DevOps aproxima desenvolvimento e operações para que os dois lados trabalhem com o mesmo objetivo: entregar software mais rapidamente, sem abrir mão da confiabilidade. Mais do que uma ferramenta ou um cargo fechado, Mateus descreve DevOps como uma cultura de colaboração.
O profissional costuma ter um pé em cada lado. Precisa compreender infraestrutura, redes, sistemas operacionais e automação, além de saber programar o suficiente para criar scripts e conversar com desenvolvedores. Essa combinação amplia a curva de aprendizado e ajuda a explicar a procura por profissionais qualificados.
É preciso fazer faculdade para trabalhar com DevOps?
Mateus fez um tecnólogo de três anos em Análise de Sistemas. Para ele, o diploma não substitui a experiência, mas a faculdade facilitou o primeiro passo porque permitiu disputar estágios e entrar no mercado ainda no primeiro semestre.
Seu primeiro estágio foi na prefeitura de Sapiranga. Ele formatava máquinas, limpava computadores e começou a trabalhar com Linux. Depois experimentou um estágio em programação, não gostou da rotina e decidiu seguir outro caminho dentro da tecnologia.
A formação em TI, portanto, não obriga o aluno a se tornar desenvolvedor. O setor também reúne infraestrutura, segurança da informação, redes, suporte, nuvem, gestão de projetos, análise de dados e outras especialidades.
Para quem pretende mudar de carreira, Mateus considera a faculdade uma forma organizada de adquirir base e encontrar uma vaga de estágio. O resultado, porém, depende da iniciativa do aluno. Frequentar as aulas sem estudar, praticar e procurar oportunidades não cria experiência profissional por conta própria.
Do estágio em Sapiranga à experiência em multinacionais
Um dos primeiros grandes passos foi participar de um treinamento e conseguir uma oportunidade na Dell, em Eldorado do Sul. O trajeto exigia percorrer aproximadamente 148 quilômetros por dia desde a cidade onde morava.
No suporte, Mateus aprendeu a trabalhar sob pressão, investigar problemas e ajudar clientes. Essa experiência se tornaria importante mais tarde, porque sua função na AWS também combinaria conhecimento técnico com atendimento.
O passo seguinte foi buscar uma empresa em que pudesse usar inglês diariamente. Ao entrar em uma multinacional e conversar com pessoas de diferentes países, ele descobriu que não precisava dominar toda a gramática para trabalhar: precisava compreender, responder e manter a conversa em movimento.
Por que Mateus não se considerava talentoso?
Na faculdade, Mateus se comparava com colegas que concluíam exercícios de programação em poucos minutos enquanto ele levava a atividade para casa. A mudança ocorreu quando decidiu estudar um pouco todos os dias, sem esperar facilidade imediata.
Ele defende a combinação entre teoria e prática. Pesquisar uma mensagem de erro, encontrar uma solução e simplesmente copiá-la não basta. O profissional precisa compreender o que está aplicando, testar o conhecimento e conseguir explicá-lo depois em uma entrevista.
Essa consistência é especialmente importante em DevOps, uma área em constante mudança. Tecnologias e ferramentas evoluem, e o que foi estudado no ano anterior pode deixar de ser suficiente.
O inglês foi decisivo para trabalhar na Amazon
Mateus fez uma primeira entrevista para a Amazon em Dublin e não passou. O principal obstáculo foi o inglês: ele afirma que não conseguiu compreender o entrevistador irlandês e saiu do processo sabendo exatamente o que precisava melhorar.
Nos dois anos seguintes, trabalhou usando inglês diariamente e continuou se candidatando a vagas internacionais. Participou de cerca de cinco processos e procurou aprender alguma coisa com cada negativa. Quando voltou a entrevistar com a Amazon, já estava tecnicamente mais preparado e conseguia sustentar a conversa.
Antes disso, em 2018, Mateus e a então namorada — depois sua esposa — haviam feito um intercâmbio de um mês na Irlanda. O período não foi suficiente para transformar completamente o idioma, mas mostrou que existia um mercado global fora do Brasil. Exatamente três anos depois, ele retornou ao país para morar e trabalhar.
