Engenheira brasileira na Irlanda: a trajetória de Beatriz Gilli

A trajetória de Beatriz Gilli como engenheira brasileira na Irlanda passou por uma mudança de vida provocada por um susto de saúde, empregos fora da profissão, uma tentativa frustrada de visto e uma reformulação completa da maneira como ela procurava trabalho.

No Bolder Podcast, Beatriz conta a Bolder como deixou uma carreira consolidada na construção civil em São Paulo, trabalhou como au pair, faxineira, camareira e vendedora e, depois de muitos obstáculos, voltou à engenharia. Ela também explica as diferenças entre trabalhar com projetos no Brasil e na Irlanda e fala sobre a criação do EU.Engineer.

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Como Beatriz começou na engenharia civil

Beatriz costuma dizer que foi a engenharia que a escolheu. Aos 17 anos, ainda dividida entre exatas e humanas, encontrou sobre a mesa uma matrícula feita pelo pai para Engenharia Civil. Prestou o vestibular, entrou entre os primeiros colocados e começou o curso.

Os primeiros anos, cheios de matemática, física, química e cálculo, não foram fáceis. Ela lembra dos fins de semana na biblioteca tentando compreender cálculo estrutural com a ajuda de colegas. Ainda assim, seguiu adiante e se formou em 2009.

A experiência profissional começou no primeiro semestre da faculdade. Trabalhou em escritórios de projetos e depois foi para uma construtora, acompanhando obra, assistência técnica, garantias e problemas relatados pelos compradores. Ficou cerca de seis anos nessa empresa depois de formada e atendia desde projetos populares até clientes de alto padrão.

O susto de saúde que levou à mudança

Em 2015, um exame de rotina identificou um nódulo na tireoide. A biópsia não conseguiu determinar se era câncer, e o médico indicou cirurgia. Naquele momento, Beatriz estava noiva, morava com os pais e organizava uma vida que parecia já estar definida.

A possibilidade de uma doença grave fez com que ela questionasse se estava realmente feliz. Terminou o noivado e decidiu buscar outra experiência. Uma amiga que já vivia na Irlanda ajudou a transformar a vontade de mudança em um plano concreto.

A cirurgia revelou que o nódulo não era cancerígeno. No pós-operatório, Beatriz comprou o intercâmbio e calculou quantos meses ainda precisava trabalhar para pagar a escola e reunir a comprovação financeira exigida na época. Comunicou à empresa que viajaria em fevereiro, e o diretor concordou em desligá-la com seus direitos.

Os primeiros empregos de Beatriz na Irlanda

Apesar dos anos de curso de inglês no Brasil, ela encontrou dificuldade já na imigração. Entendia parte das perguntas, mas não conseguia explicar com segurança como havia pago o intercâmbio e por que trazia uma quantia maior. Um casal brasileiro que estava próximo ajudou na comunicação.

No primeiro mês, Beatriz ainda se sentia de férias. Depois percebeu que precisava administrar sozinha casa, roupa, comida e trabalho — responsabilidades que antes dividia com a família. A primeira oportunidade foi substituir a amiga durante duas semanas como au pair de duas crianças.

Em seguida, por indicação de um colega da escola, tornou-se faxineira em um restaurante. Conforme o inglês melhorava, surgiam trabalhos diferentes: venda de cerveja em eventos, figuração em uma produção irlandesa, camareira e, por fim, vendedora em uma sex shop.

O emprego na loja durou quase um ano e meio. Para Beatriz, conseguir atender e vender em inglês representava uma evolução. Ela também percebeu uma diferença em relação à assistência técnica de construção: em vez de receber apenas clientes irritados com problemas no imóvel, atendia pessoas que normalmente entravam na loja de bom humor.

A primeira oportunidade na construção civil

Na segunda renovação do intercâmbio, Beatriz conseguiu um estágio de meio período em um escritório de arquitetura. O plano era adquirir experiência europeia até o fim do visto e depois viajar por China, Tailândia e Japão antes de voltar ao Brasil.

Quando faltava aproximadamente um mês para o visto expirar, o escritório ofereceu patrocinar uma permissão de trabalho. Ela cancelou a viagem e começou a pesquisar o processo. Antes que a solicitação fosse enviada, porém, a empresa desistiu por considerar o procedimento demorado e a dispensou.

Na mesma semana, a casa onde morava foi vendida, e ela recebeu dez dias para sair. Sem emprego, sem viagem e perto do fim da permissão, usou o dinheiro reservado para viajar e renovou o curso de inglês pela última vez.

