Dar a volta na Irlanda a pé já seria um desafio enorme. Vinicius Cardoso acrescentou uma mochila de até 15 quilos, noites em barraca e um propósito: visitar estações de salvamento marítimo e arrecadar fundos para o RNLI Lifeboats. No Bolder Podcast 475, ele reconstrói os 43 dias de uma jornada de mais de 2.300 quilômetros pela costa da ilha.
A aventura conecta diferentes partes da vida de Vinicius. Ele é designer gráfico, artista plástico, professor de jiu-jítsu, corredor de longa distância e voluntário em um santuário de animais. A disciplina necessária para conciliar essas atividades também aparece na forma como planejou o percurso.
Quem é Vinicius Cardoso?
Natural de São José dos Campos, em São Paulo, Vinicius chegou à Irlanda em 2008, aos 24 anos. O desejo de morar fora existia desde os 12 ou 13 anos, e ele embarcou já imaginando que não voltaria ao Brasil para viver.
Nos primeiros meses, estudou inglês e passou por pubs e cafés. Cerca de um ano e meio depois, encontrou em um site de empregos uma vaga para assistente no estúdio de um artista irlandês.
Vinicius trabalhava como designer gráfico no Brasil e produzia pequenas esculturas por interesse pessoal, mas não tinha formação acadêmica em arte. Explicou isso com sinceridade na candidatura e foi contratado por Patrick O’Reilly.
O trabalho com o escultor Patrick O’Reilly
No estúdio, Vinicius aprendeu processos de produção de esculturas em bronze e passou a trabalhar em outra escala. Algumas peças chegam a vários metros de altura e exigem modelagem em cera, divisão do trabalho em partes e fundição.
Entre as obras conhecidas de O’Reilly estão os ursos de bronze que aparecem em diferentes pontos da Irlanda. Vinicius participa da execução e, paralelamente, desenvolve pinturas próprias. Parte da produção mais recente foi inspirada nas paisagens vistas durante a jornada ao redor da ilha.
Como começou a correr longas distâncias
A corrida entrou na rotina como complemento ao jiu-jítsu. Vinicius fazia cinco ou dez quilômetros para melhorar o condicionamento. Em 2017, depois da morte do pai, procurou um objetivo novo que exigisse concentração e dedicação.
As distâncias cresceram para 20, 30, 50 e 60 quilômetros. Durante a pandemia, completou desafios de 80 quilômetros e percebeu que se identificava mais com resistência do que com velocidade.
Em 2024, percorreu a Ireland Way, rota de aproximadamente mil quilômetros entre o sul e o norte da ilha. Concluiu o trajeto em 19 dias, carregando barraca, saco de dormir, alimentação e todo o equipamento.
O projeto para dar a volta na Irlanda a pé
Depois da Ireland Way, um amigo ligado ao RNLI sugeriu transformar o próximo desafio em uma arrecadação. O RNLI mantém equipes voluntárias de resgate marítimo na Irlanda, Irlanda do Norte e outras partes do Reino Unido.
Vinicius decidiu sair de Howth, contornar a costa, atravessar a Irlanda do Norte, seguir por Donegal, costa oeste e Cork e então retornar. O roteiro foi organizado em torno das estações de lifeboats.
A arrecadação foi feita por uma página no GoFundMe e ganhou visibilidade nas redes sociais e em reportagens. Vinicius deixa claro que arcou com os próprios custos; as doações da campanha foram destinadas à instituição.
Mais de 2.300 quilômetros em 43 dias
Vinicius estima que o percurso tenha passado de 2.300 quilômetros. A meta cotidiana era avançar cerca de 50 quilômetros, ajustando o ritmo conforme terreno, clima e condição física.
Ele carregava entre 12 e 15 quilos. Na mochila estavam barraca, colchão inflável, saco de dormir, roupas, comida, telefone, relógio, GoPro, um pequeno drone e power banks. O peso mudava conforme consumia e repunha os suprimentos.
Não havia carro de apoio. Se errasse a rota, sentisse dor ou tivesse um problema com o equipamento, precisaria resolver sozinho. Para Vinicius, essa autonomia era parte essencial do desafio.
Como ele organizava alimentação e energia
A Irlanda permitia reabastecer com frequência porque quase todos os dias o trajeto passava por alguma pequena cidade. Por isso, Vinicius levava comida para um ou dois dias, sem carregar fogão.
As estações do RNLI também ajudavam com recarga dos power banks. Quando havia gramado ou uma área disponível, ele pedia autorização para montar a barraca nas proximidades e recolhia os equipamentos carregados na manhã seguinte.
Onde Vinicius dormiu durante a volta à Irlanda?
Das aproximadamente 42 noites, cerca de 35 foram em barraca. Algumas aconteceram em campings, onde ele pagava para usar chuveiro e tomadas. Em outras, pessoas que acompanharam a jornada ofereceram cama e jantar.
Uma das paradas foi em Bangor, na Irlanda do Norte, na casa de alguém que havia conhecido o projeto pelas redes sociais. Depois de vários dias dormindo no chão, encontrar uma cama seca e quente tinha um valor enorme.
Mesmo com um bom saco de dormir, o descanso raramente era completo. Tempestades faziam a barraca sacudir, o colchão perdia ar e a umidade dificultava a recuperação do corpo.
Os desafios físicos e mentais do percurso
Estradas estreitas, trânsito, vento, chuva e falta de acostamento exigiam atenção constante. Nos primeiros dias, Vinicius se irritava com a necessidade de sair da pista e entrar em áreas com espinhos sempre que um veículo se aproximava. Depois, entendeu que precisaria aceitar aquela dinâmica.
O corpo sentia dores e cansaço, mas ele considera a preparação psicológica ainda mais importante. A cada noite verificava a rota do dia seguinte e estabelecia um destino. Pela manhã, desmontava o acampamento e retomava a rotina, independentemente da qualidade do sono.
Essa relação com desconforto também vem do jiu-jítsu. Vinicius dá aulas para crianças e adultos em Howth e usa uma frase conhecida no esporte: faixa-preta é o faixa-branca que não desistiu.
Arte, jiu-jítsu e voluntariado com animais
Além do estúdio e da academia, Vinicius reserva parte do tempo para um santuário de animais no condado de Meath. O local recebe cães, cavalos, aves e animais exóticos abandonados ou machucados.
O trabalho envolve alimentação, manejo e apoio à recuperação. Alguns animais podem voltar à natureza; outros permanecem no santuário porque já não conseguiriam sobreviver sozinhos.
O que a jornada ensinou
Depois de semanas vivendo com o mínimo, Vinicius passou a valorizar cama, banho, banheiro e a possibilidade de preparar um café quando quisesse. A aventura também reforçou a confiança de que consegue enfrentar problemas sem abandonar um objetivo.
Ele registrou cada um dos 43 dias e começou a transformar as imagens em novos projetos artísticos. No episódio completo, Vinicius detalha o planejamento, os encontros pelo caminho e o esforço necessário para atravessar toda a costa irlandesa com o próprio corpo e tudo o que precisava nas costas.
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