Como foi o processo seletivo da Amazon?
O processo relatado por Mateus começou com a indicação de um conhecido que já trabalhava na empresa. A recomendação ajudou o currículo a chegar ao recrutamento, mas não eliminou nenhuma das avaliações.
Primeiro veio um teste técnico de múltipla escolha com perguntas sobre Linux, redes e segurança da informação. Depois, Mateus conversou com outro Cloud Support Engineer. A entrevista avaliou conhecimentos técnicos relacionados à vaga, incluindo Linux, redes e Kubernetes, e também situações profissionais ligadas aos princípios de liderança da empresa.
A recomendação recebida foi estruturar as respostas pelo método STAR:
- Situação: qual era o contexto do problema;
- Tarefa: qual responsabilidade Mateus possuía;
- Ação: o que ele fez para resolver a situação;
- Resultado: qual foi o efeito, preferencialmente demonstrado com números.
Na primeira entrevista, o desempenho em um dos tópicos não foi suficiente. Em vez de encerrar o processo, a empresa ofereceu uma nova conversa sobre aquele conteúdo. Mateus estudou novamente, passou pela segunda avaliação e avançou.
Quatro entrevistas consecutivas
A etapa final reuniu quatro entrevistas consecutivas, cada uma com aproximadamente uma hora e conduzida por pessoas diferentes. Por causa de uma confusão com o fuso horário, Mateus começou às seis da manhã no Brasil e terminou por volta das dez.
Em condições normais, ele explica que essa fase poderia ocorrer presencialmente em Dublin, com viagem paga pela empresa. Como o processo aconteceu durante a pandemia, todas as conversas foram remotas. Após aproximadamente dois ou três meses entre as etapas, Mateus recebeu a aprovação.
Quais conhecimentos foram cobrados?
Na vaga de Mateus, redes de computadores e Linux formavam a base. Os temas adicionais dependiam da especialidade da equipe. A AWS possuía grupos voltados a bancos de dados, segurança, redes, análise, Windows, Linux, dispositivos móveis e diferentes conjuntos de serviços.
Linux aparece com destaque porque grande parte da infraestrutura de nuvem utiliza servidores baseados nesse sistema. Para resolver problemas complexos de clientes, não basta instalar uma distribuição: é necessário compreender processos, permissões, rede, armazenamento e o funcionamento do sistema operacional.
Programação também faz parte do trabalho, mas Mateus diferencia sua função da de um desenvolvedor. Ele criava automações e scripts para ajudar clientes, sem dedicar o dia inteiro à construção de aplicações.
O que faz um Cloud Support Engineer na AWS?
Mateus prestava suporte a clientes que utilizavam serviços da AWS. O atendimento acontecia por e-mail, chat e ligações. Seu trabalho era entender o problema, investigar possíveis causas e ajudar o cliente a utilizar a infraestrutura de maneira adequada.
Ele recomenda gastar boa parte do tempo definindo corretamente o problema. Perguntas abertas e fechadas ajudam a separar sintomas de causas. Depois disso, o profissional levanta hipóteses, testa cada uma e segue um caminho lógico até encontrar a solução.
Quando o próprio conhecimento não é suficiente, a equipe conta com especialistas e níveis de suporte mais experientes. Saber pedir ajuda faz parte do trabalho; não existe expectativa de que uma única pessoa domine todos os serviços da plataforma.
Comunicação é tão importante quanto conhecimento técnico?
Sim, principalmente em uma função de suporte. Mateus precisa conduzir conversas com vários participantes, adaptar o nível da explicação e transformar problemas complexos em instruções compreensíveis.
Um cliente iniciante precisa de contexto e orientação. Outro, com conhecimento semelhante ao do engenheiro, espera uma conversa muito mais técnica. Saber identificar quem está ouvindo evita explicações desnecessárias e reduz o tempo até a solução.