Como conseguiu emprego de engenharia na Irlanda

Beatriz percebeu que havia enviado currículo para cerca de 150 empresas e recebido apenas três respostas. Concluiu que a estratégia estava errada. Contratou uma consultoria de carreira, refez o currículo, ajustou o LinkedIn e aprendeu a abordar empresas de maneira mais direta.

Como não conhecia o padrão construtivo irlandês, concentrou-se em vagas de escritório, especialmente como CAD technician. A experiência recente no escritório de arquitetura era o ponto mais fácil de conectar ao mercado local.

Recrutadores frequentemente interrompiam o processo quando descobriam que ela precisava de visto. Mais tarde, Beatriz entendeu que candidatar-se diretamente às empresas aumentava suas chances. Uma delas a chamou para entrevista — e é a mesma onde ela continuava trabalhando no momento do episódio.

Durante a conversa, o gestor mostrou os projetos. Beatriz foi honesta: nunca havia trabalhado exatamente com aquilo, mas estava disposta a aprender e não desperdiçaria a oportunidade. A empresa decidiu contratá-la e apoiou a solicitação da permissão.

Seis meses de incerteza até a aprovação do visto

O processo teve pedidos de documentos adicionais e correções no contrato. Em uma das etapas, a carga horária indicada fazia o salário parecer inferior ao mínimo exigido para a permissão. Em outra, o chefe demorou quase todo o prazo de 28 dias para fornecer um documento.

Sem compreender ainda que poderia permanecer enquanto o pedido estivesse em análise, Beatriz tentou solicitar outra extensão migratória. Foi informada de que deveria deixar o país e saiu desesperada. Dois dias depois, o chefe telefonou ao órgão responsável e descobriu que a autorização havia sido aprovada no dia anterior. Após aproximadamente seis meses de incerteza, a equipe comemorou com coxinhas na casa dela.

As diferenças da engenharia civil na Irlanda

No Brasil, Beatriz trabalhava principalmente com estruturas de concreto e ferragens. Na empresa irlandesa, passou a lidar com fundações, drenagem, esgoto, águas pluviais e abastecimento — áreas que conhecia de forma geral, mas nas quais não tinha experiência prática.

Com o tempo, sua comunicação e o conhecimento técnico abriram espaço para mais autonomia. Ela deixou de produzir projetos diariamente e tornou-se gerente de qualidade, realizando inspeções em obras, verificando se a execução correspondia ao projeto e cuidando de documentação e conexões de água.

Beatriz observa que a formação brasileira costuma ser abrangente. Enquanto algumas funções são cursos separados na Irlanda, a graduação em Engenharia Civil no Brasil apresenta várias dessas disciplinas. Muitos brasileiros também chegam com experiência adquirida durante a faculdade, algo menos comum entre recém-formados locais.

EU.Engineer: informação e conexão entre profissionais

As dificuldades para encontrar informação inspiraram Beatriz a tirar do papel o EU.Engineer. O projeto reúne conversas com engenheiros e arquitetos de diferentes especialidades e países, além de dicas sobre currículo, LinkedIn, entrevistas e mercado europeu.

Ela relata mensagens de seguidores que conseguiram entrevistas ou empregos depois de aplicar as orientações. O objetivo era transformar o canal em uma ponte entre profissionais brasileiros e empresas, com preparação e mentoria sem fingir domínio sobre áreas que não são sua especialidade.

Beatriz também fala abertamente sobre ter sofrido burnout ao conciliar o emprego integral com lives e produção de conteúdo. Depois disso, reduziu a frequência e começou a dividir responsabilidades com colaboradores.

É possível trabalhar como engenheiro na Irlanda?

A experiência de Beatriz indica que é possível, mas o conhecimento técnico sozinho não basta. Currículo adaptado, LinkedIn bem estruturado, candidatura direta, inglês suficiente para se comunicar e disposição para aprender o padrão local foram decisivos.

Ela recomenda não esperar dominar todo o vocabulário técnico antes de tentar. Termos específicos são adquiridos durante o trabalho; o importante é conseguir fazer perguntas, compreender orientações e demonstrar capacidade de adaptação.

Observação: o episódio foi gravado em 2021 e descreve regras, salários e procedimentos daquele período. Permissões de trabalho e requisitos profissionais podem mudar. Consulte os órgãos oficiais da Irlanda e as entidades da sua profissão antes de tomar decisões.

Assista à entrevista completa para acompanhar os detalhes da história de Beatriz, incluindo a transição de trabalhos temporários para a engenharia e a criação do EU.Engineer.