Mateus considera a comunicação um de seus principais diferenciais no processo seletivo. Ele ainda tinha pouca experiência específica em DevOps, mas já acumulava anos de suporte e contato com clientes internacionais.
Como foi a mudança do Brasil para a Irlanda?
A Amazon ofereceu um pacote de realocação para Mateus e sua esposa. Eles chegaram à Irlanda em agosto de 2021, quando ainda existiam restrições sanitárias para viajantes não vacinados.
Como ele ainda não havia recebido a vacina no Brasil, ficou 11 dias em quarentena obrigatória em um hotel. O transporte ocorreu dentro da operação organizada pelas autoridades irlandesas. Durante o isolamento, Mateus aproveitou o notebook e começou a desenvolver um curso sobre Linux.
Depois de sair do hotel, teve alguns dias para organizar a casa e iniciou o trabalho no fim de agosto. O relato demonstra que era possível ser contratado ainda no Brasil, desde que o candidato possuísse o perfil buscado e a empresa tivesse estrutura para cuidar do processo migratório e da mudança.
Como começar uma carreira em TI?
Se estivesse começando novamente, Mateus procuraria uma formação que permitisse disputar estágios o quanto antes. Em seguida, tentaria entrar em uma multinacional no Brasil para adquirir processos profissionais, experiência com equipes internacionais e contato diário com inglês.
Para quem ainda não tem muita experiência, ele recomenda procurar empresas grandes com estrutura para formar profissionais em níveis iniciais. Já candidatos seniores podem compensar eventuais limitações no idioma com conhecimento técnico muito específico, embora a comunicação continue necessária.
Também é importante explorar as próprias vantagens. Uma pessoa pode não ser a mais forte em programação, mas talvez tenha experiência com atendimento, organização, gestão ou comunicação. A tecnologia é ampla o suficiente para reunir perfis diferentes.
Como usar o LinkedIn para procurar vagas de tecnologia?
Mateus chama o LinkedIn de uma das principais ferramentas do profissional de TI. Para ele, não basta criar o perfil e esperar. É preciso utilizar a plataforma como rede social: publicar aprendizados, interagir, compartilhar projetos e conversar com pessoas da área.
A estratégia combina conhecimento e visibilidade. Estudar sem mostrar o que foi construído dificulta ser encontrado. Fazer marketing pessoal sem uma base técnica pode até atrair recrutadores, mas o candidato não sustentará a entrevista.
O caminho recomendado é aprender algo, criar um pequeno projeto, explicar o resultado e ampliar gradualmente a rede com profissionais e recrutadores relevantes. A indicação que levou Mateus à Amazon nasceu justamente de uma conexão profissional, mas a contratação só ocorreu depois que ele demonstrou capacidade em todas as etapas.
DevOps vale a pena?
A trajetória de Mateus mostra uma área com oportunidades, mas também com exigência constante de estudo. DevOps pode valer a pena para quem gosta de compreender sistemas, investigar falhas, automatizar tarefas e aprender tecnologias novas. Entrar apenas pela expectativa de salário torna difícil manter o ritmo necessário.
Mateus saiu de um estágio básico, passou por suporte, aprendeu inglês no trabalho e usou uma reprovação como diagnóstico. A vaga na Amazon não chegou de um salto: foi construída por quase uma década de prática, mudanças de empresa e estudo consistente.
No episódio completo, Bolder e Mateus também conversam sobre trabalho multicultural, rotina remota, possibilidades de crescimento dentro de empresas globais e os erros mais comuns de quem tenta entrar em TI sem escolher uma área.
Continue acompanhando o Bolder
Histórias reais de brasileiros pelo mundo: imigração, intercâmbio, carreira e vida fora do Brasil.
💥 Recursos para você
Alguns links são de parceiros e podem apoiar o Bolder sem custo adicional para você.
🤝 Parceiros
Conheça as empresas que apoiam o Bolder Podcast.
📱 Mais Bolder
#irlanda #intercambio #imigracao
